Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ECOS DA GUERRA

Walter Salles

Por lgarcia em 19/08/2003 na edição 238

SCHWARZNEGGER GOVERNADOR

"Hasta la vista, baby", copyright Folha de S. Paulo, 16/08/03

"Era só o que faltava. Se ainda restava alguma dúvida de que política e espetáculo estavam terminalmente interligados, não resta mais.

Considere o circo: uma atriz pornô que quer cobrar impostos sobre implantes de seio; um humorista que quer proibir calças com cortes mais ousados; uma mulher que imita a boneca Barbie e se autopromove em imensos cartazes; o editor da revista ?Hustler?, que faz a ?Playboy? parecer refresco de criança. E Arnold Schwarzenegger.

Toda essa excêntrica fauna concorre, sinal dos tempos, ao governo da sexta maior economia do planeta: o Estado da Califórnia. Reduto democrata há mais de 15 anos, a Califórnia passa por um processo semelhante a um impeachment. Novas eleições devem ocorrer em novembro.

É sintomático que o ator de ?Conan, o Bárbaro? e de ?Exterminador do Futuro? 1, 2, 3 etc. tenha anunciado sua candidatura para um cargo dessa importância em um programa de trivialidades televisivas. Saiu-se com uma pérola logo na largada: ?Candidatar-me foi a decisão mais difícil que tomei depois que resolvi fazer depilação?. Indagado sobre qual era sua plataforma política, respondeu: ?Ainda não tive tempo para pensar nisso. Estou mais preocupado com o povo?. Durma-se com esse barulho.

Se a fronteira entre política e espetáculo diminui cada vez mais, a culpa não é só de Schwarzenegger e afins. Os políticos norte-americanos têm sua parcela de responsabilidade no pedaço. Submetem-se cada vez mais a práticas que eram, até algumas décadas atrás, território dos profissionais do entretenimento. Boa parte do que dizem em público é roteirizado, como num filme de ficção, por uma bateria de escritores. Muitos tomam aulas de dicção e de atuação teatral. Não raro, dão performances em canais de televisão, como Bill Clinton fez ao ir tocar saxofone em um programa durante uma de suas campanhas presidenciais.

É uma estranha inversão: Schwarzenegger pulou na arena política sem roteiro, enquanto os políticos estão cada vez mais acostumados a terem seus gestos determinados por assessores de comunicação e roteiristas. A confusão não pára por aí. Quando o político Bush é fotografado de jaqueta de couro em um avião de caça, como aconteceu nesta semana, tenta aproximar-se da imagem que o público tem dos heróis de filmes de ação. Quando o ator de filmes de ação Schwarzenegger é fotografado abraçando criancinhas e visitando escolas, tenta aproximar-se da imagem que o público tem de um político.

Ambos parecem maus atores, pouco sinceros e mal ensaiados. Por isso é cada vez mais difícil diferenciá-los, tanto nos gestos quanto na retórica vazia. Ponto mais uma vez para Guy Debord, que previu esse caos com anos de antecedência.

?Cachorro?, média-metragem de José Henrique Fonseca que fazia parte de um longa inspirado em contos de Nelson Rodrigues, surpreendia tanto por sua fluidez narrativa quanto pelo tom adotado, que ia bem além do registro naturalista muitas vezes associado a filmes de cineastas estreantes. Fernanda Montenegro, em participação especial, imprimia esse tom desde o início do filme. Uma narrativa tragicômica, às vezes politicamente incorreta, que falava de coisas sérias sem se levar muito a sério.

O cineasta estabelecia, conscientemente, suas próprias regras do jogo. Os personagens eram arquétipos, com os quais ele jogava de forma livre. ?O Homem do Ano?, primeiro longa-metragem de José Henrique Fonseca, inspirado no livro ?O Matador?, de Patrícia Melo, procura seguir no mesmo caminho. O cenário é o subúrbio carioca, mas o olhar não é semidocumental. A profusão de signos aponta de cara para o sentido contrário.

Um jovem à deriva, Maiquel, se torna um assassino profissional ao matar um homem que fazia a lei na região. No início, o personagem é sujeito da ação. Depois, aceita se tornar parte da engrenagem e acaba se enredando nela. É quando a namorada do homem que matou (Natália Lage, surpreendente) surge na sua vida.

Tudo sugere uma estranha sensação de deslocamento, e imagino que o filme faculte, a partir daí, duas leituras diferenciadas. A primeira conclusão possível é de que ?O Homem do Ano? é uma leitura estilizada de um universo que não deve ser olhado dessa maneira. A outra é de que ?O Homem do Ano? não pretende ser uma visão realista desse mesmo universo. Opta, deliberadamente, por olhá-lo de viés.

