Domingo, 24 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA DA GUERRA

Walter Salles

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

COBERTURA DA GUERRA

"Al Jazeera, Antonioni e a inversão do ponto de vista", copyright Folha de S. Paulo, 13/10/01

"Com o deslocamento do conflito para o Afeganistão, tudo parecia anunciar que imagens semelhantes às da Guerra do Golfo voltariam a tomar conta da televisão. Imagens frias e assépticas, como num videogame. Rastros luminosos de mísseis cortando a noite. Alvos representados por pequenos retângulos que subitamente desapareceriam. Explosões distantes, cujos efeitos mortíferos não seriam conhecidos.

A Guerra do Golfo, vista pela CNN e afins, deu ao público americano a ilusão de que violência e sofrimento não estavam obrigatoriamente associados: as vítimas do outro lado eram raramente focalizadas. É essa assimetria da dor que caiu por terra no dia 11 de setembro.

Agora, com as TVs ocidentais mantidas à margem de Cabul, a perspectiva de uma guerra ?higiênica?, sem que as consequências dos bombardeios sobre a população civil afegã fossem mostradas, parecia assegurada. Mas não.

O surgimento do canal de TV Al Jazeera, transmitindo do outro lado da fronteira (do que antes estava fora de quadro), anunciou uma outra forma de guerra. A das imagens.

Tudo começou com os dois pronunciamentos de Bush e Bin Laden, transmitidos um após o outro. Imagens menos espetaculares do que as dos atentados, mas possivelmente mais reveladoras das forças culturais e ideológicas em conflito. Os temas, paradoxalmente, são parecidos: a guerra santa, a cruzada contra ?o mal?, o ciclo de retaliações etc. Porém, há diferenças fundamentais na maneira com que a mensagem de um e de outro é concebida.

Bush olha direto para a câmera. Procura dar a impressão de que fala para o telespectador, mas percebe-se claramente que está lendo um texto no teleprompter. O desconforto com palavras que ele não escreveu é visível. O som, a luz, tudo é aparentemente perfeito. Perfeitamente clínico. Como num filme hollywoodiano, sente-se o peso do aparato técnico por trás daquilo que vemos.

Corta para Bin Laden. Por mais que os jornais garantam que ele possui um estúdio de TV digital no seu refúgio, nada do que é mostrado sugere a existência de equipamento de alta tecnologia. A imagem é granulada, de baixa resolução. O microfone é aparente. O pronunciamento não é feito diretamente para a câmera, como se Bin Laden procurasse falar para pessoas à sua frente. Percebe-se também que o homem que segura o microfone é o autor do seu texto. E, como num filme iraniano, sente-se que a equipe de captação é pequena.

O final dos dois pronunciamentos também é extraordinariamente revelador. Bush acaba de ler o texto. Corta-se logo. Não há tempo a perder. Já ao término da fala de Bin Laden, a lente abre e contextualiza: o líder da Al Qaeda não está só, e sim sentado ao lado de três outros dirigentes de sua organização. Passam a beber chá, com vagar. Uma concepção do tempo diametralmente oposta a que vimos antes.

A diferença da geografia, do fundo escolhido para os dois pronunciamentos, é igualmente fascinante. A cidade que se desenha por trás de Bush procura dar a impressão de uma sociedade aberta, em movimento. Mas, novamente, a sensação que se tem é que mesmo essa imagem é falsa, aplicada eletronicamente. Há também toda uma mise-en-scène por trás de Bin Laden. A metralhadora repousando à direita do quadro, à espera. A parede escarpada de uma montanha ou de uma gruta, bloco monolítico que se quer inexpugnável.

Curiosamente, o confronto dessas imagens me fez lembrar de Antonioni. Em seus filmes, a geografia física e humana sempre teve uma função essencialmente narrativa. O magistral ?Passageiro: Profissão Repórter? repousa sobre esse princípio. Locke, o personagem de Jack Nicholson, é um repórter da televisão britânica em crise de identidade. Viaja para a África, em busca de uma entrevista com um líder guerrilheiro. Tudo a sua volta -a areia do deserto, as moscas, o calor aterrador- o desestabiliza. Locke chega finalmente a um campo de treinamento no meio do deserto. Senta-se à frente do líder guerrilheiro. O homem negro, de pernas cruzadas, tem a aparência serena. Poderia se chamar Osama bin Laden. Já Locke não está à vontade. Dispara uma, duas perguntas.

O líder guerrilheiro responde que as perguntas já contêm, na sua formulação, preconceitos típicos da sociedade que Locke representa. Pega calmamente a câmera que Locke empunha e inverte o eixo, focalizando o repórter. Quem faz perguntas, agora, é o líder guerrilheiro.

A justaposição dos pronunciamentos de Bush e Bin Laden transmitiu uma sensação estranhamente semelhante, a da súbita inversão do ponto de vista.

Já a Al Jazeera acabou com a perspectiva de uma guerra controlada, segura.

O governo americano tenta censurá-la, dizendo que a estação é aparelho ideológico do Taleban. Mas o que é a CNN?"

 

"Censura e desinformação", copyright Folha de S. Paulo, 12/10/01

"O jornalismo norte-americano vive um momento delicadíssimo, dividido entre o compromisso histórico com a busca e a revelação de informações e as pressões que vem recebendo em nome das chamadas razões de Estado.

Não é um dilema novo, mas as circunstâncias da guerra contra o terrorismo colocam o problema de uma forma dramática para as empresas jornalísticas e para os jornalistas.

A pressão mais recente, que aprofundou a discussão sobre censura e autocensura, foi feita anteontem pelo Conselho de Segurança Nacional dos EUA. O governo pediu que as principais redes de TV deixem de veicular declarações de Osama bin Laden e de correligionários gravadas em vídeo porque teme que estejam passando mensagens cifradas. As emissoras concordaram.

O governo dos EUA também vem exercendo forte pressão sobre as autoridades do Qatar para que controlem a TV Al Jazeera, a única instalada no teatro da guerra e até aqui exercitando um jornalismo nos moldes ocidentais, com a exposição de todos os pontos de vista em conflito.

Essas pressões e as restrições que vêm sendo impostas desde os atentados de 11 de setembro, embora possam estar sendo legitimadas pela reação emocional de uma boa parte dos norte-americanos, poderão, no final, provocar consequências irreparáveis à credibilidade da imprensa.

Não é uma questão fácil, porque o que está em jogo imediatamente são problemas de segurança e de responsabilidade pública.

Mas a experiência mostra que qualquer forma de censura ou de autocensura acaba produzindo um jornalismo tendencioso e se volta contra o cidadão que inicialmente pretendia proteger, privando-o de informação e das liberdades.

Aliás, essa é a sensação que temos tido frequentemente quando enfrentamos as toneladas de reportagens e de artigos que estão sendo gerados por causa do Afeganistão."

    
    
                     
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