Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > M. F. NASCIMENTO BRITO (1922-2003)

Walter Fontoura

Por lgarcia em 12/02/2003 na edição 211

M. F. NASCIMENTO BRITO (1922-2003)


“Um amigo incomparável”, copyright Jornal do Brasil, 10/02/03

“Nascimento Brito – o Dr. Brito, como sempre o chamei – convocou-me em dezembro de 1973 para substituir Alberto Dines na chefia da redação do Jornal do Brasil. Foi uma surpresa enorme – e não só para mim. Eu representava o JB em São Paulo, não estava na linha da sucessão, imaginava o Dines insubstituível. Além disso, a reforma do Jornal do Brasil tem muitos pais e muitas mães, mas Alberto Dines, o editor-chefe que eu iria substituir, tinha sido o consolidador do projeto de renovação do jornal, que vivia naqueles dias um grande momento. Apesar da censura imposta à imprensa pelo Ato-5, a partir de dezembro de 1968, o JB era a grande referência da imprensa nacional. Era mais criativo, mais inteligente, mais bonito, tinha mais charme e mais prestígio que os outros – e Dines tinha tudo a ver com isso.

Não há, ainda hoje, nada comparável. Quando Bernard Campos, o principal executivo do jornal, me intimou a estar no Rio no dia seguinte, ?para assumir?, não acreditei.

Pensando tratar-se de mais uma divergência rotineira (e passageira) entre o Dr. Brito e o Dines, tentei argumentar. Não me sentia qualificado para o posto, estava vivendo muito bem em São Paulo, queria ficar por lá. Claro que não adiantou: no dia seguinte, em casa do Dr.Brito, em Santa Teresa, eu tentaria ainda fugir ao convite, sugerindo em meu lugar Carlos Lemos, o chefe da redação, ou Otto Lara Resende, mas foi em vão. Nascimento Brito e Bernard Campos recusaram todos os argumentos. – Não se preocupe, disse o Dr. Brito; eu lhe darei todo o apoio. Você vai se sair muito bem.

Nos próximos dias, ele me esperaria no gabinete dele, sempre pouco antes do meio-dia, riscando o jornal: ?Você prefere lápis vermelho ou azul??. E riscava em vermelho tudo de que não tinha gostado na edição daquele dia. Não gostei daquilo. Na segunda ou terceira sessão, resolvi me demitir. Mas ele me dissuadiu: ?Como é que você vai saber do que é que eu não gosto, se eu não disser?? Na primeira segunda-feira, reclamou:

– Não quero fotografia de futebol na primeira página na segunda-feira. Será que no Brasil não há outro esporte? O tênis, o golfe, dão belas fotos. Vamos acabar com esse negócio de só dar fotografia de futebol…?.

Caí das nuvens, o que é melhor do que cair do segundo andar, está certo, mas também não adiantou argumentar. Ele ficou firme. Na noite do domingo seguinte, descendo do fim de semana em Teresópolis, passei na redação para ver a edição da segunda-feira. E, assumindo como minha a decisão, decretei que precisávamos de outra foto: tínhamos que ?variar?, dar oportunidade a outros esportes. Eu não queria deixar transparecer quaisquer divergências com o Dr. Brito. Divergia lá, na sala dele, a sós.

Se ganhasse a discussão, bem; se perdesse, assumia a decisão como se minha. O secretário de redação José Silveira, velho e competente cozinheiro de jornal, olhou-me espantado naquela noite, acho até que com pena, mas não discutiu. Arranjou outra foto. Nas próximas três ou quatro semanas, a cena se repetiria. Até que consegui suspender a ordem, algum tempo depois, sob a promessa de variar, ou de tentar variar.

Não precisava ser sempre futebol: uma bela foto de um campo de golfe, de um jogo de tênis, ou de uma regata, podiam ter vez também. O que ele não queria era foto de futebol como regra. Depois dessas primeiras semanas de aprendizado, nunca mais vi lápis vermelho. Nossa relação se estenderia ainda por muitos anos, marcada sempre por cordialidade e respeito. E era um prazer: o apoio que me prometeu no dia do convite nunca faltou.