Aceita essa tese, cineastas que seguiram caminhos parecidos vêm à cabeça. É o caso de Jean-Pierre Melville, herói fílmico de John Woo, cujos filmes policiais eram quase sempre protagonizados por personagens-arquétipos, aparentemente distanciados da realidade francesa. A cenografia, a maneira como os personagens se vestiam, a ausência de diálogos e de croissants sublinhavam a sensação de não-pertencimento, de inscrição em uma tradição mais próxima dos filmes noir americanos do que dos dramas gauleses da época. O tempo se encarregou de conferir relevância à obra de Melville.

Fico com essa segunda leitura. Ao leitor, a possibilidade de dar sua própria versão."

 

"Caçadora das Pautas Perdidas", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 12/08/03

"Agora, fala sério: Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia? Mas não riam: é uma senhora pauta. E não apenas de política: as maracutaias dos republicanos, a necessidade de ?quebrar? a California, estado onde W.Bush sempre teve o menor índice de apoio, etc. De cultura, também: os antecedentes (Reagan), o contexto, a arrepiante superposição de entretenimento e política, celebridade e política, celebridade na política.

Lembro dos filmes ?Bob Roberts?, de Tim Robbins, ?Wag the Dog?, de Barry Levinson e ?Election?, de Alexander Payne (não se enganem, o ginásio é o micro de um macro muito mais sombrio, ali). E da série ?Tanner 88?, do sempre oportuno e inoportuno Robert Altman, colidindo realidade e ficção como nem mesmo o incendiário du jour, Michael Moore, foi ainda capaz de fazer.

Uma excelente reportagem assinada, em parte, por James Warren, do Chicago Tribune e circulando na internet via Associated Press levanta muito bem a bola do elemento show-business no jogo político americano. Ouso dizer que, embora nos conforte muito rir desse circo made in USA, temos cá nosso quinhão de radialistas, cantores e celebridades diversas no primeiro escalão da política. E me dá vontade de ler mais sobre esta convergência, que parece definir nossos tempos tanto quanto a digitalização da produção cultural ou a globalização do crime e do castigo.

Quando eu começo com essas vontades eu não paro mais. É vício. De turista acidental eu me transformo na verdadeira Caçadora das Pautas Perdidas, e fico sonhando com o que pode existir além da derriere da Christina Aguilera e ou do duodécimo prato de fondue com taça de vinho que parece ter subsitituído o tradicional pinguim-na-praia como cobertura da vida cultural no inverno se não brasileiro, pelo menos carioca.

Fico querendo ler mais, por exemplo, sobre o livro que matou o traficante, e sobre a extraordinária relação entre o traficante e a gente fina. Para mim, a história do livro ?Abusado? e a morte de Marcinho VP me pareceu a pauta do ano, no setor cultura. Será que eu perdi a cobertura ou ela não existiu mesmo?

O caderno Idéias, do Jornal do Brasil, chegou bem perto de satisfazer meu desejo, com um texto do antropólogo Roberto Kant de Lima a propósito do livro de Caco Barcelos. Mas quando Roberto ia esquentando em sua análise – depois de um nariz de cera meio barroco como os antropólogos tem direito de fazer – eis que o texto se finda sem nem uma virada de página. Na verdade, a página de verso continha uma resenha de uma obra de um escritor japonês que, ao que parece, não era nem lá essas coisas. Será que o trabalho do escriba do Sol Nascente era mais importante, mais vital, mais impactante sobre nossas vidas brasileiras do que a tortuosa saga de um célebre traficante falastrão e seu célebre biógrafo, enlaçados num tango mortal numa cidade dividida?

Queria ter lido mais, também, sobre os excluídos daquela tertúlia literária em Paraty – nem Cannes, que é o festival mais besta do mundo, fecha suas portas aos locais.

Queria ter lido mais sobre as idas e vindas de Francis Ford Coppola pelo sul do país, em algo mais consistente do que as notinhas nas onipresentes colunas. Não seria possível que Coppola esteja em pré-produção em um de seus projetos de estimação, o ficção científica ?Megalopolis?, que, segundo suas proprias palavras, é ?maior e mais ambicioso do que Apocalypse Now?? Será que não caiu a ficha do que isto representaria na carreira dele e no contexto atual do Brasil, quando se discutem novos meios de manter viva uma nascente produção cinematográfica?

Enfim, são coisas que me passam pela cabeça. Privilégios de visitante, eu suponho."

 

ECOS DA GUERRA

"Pentágono sob pressão", copyright O Globo, 19/8/03

"Organizações internacionais de jornalistas e de direitos humanos protestaram ontem contra o Exército americano pelo assassinato do cinegrafista palestino Mazen Dana, da agência de notícias britânica Reuters, que foi metralhado por um soldado no domingo, em Bagdá. Ele foi o 17 jornalista morto no Iraque desde o início da guerra.

