Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Wiiliam Safire

Por lgarcia em 08/05/2002 na edição 171

ORIENTE MÉDIO EM GUERRA

"Pressões de ?fonte? podem ter levado príncipe saudita a advertir os EUA", copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 30/04/02

"Os analistas do serviço secreto têm uma técnica para descobrir dissensões internas em governos estrangeiros: Eles justapõem os fatos que sabem ser verdadeiros a fatos que agentes estrangeiros disseram ser iminentes. Dessa forma, descobrem quem plantou ?desinformações?, ou erros de alguém, que poderão revelar a existência de divergências em meio a uma hierarquia aparentemente monolítica.

Vamos aplicar esse processo, em retrospecto, a um artigo de primeira página publicado quinta-feira em The New York Times sob o título: ?Política árabe; sauditas advertirão sobre ruptura a propósito da política de Israel?. A fonte foi identificada apenas como ?uma pessoa ligada ao príncipe herdeiro … que conhece de perto o pensamento dos sauditas?. O repórter, Patrick Tyler, é um dos correspondentes estrangeiros mais experientes nesse campo, que resistiu a manipulações durante anos, em Moscou e Pequim, e podemos acreditar na descrição da fonte saudita e na exatidão das citações.

Às vésperas da visita real ao presidente Bush, em seu rancho do Texas, uma ?pessoa próxima a Abdallah? declarou que o príncipe herdeiro diria ao presidente que, a menos que houvesse moderação do apoio dos EUA às políticas militares de Israel, a relação estratégica entre os EUA e a Arábia Saudita estaria ameaçada. A fonte advertiu: ?Falou-se, em meio à família real saudita e nas capitais árabes, na utilização da ?arma do petróleo? contra os EUA, e em exigir a retirada americana das bases militares estratégicas da região.? E, o que é pior, ?se isso significa que passamos para a direita de Bin Laden, que seja; para a esquerda de Kadafi, que seja; se significa abraçar Saddam Hussein, que seja?. Palavras duras. Mas, como vimos apenas um dia depois, as ameaças ?esperadas? não foram feitas. Ao contrário, porta-vozes oficiais asseguraram ao mundo que não se falou na ?arma do petróleo? nem na exigência da retirada americana das bases estratégicas. Em vez disso, transpirou o teor de um memorando saudita de oito pontos reiterando as posições assumidas pelo príncipe há meses. Em vez de concordar com condições inflexíveis, Bush falou da forte ligação pessoal que estabeleceu com o príncipe.

Agora voltemos ao processo de análise. Aqui estão algumas possibilidades:

1. A fonte saudita era uma pessoa colérica e mal informada, falando sem autorização de nenhuma pessoa ligada ao príncipe, e nos enganou deliberadamente, sem se preocupar com os efeitos que a fumaça que produziu teriam sobre a sua credibilidade. Hipótese altamente improvável.

2. A fonte saudita realmente ?conhecia de perto? o pensamento de Abdullah, mas esse pensamento mudou radicalmente em um ou dois dias de intervalo entre o momento em que a fonte falou com o repórter e a ocasião em que o governante saudita conversou com o presidente. Isso também é improvável.

3. A fonte saudita estava agindo sob instruções diretas de Abdallah para fazer o presidente entrar em pânico e condenar unilateralmente os israelenses e tratar Yasser Arafat como vítima, não como terrorista. Nesse cenário, as ameaças sauditas à economia americana e à continuidade da utilização das bases militares seriam feitas, mas não atribuídas ao príncipe, o que permitiria a Abdallah obter os benefícios de uma ameaça que ele não teria chegado a fazer diretamente, por receio ou alguma outra razão.

Essa hipótese é possível. Ou…

4. A fonte saudita (e não vou perguntar a meu colega quem foi, porque a norma de sigilo quanto à fonte de informações é mais absoluta do que o regime saudita) estava tentando induzir Abdallah a ser duro com Bush.

Fazendo uma declaração semi-oficial de que ?se esperava? que Abdallah dissesse ao presidente Bush que o suprimento de petróleo e as bases estratégicas dos EUA estavam em perigo, a fonte estaria exercendo pressão sobre o príncipe para que ele fizesse tais advertências.

Essa última hipótese é a mais intrigante. Ela indica que a liderança saudita não é um monolito. e aqueles mestres da manipulação, o príncipe Bandar e seu poderoso pai, o ministro da Defesa Sultan, discordam do chanceler Saud al-Faiçal e de Adel A. Jubeir, o cortesão que passou do campo de Bandar para o de Abdallah.