Como até hoje, os editoriais eram decididos numa reunião diária às 4 da tarde, com a presença da diretoria – Nascimento Brito, Bernard Campos, Lywal Salles e Sette Câmara ou Celso de Souza e Silva ( que se alternaram como diretores ) – e dos editorialistas. Havia debates, às vezes acalorados. E o Dr.Brito, de quem discordei muitas vezes, sabia ceder e adotar ponto de vista contrário ao seu. Houve tempo, ainda na Av. Rio Branco, em que participaram da reunião, além dos diretores, o editor-chefe Alberto Dines e os editorialistas Otto Lara Resende, Antônio Callado, Wilson Figueiredo, Pedro Gomes, Hélio Pólvora, Luís Alberto Bahia, José Lino Grünewald – e eu. Numa dessas reuniões, o Dr. Brito anunciou que ia ler um editorial que trouxera pronto. Depois, queria que cada um desse a sua opinião – contra ou a favor. Todos, com mais ou menos ênfase, opinaram pela publicação. Eu divergi. Fui contra. Surpreendentemente, o Dr. Brito rasgou o texto, para meu grande embaraço, e jogou-o no lixo:

– Quantos anos você. tem? – perguntou.

Eu tinha 30.

– Parabéns – disse ele – Você é um homem maduro.

Nessas reuniões, em que era uso tomar uma taça de champanhe ou trocar presentes, quando alguém fazia aniversário, o Dr. Brito teve sempre a delicadeza de não delegar a Antônio Callado, por exemplo, a redação de editoriais que pudessem ferir-lhe a sensibilidade política. Callado era adversário do governo, que chegou a proibi-lo até de exercer a profissão. O Dr. Brito, que à época assegurou-lhe o salário, em qualquer circunstância (o ato arbitrário foi logo revogado), entendia bem os escrúpulos de seu colaborador, poupando-o de assumir posições com que não estivesse de acordo – e isso apesar do fato de que os editoriais são sempre de responsabilidade do jornal, nunca de quem os escreve.

O que se procura buscar, durante a reunião dos editoriais, não é a opinião que cada um tem, ou deve ter, mas a opinião que, a juízo geral, deve ser publicamente assumida pela instituição, que é o Jornal do Brasil. Em relação ao divórcio, por exemplo, todos os editorialistas eram a favor. Mas o Jornal do Brasil, fiel à linha da Igreja Católica, manifestou-se sempre contra.

Em quase 20 anos de convivência, foram inúmeras as manifestações de apreço, de respeito, de confiança e de apoio que recebi do Dr. Brito. Um dia, em conversa comigo, ele se proclamaria ?um amigo incomparável?:

– Você ainda vai ver que sou um amigo incomparável.

Ao menos no que se refere a mim, é o que ele foi: um amigo incomparável.”

“Elegância no traje e no trato”, copyright Jornal do Brasil, 10/02/03

“Convivi com M. F. do Nascimento Brito por longos e longos anos, e Maneco (como ele permitia que eu e alguns outros amigos próximos o chamássemos), ainda mais do que um excepcional amigo meu, foi também uma das mais extraordinárias figuras da vida pública brasileira com que jamais travei contato. Do ponto de vista pessoal, não tenho como deixar de sentir falta do modo carinhoso como sempre me tratou, dos encontros semanais que promovíamos com outros amigos (sempre que possível, é claro, diante das constantes viagens que um ou outro de nós tinha que fazer), do modo sofisticado e freqüentemente extravagante como ele demonstrava haver-se lembrado de nós.

Devo a ele até mesmo a defesa pública de minha pessoa em processos em que me vi envolvido após a morte de meu pai e, graças a Maneco, meus direitos não foram de todo solapados. Se havia uma característica que marcasse o contato pessoal com Maneco, essa característica era sua elegância: não a do traje (embora essa ele também a tivesse, e em boa dose), mas a do trato. Se a doença tirou muito de sua antiga resistência nos últimos anos, nem por isso ele perdeu sua postura sempre digna e delicada com todos os que entravam em contato com ele.

O início de meu convívio com Maneco veio de seu casamento com Leda, que conheci em criança, em Botafogo, onde ambos morávamos. Os dois formaram um dos casais mais requintados do Rio de Janeiro e, se presenciei um casamento duradouro e charmoso, certamente foi o deles.

Naturalmente, de sua vida pública, poucos poderão esquecer a maneira corajosa e muitas vezes arriscada com que ele, à frente do Jornal do Brasil,defendeu a causa da democracia brasileira. Mesmo nos anos mais negros da ditadura, e mesmo pondo em risco a sua segurança e a de sua família, sua posição aberta em prol das liberdades civis no país foi inabalável. Nisso, é a ele que o Jornal do Brasilmuito deve por seu papel de líder do pensamento democrático. À frente do jornal, Maneco tudo fez para que ele continuasse sendo o formador de opinião mais lido no Brasil inteiro.