As entidades criticaram o descaso das forças americanas em relação aos princípios básicos da proteção de civis em regiões de distúrbio e exigiram investigações. A morte de Dana ocorreu menos de uma semana depois que o Comando Central dos EUA divulgou um relatório no qual isentou de culpa os soldados que mataram dois jornalistas com tiros de tanque no Hotel Palestine, em Bagdá, no dia 8 de abril. Um deles era também da Reuters.

– Este lamentável acontecimento demonstra que a regra das forças americanas é atirar primeiro e fazer perguntas depois – disse o diretor do Instituto Internacional de Imprensa, Johann Fritz, em carta enviada ao secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld.

Em Paris, o grupo Repórteres Sem Fronteiras exigiu uma investigação ?honesta é rápida cujo objetivo não seja desculpar o Exército americano mas lançar luz sobre este drama?. A Anistia Internacional ressaltou o grande número de vítimas civis dos militares americanos no Iraque e ressaltou que a morte de jornalistas se destaca entre estas.

– Isto está acontecendo de forma muito freqüente – afirmou o pesquisador da organização no Iraque, Said Boumedouha. – Isto aumenta o sentimento anti-americano.

Bandeira dos EUA é usada como capacho

Ao reconhecer que o responsável pela morte foi um soldado dos EUA, o coronel Guy Shields, porta-voz das forças americanas no Iraque, lamentou:

– Houve uma terrível tragédia. Posso assegurar que ninguém está se sentindo pior do que o soldado que fez os disparos.

Em Hebron, na Cisjordânia, cerca de 200 parentes, amigos e colegas de profissão se reuniram na casa do cinegrafista morto. Na porta de entrada, uma bandeira americana foi colocada como capacho para que todas as pessoas que entrassem pisassem nela.

Najeh Dana, irmão de Mazen, disse ter conversado com o jornalista um dia antes de sua morte. Ele estava entusiasmado com sua iminente volta para casa, pois queria ver seus quatro filhos e a mulher.

– Uma bala americana impediu que um pai visse sua filha de 1 ano dar seus primeiros passos – disse Najeh, indignado.

Mazen Dana tinha 43 anos e era conhecido como um dos melhores na profissão, principalmente na cobertura do conflito árabe-israelense. Em 2001, ganhou o prêmio Liberdade para a Imprensa Internacional, da Comissão de Proteção a Jornalistas, de Nova York, pelo seu trabalho em Hebron.

***

Jornalistas mortos na cobertura da guerra

PAUL MORAN: Cinegrafista australiano morto por um carro-bomba no norte do Iraque em 22 de março.

TERRY LLOYD: Repórter da Independent Television News, britânica, morto no dia 22 de março a caminho de Basra. O cinegrafista Fred Nerac e o tradutor Hussein Othman ainda estão desaparecidos.

GABY RADO: Repórter de 48 anos da TV Channel 4, da Grã-Bretanha, achado morto no hotel em 30 de março.

KAVEH GOLESTAN: Cinegrafista iraniano que trabalhava para a rede britânica BBC, morreu ao pisar numa mina no dia 2 de abril.

MICHAEL KELLY: Ex-editor da revista ?Atlantic Monthly?, morto em acidente de carro em 3 de abril.

KAMARAN ABDURAZAQ MUHAMED: Tradutor curdo que trabalhava para a BBC, morreu quando um jato americano bombardeou um comboio dos EUA em 6 de abril.

DAVID BLOOM: Aos 39 anos, o repórter da rede americana NBC morreu de embolia no dia 6 de abril.

CHRISTIAN LIEBIG e JULIO ANGUITA PARRADO: Os repórteres do semanário alemão ?Focus? e do jornal espanhol ?El Mundo? morreram num ataque de mísseis iraquianos no dia 7 de abril.

TAREK AYOUB: O correspondente da TV al-Jazeera, do Qatar, morreu num ataque dos EUA em 8 de abril.

TARAS PROTSYUK e JOSÉ COUSO: O cinegrafista ucraniano da Reuters e o da rede espanhola Tele 5 morreram em ataque americano ao Hotel Palestine, em Bagdá, em 8 de abril.

MARIO PODESTA e VERONICA CABRERA: O correspondente e a cinegrafista da TV America, da Argentina, morreram num desastre de carro em 14 de abril.

ELIZABETH NEUFFER: A repórter do jornal ?Boston Globe? morreu num acidente de carro no dia 8 de maio.

RICHARD WILD: O cinegrafista britânico foi morto com um tiro em Bagdá."

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