É possível que esteja sendo descoberta uma luta pelo poder em Riad? A ?expectativa? falsa da semana passada faz pensar que alguns patrocinadores reais de pagamentos a terroristas tem mais receio de perder o controle para Bin Laden, enquanto outras pessoas próximas do trono se preocupam mais com a possibilidade de perder a proteção militar dos EUA e os mercados americanos, se o reino saudita exercer pressão demais sobre os EUA.

Como resultado da campanha de desinformação saudita, não podemos mais ter certeza quanto à facção que prevalece em Riad."

 

"Nazisrael", copyright Caros Amigos, 04/02

"?Quem deveria ser preso pelo assassinato de 120 paramédicos palestinos? Quem deveria ser condenado pela morte de mais de 1.200 palestinos e pela punição coletiva imposta a 3 milhões de civis nos últimos dezoito meses? E quem deveria enfrentar a justiça internacional pela ocupação ilegal de terras palestinas e pela desobediência às resoluções da ONU por mais de 35 anos??

O autor dessas perguntas, Lev Grinberg, é cientista político e diretor do Instituto Humphrey de Pesquisa Social da Universidade Ben Gurion, em Israel. Não é, portanto, nenhum ?anti-semita?, nenhum ?islâmico fanático?, nenhum ?apoiador do holocausto?, ninguém, em resumo, que possa ser enquadrado nos habituais e imbecis insultos destinados a qualquer um que critique o governo de Israel.

Grinberg continua: ?Quero perguntar: quem prenderá Sharon, a pessoa diretamente responsável pelas ordens para assassinar os palestinos? Quando ele também será qualificado como terrorista? Por quanto tempo ainda o mundo pretende ignorar aquilo que dizem os palestinos – que eles apenas querem liberdade e independência? Quando vamos parar de ignorar o fato de que o objetivo do governo israelense não é a segurança, mas sim a permanente ocupação e dominação do povo palestino??

O relato de Mário Lill

A julgar pelas cenas de nazismo explícito praticado nas últimas semanas pelo exército de Israel contra o povo palestino, pessoas como o professor Grinberg ainda terão de esperar muito para aplacar sua angústia e indignação. Vejamos o que relata Mário Lill, o brasileiro que ficou famoso ao entregar uma bandeira do MST a Yasser Arafat, durante um encontro mantido em seu escritório, na cidade sitiada de Ramallah. Lill fazia parte de uma comitiva internacional organizada pela Via Campesina, em solidariedade para com o povo palestino. A comitiva chegou em Ramallah no dia 28 de março, quase que no mesmo momento em que começou o pesadelo.

Em entrevistas diárias concedidas à rede de rádio CBN e em e-mails distribuídos pela Internet, Lill disse que ?Sharon comanda um genocídio?. Segundo ele, o exército israelense ?está matando civis nas ruas e em suas casas, indiscriminadamente?. E mais: ?Os soldados também estão entrando nos hospitais, matando pessoas feridas e prendendo os médicos. As ambulâncias estão impedidas de circular e recolher os feridos. Até mesmo ambulâncias com organizações humanitárias estrangeiras estão sendo detidas?.

Mentiras de um certo ?jornalista?

Não é exatamente esse quadro que transparece na cobertura feita pela mídia internacional e brasileira. Thomas Friedman, o articulista do New York Times especializado em Oriente Médio, espécie de porta-voz daquele jornal, responsabiliza Yasser Arafat pela prática de terrorismo. Insiste na velha tecla de que Arafat poderia ter aceito o acordo de paz oferecido, em julho de 2000, por Bill Clinton e o então primeiro-ministro israelense Ehud Barak, durante as negociações de Camp David. A ocupação israelense teria terminado, então, e estaria aberta a via para a formação do Estado palestino. Arafat, ao recusar o acordo, teria estragado tudo. O único problema é que Friedman é cínico, mentiroso e parece acreditar que o mundo é povoado de imbecis.

A ?tese? de Friedman – de resto, também defendida por um sem-número de papagaios sábios que, invariavelmente, adotam ares profundos de doutores para falar sobre o assunto – não resiste à menor análise. Stephen Shalom, professor de ciências políticas na universidade William Paterson, de Nova Jersey, e articulista da revista eletrônica Z Net, lembra que um dos integrantes da equipe de negociadores de Bill Clinton, Robert Malley, lançou um livro definitivo sobre o assunto, no qual mostra que Arafat não poderia aceitar o acordo simplesmente porque não havia acordo algum (Camp David: The Tragedy of Errors, Robert Malley e Hussein Agha, New York Review of Books).

No livro, Malley nota que Barak, longe de ser o ?democrata cordial? pintado pela mídia, multiplicou o número de assentamentos israelenses nos territórios palestinos ocupados durante o ano que durou o seu mandato. Em Camp David, diz Malley, Barak fez uma oferta indecente a Arafat, e ainda assim jamais escrita nem detalhada. Segundo Malley, ?estritamente falando, nunca houve uma proposta israelense?.

E qual foi a proposta que não houve? Para ?resolver? o problema dos assentamentos israelenses, os palestinos receberiam uma área (não especificada, que Israel escolheria) equivalente a 1 por cento do total da Cisjordânia, em troca de 9 por cento da Cisjordânia onde já estavam formados assentamentos, que, na prática, dividem a Cisjordânia em regiões separadas. Isto é, a ?proposta generosa? de Barak se resumia a criar bantustões palestinos.

Suicidas e terroristas

Stephen Shalom também nota que não há, nem pode haver, qualquer simetria entre o gesto desesperado dos palestinos suicidas e a matança a sangue frio promovida pelos soldados israelenses. A razão é tão simples quanto trágica: ?Muitos daqueles que aderem aos grupos terroristas enfrentam uma vida de desemprego e pobreza. (…) Quando o desemprego atinge a margem dos 40 por cento e cerca de 45 por cento da população tem menos de 15 anos (como é o caso da Cisjordânia e Faixa de Gaza), as pessoas têm dificuldade em acreditar que seu futuro será brilhante?. Essas considerações foram feitas a congressistas, dia 6 de fevereiro, pelo insuspeito Carl W. Ford Jr., secretário assistente de informação e pesquisa de Estado dos Estados Unidos.

Ninguém está dizendo, aqui, que a miséria justifica o terrorismo. Não justifica. Mas os números revelam a tragédia humana vivida pelos palestinos. Não há como comparar um jovem desesperado de 15 anos com soldados treinados para praticar o genocídio. Não há como dizer que Arafat é o responsável pelo presente caos, quando se sabe que Sharon é, reconhecidamente, um gorila truculento nazista, e que foi ele quem provocou a ?nova Intifada? ao visitar, em setembro de 2000 – protegido por um exército de guarda-costas e abençoado pelo ?democrata? Ehud Barak -, a Esplanada das Mesquitas, no coração da Velha Jerusalém, um lugar sagrado para os muçulmanos.

Novamente, essa percepção não é defendida por ?islâmicos fanáticos? ou ?anti-semitas?, mas por gente digna e honesta, como os já citados Lev Grinberg e Stephen Shalom, e por muitos outros professores, ativistas, escritores e intelectuais israelenses, como Michael Warchawski, Uri Avneri e o filósofo Sergio Yahni (membro do Conselho Consultivo do Fórum Social Mundial), que aliás foi preso, no dia 19 de março, por ter se recusado a servir, como reservista, no Exército facínora de Sharon.

Tolices da mídia brasileira

A mídia brasileira, finalmente, prossegue – com raras e honrosas exceções – a sua tradição de repetir as tolices, os preconceitos, as mentiras, os mitos e as falsificações propagados pela mídia americana. A frase ?novo atentado suicida praticado por terrorista palestino? é repetida inúmeras vezes, em artigos, na televisão e no rádio, sem que jamais alguém pare para perguntar o que leva um jovem a se matar. Claro, existe até uma resposta pronta, caso alguém faça uma pergunta tão estranha: os suicidas são islâmicos, ora, e portanto fanáticos, logo terroristas. E está tudo certo.

Mas como explicar, então, a brutalidade da ?ocidental? e ?democrática? sociedade israelense? Não faltam os ?especialistas? de plantão para dizer, por exemplo, que a ?dureza? dos soldados de Sharon é resultado da ?perplexidade da sociedade israelense? face aos ?atentados terroristas palestinos?. Assim, a vítima é responsável por seu próprio flagelo! E os autores de teses tão sofisticadas e brilhantes ocupam, não raro, postos importantes nos maiores e melhores centros universitários deste país. É amargamente risível.

O nazista Sharon promove um genocídio, eis tudo. Só que, com isso, ele está também destruindo a sociedade israelense. Não há como viver em um país cercado de inimigos. Pela primeira vez, começa a haver uma nova diáspora judaica de Israel. A ?terra prometida?, hoje, só promete a angústia.

Sharon é a morte para judeus e palestinos."

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