E, para finalizar, é impossível para mim deixar de ressaltar a sua atuação como presidente do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, cargo que ele exerceu desde 1985, imprimindo uma dinâmica à instituição após todos os seus percalços desde o incêndio de 1978. Foi a sua presença no MAM que me convenceu a assinar o comodato que garante o acesso público à coleção Gilberto Chateaubriand. Certamente, eu dificilmente teria feito fosse outro o dirigente do MAM. E, uma vez a coleção ali alocada, ele sempre foi o primeiro a incentivar o seu estudo, a sua correta conservação e um incentivador de sua permanente divulgação nacional e internacional: era um homem com a consciência de que as facilidades que a vida nos lega devem ser usadas em benefício coletivo, não de maneira egoísta. O fato de termos o Jornal do Brasil e o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro funcionando a pleno vapor são resultados de seu talento, de sua visão e de seu empenho pessoal, e só por si justificaria uma vida. Vida de que, daqui para a frente, fará falta a todos nós, seus amigos, e ao país.”

“A escola de jornalismo”, copyright Jornal do Brasil, 10/02/03

“Washington, anos 70, governo Carter: o Air Force One está pronto para decolar levando o presidente dos Estados Unidos para uma tumultuada visita ao Brasil e à Argentina. O JB participa da comitiva de imprensa da Casa Branca./Viena, solenidades do segundo acordo para limitação de armas nucleares: um grupo é sorteado entre os correspondentes estrangeiros para se posicionar frente à frente de Leonid Brejnev e Jimmy Carter no ato de assinatura do SALT II. O JB está na primeira fila. O repórter vê a mão trêmula de Brejnev, percebe que a história irá mudar em pouco. Registra./Anos 80, invasão soviética do Afeganistão: a reportagem do JB é enviada de Moscou para Kabul, pula barricadas e entrevista Babrak Karmal, que o Ocidente considerava um títere. Pode ser interessante entrevistar um títere./Fronteira entre o Iraque e o Iran, durante o bombardeio da refinaria de Abadan na primeira guerra do Golfo: o JB vai à frente de batalha, fotografa. A UPI distribui as fotos pelo mundo afora com um crédito à reportagem do jornal brasileiro.

Ocasionalmente o correspondente estrangeiro que esteve em todos esses lugares e cobriu todos esses momentos históricos fui eu. Poderia ser qualquer outro. Mas não seria se não tivesse passado pela escola de jornalismo que foi o Jornal do Brasil dirigido por Manoel Francisco do Nascimento Brito. Esse cidadão elegante, cavalheiro do império britânico, presidia diariamente a mesa de editoriais do JB propositadamente construída em forma de grande círculo. Seu papel à mesa, tanto quanto me lembro, sempre foi garantir algo que marcou a personalidade do jornal em tempos difíceis: independência de opinião, o que lhe custou caro. Muito caro.

Quando voltei ao JB como editor-chefe em 1998, Nascimento Brito tinha mudado pouco. Mais velho, continuava sentado em sua enorme cadeira à frente da mesa de trabalho tendo uma imagem quase patética de São Francisco às costas. Parecia olhar mais longe, mais para o infinito.

Certamente há quem prefira lembrar-se dele por seus pecados, mais do que pelas virtudes. Fico com o lado das virtudes. Nunca esqueci o dia em que, presidindo a mesa dos editoriais do jornal, ele contou, com a fina ironia que sublinhava suas memórias faladas, como se recusou a apertar um botão durante uma viagem ao Vietnã em guerra. O militar que orgulhosamente exibia a parafernália eletrônica para disparo de mísseis em um campo de provas talvez nunca tenha entendido sua reação: ?Está louco? Posso matar alguém…? Nascimento Brito era assim. Seus reflexos humanos sempre me pareceram mais importantes para o ofício do jornalismo do que eventuais erros estratégicos na escolha de uma rotativa ou na fixação do preço de um produto classificado, de que tinha o monopólio. São essas qualidades humanas que certamente deixarão sua marca na imprensa.

Dele guardo, também, a impressão do ?dono do jornalão?, como diriam alguns, que abriu espaços para os profissionais, com eles dividindo erros e acertos. Nos anos 60 e 70 o JB inovou em muitas áreas e em algumas – como o noticiário econômico – praticamente recriou todos os conceitos e formas de abordagem. Guardo, dessa época, a lembrança do dono de jornal que, tendo levado um amigo e craque do mercado para escrever uma coluna sobre a bolsa, ponderou depois com o editor que deveria substituí-lo por um repórter. Não porque o amigo manipulasse números, mas porque queria manter intacta a credibilidade de suas páginas e do próprio amigo – um próspero empresário financeiro, hoje transformado em industrial. Nascimento Brito foi também aquele que, informado sobre um jornalista da casa preso e torturado, me chamou para, junto com Otto Lara Resende, descobrir onde estava, usando todos os meios para libertá-lo, não importando o preço a pagar à ditadura. Esse gentleman nunca cobrou simpatia em qualquer formato populista.”

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem