Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
Menu

PRIMEIRAS EDIçõES > GUERRA NA MÍDIA

William J. Broad

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

GUERRA NA MÍDIA

"Tecnologia dificulta a espionagem", copyright Folha de S. Paulo / The New York Times, 26/09/01

"Por décadas, os Estados Unidos usaram seu poderio tecnológico para interceptar comunicações de opositores políticos, chegando a grampear conversas mantidas por líderes soviéticos dentro de automóveis. Satélites cobriram o planeta, vigiando todo tipo de comunicação 24 horas por dia.

Mas, segundo especialistas, o crescimento de tecnologias livremente disponíveis no mercado está diminuindo a vantagem técnica do governo dos EUA. Computadores mais potentes dão acesso a tecnologias de criptografia impossíveis de violar, linhas de fibra óptica transmitem sinais sem vazar detalhes e rádios que mudam sua frequência de transmissão enganam espiões.

Essa redução na capacidade dos EUA de grampear comunicações globais pode ter sido um dos fatores que ajudaram a manter o sigilo dos terroristas responsáveis pelos atentados aéreos realizados em 11 de setembro.

O avanço tecnológico também cria novas oportunidades para os investigadores, que podem monitorar conversas mantidas por telefones celulares, por exemplo. De acordo com especialistas, contudo, o saldo resultante é negativo para a espionagem.

Nos últimos anos, o governo dos EUA tem procurado convencer o Congresso a tomar medidas que favoreçam a contra-espionagem: em testemunho ao Senado norte-americano, um ex-diretor do FBI disse que o terrorista Ramzi Ahmed Yousef, mentor de um atentado ao World Trade Center em 1993, utilizou programas de criptografia para proteger planos terroristas gravados em um micro portátil. Segundo esse diretor, os arquivos codificados conteriam informações sobre uma tentativa de explosão de 11 aviões norte-americanos.

Neste ano, a pressão governamental aumentou o investimento na National Security Agency (NSA), agência encarregada de interceptar e decodificar comunicações globais.

Gastar mais dinheiro talvez não resolva o problema: ?Parece improvável que a NSA consiga recuperar sua dianteira tecnológica?, afirma o especialista em espionagem Steven Aftergood, da Federation of American Scientists, organização privada que reúne cientistas dos EUA.

A NSA prefere não comentar o assunto, mas diz que seus sistemas de monitoramento continuam tão eficientes quanto sempre foram.

O Exército e as agências de espionagem dos EUA foram pioneiros no desenvolvimento da computação durante a Guerra Fria, construindo e lançando satélites geoestacionários (cuja órbita acompanha a rotação da Terra) capazes de grampear comunicações de radar, rádio, walkie-talkies e telefones de longa distância.

Mas os alvos desses satélites estão diminuindo: as transmissões por via aérea estão sendo substituídas por comunicações via fibras ópticas, que são impossíveis de monitorar a distância. Além disso, programas de criptografia disponíveis no mercado impedem ou dificultam muito a decifração dos sinais interceptados.

O governo tentou conter a disseminação desses softwares por algum tempo, mas em 1999 e 2000 a gestão Clinton acabou reduzindo as restrições à exportação de programas de criptografia.

Outro problema é a sofisticação dos rádios modernos, que utilizam uma técnica militar conhecida como ?spread spectrum? e são quase impossíveis de rastrear.

?Qualquer pessoa pode adquirir esses aparelhos facilmente?, afirma o engenheiro Steve Russel, que é especialista em segurança e trabalha na Iowa State University. ?Há muitas empresas vendendo os equipamentos?, diz.

Um dia antes dos atentados contra o World Trade Center e o Pentágono, a Federal Computer Week, publicação dedicada à tecnologia governamental, reportou que a NSA planejava gastar US$ 15 bilhões ?na modernização de sistemas criptográficos?.

Depois dos ataques, contudo, já existe quem defenda métodos mais antiquados: para o cientista Robert Morris, que trabalhou na NSA, a solução é apelar para chantagem e propinas."

 

"Ataques elevam busca por vídeos na internet", copyright Folha de S. Paulo, 26/09/01

"Nas horas que se seguiram aos ataques terroristas do último dia 11, quem não tinha um televisor por perto recorreu à internet para ver cenas dos atentados: sites de notícias norte-americanos detectaram um grande aumento no número de pessoas que acessaram vídeos on-line.

O site da emissora MSNBC, por exemplo, transmitiu 12,5 milhões de vídeos durante o dia dos atentados. Esse número supera em mais de dez vezes o recorde anterior, que havia sido registrado em 28 de fevereiro, quando um terremoto atingiu a cidade de Seattle.

Desde os atentados, a quantidade vídeos transmitidos pelo site tem se mantido alta, variando entre 8 milhões e 10 milhões por dia.

A página de notícias do portal Yahoo, que reúne vídeos produzidos por várias fontes, precisou instalar mais servidores para atender aos internautas: ?O número de vídeos transmitidos cresceu mais de 20 vezes entre segunda e terça?, afirma Kourosh Karimhany, produtor do site.

Acesso tradicional

Os internautas também foram ávidos ao procurar textos sobre os atentados: os principais sites de notícias em inglês registraram um grande crescimento no número de acessos durante o dia 11 (veja quadro).

O portal Go.com, que hospeda a página da emissora norte-americana ABC, recebeu 1.209% mais visitantes do que no dia 4 de setembro.

A página da CNN, que chegou a sair do ar devido ao excesso de visitantes, também registrou grande aumento: o número de acessos cresceu 1.012%.

De acordo com a Keynote Systems, empresa que mede a velocidade de acesso a endereços da rede, essa procura deixou a internet muito congestionada: durante a primeira hora após os atentados ao World Trade Center, apenas 18% dos internautas que tentaram acessar o site do jornal USA Today conseguiram fazê-lo, e apenas 22% das pessoas que tentaram visitar a página da MSNBC obtiveram sucesso."

 

 

 

 

 

ASPAS11

GUERRA NA MÍDIA

"Virou zona", copyright No. (www.no.com.br), 26/09/01

"Desde os atentados no World Trade Center e no Pentágono a paranóia americana com segurança e informação chegou ao paroxismo. A vítima agora é a soberania brasileira – e com a anuência de nosso governo, como mostra a coluna de Elio Gaspari no Globo e na ?Folha de S.Paulo?, esta com acesso restrito a assinantes de jornal e do provedor UOL. Segundo Elio, a CIA está abrindo um escritório oficial em São Paulo, com dois agentes e um assistente. Não é mais uma ação dissimulada, é a instalação de um sistema de espionagem e investigação estrangeiro dentro do país. Ou como diz a coluna ?terceirizar, por meio de uma concessão a uma nação estrangeira, parte das tarefas de busca de informações em território nacional?.

A bronca do colunista tem justificativa. ?Se o moço da CIA ganha escritório com placa na porta, o governo brasileiro acabará tendo dificuldade para descobrir onde é que ele manda. Estará criada a Mãe Joana?s House?, diz Elio. A embaixada promete compartilhar com a Polícia Federal e o Banco Central as informações que obtiver no país. É a derradeira desmoralização dos meios de investigação brasileiros, que agora dependem da CIA para fazer investigações. E por que o governo aceita isso? A resposta de Elio Gaspari: ?pura fraqueza?.

O que não dá para entender é como os jornais aproveitaram mal essa grande (no sentido importante, não bom) notícia. A ?Folha? publicou num alto de página, é verdade, mas espremida ao lado de uma outra matéria. Já ?O Globo? praticamente a sepultou, publicando no pé da página de editoriais, embaixo de um palpitante artigo do governador Anthony Garotinho. Isso chega a ser desumano com a coluna de Elio.

O alvo é a liberdade

Numa reportagem publicada ontem pela revista inglesa ?The Economist?, o senador americano Patrick Leahy, presidente da Comissão de Justiça da Casa, alertava que ?se a Constituição for rasgada, os terroristas terão vencido?. Caso o ?pacote anti-terror? proposto pelo governo Bush seja aprovado, estará decretada a vitória dos autores dos atentados do dia 11. Hoje, em misto de notícia e artigo no ?Jornal do Brasil?, Sérgio Rodrigues fala das resistências no Congresso americano à aprovação das leis propostas pelo procurador-geral (equivalente a ministro da Justiça) John Ashcroft, prevendo, além das medidas contra imigrantes já anunciadas, monitoramento de ligações telefônicas e e-mails e, pasmem, a aceitação pela Justiça de confissões e provas obtidas sob tortura, desde que a atrocidade seja cometida fora dos EUA. Mesmo entre os republicanos há gente reclamando muito, como o deputado Bob Barr, para quem Ashcroft (um dos muitos representantes da extrema-direita religiosa na equipe de George W. Bush) está se aproveitando do clima de guerra para aprovar poderes que já lhe haviam sido negados antes.

Ninguém sabe, ninguém viu

O surpreendente nessa tentativa de guinada autoritária é a teia de silêncio que a grande imprensa americana está tecendo sobre o assunto: nas edições online dos maiores jornais dos EUA, apenas o ?Los Angeles Times? tratou do assunto na página principal, mas sem grandes destaques. O tema, que pode afetar de maneira muito mais duradoura a vida dos americanos, não está na primeira página do ?Washington Post? nem do ?New York Times?, sendo que este sequer se dignou a enviar um repórter ao Congresso, preferindo um texto da Associated Press.

Depois não adianta reclamar

Tudo bem que o clima é de guerra e todos nos EUA estão envolvidos num esforço patriótico etc. etc. Mas os jornais e jornalistas americanos deveriam estar atentos para o risco que é um governo de legitimidade questionável e forte verniz conservador pegar o gosto por restrições a liberdades, pois em algum momento a liberdade de imprensa entra na fila. ?O Globo? mostra hoje que, segundo fontes do governo americano, a imprensa sofrerá ?blecautes? de informações. Ninguém quer prejudicar as investigações dos atentados ou dar informações numa guerra que venham a beneficiar o inimigo e já na guerra do Golfo todas as informações eram censuradas, mas corre o risco de isso virar uma coisa banal e justificável em qualquer caso que se alegue ?segurança nacional?.

Nós de novo

Mais um brasileiro enfrenta problemas nos EUA por conta do atentado terrorista, conforme conta a ?Folha de S.Paulo?. Desta vez é Khaled Youssef Mostafa Darwich, descendente de egípcios, que foi preso pelo FBI em Menphis, no Tenessee. Segundo a irmã dele, Khaled está com seus vistos em dia e trabalha como taxista, contrariando a primeira versão da polícia de que ele seria imigrante ilegal. Para ela, a acusação contra ele é simples: ascendência árabe. O Itamaraty está sendo chamado pela família para intervir. Do jeito que vai a coisa, daqui a pouco vão querer exumar e prender as cinzas de Rodolfo Valentino, por este ter vivido o ?Sheik? e depois ?O filho do Sheik? no cinema mudo. E Omar Shariff que se cuide!

No dos outros é refresco

Uma das melhores coberturas da crise pós-atentado vem sendo feita pela imprensa britânica, especialmente pelo ?Guardian?, mas uma de suas notícias mais curiosas hoje não se refere diretamente aos preparativos dos EUA para a guerra, mas ao trabalho de bombeiro do primeiro-ministro Tony Blair para acalmar os ânimos em Israel, acirrados pelo artigo que o ministro do Exterior inglês Jack Straw publicou num jornal de Teerã na véspera de sua visita ao Irã. No texto, Straw relacionava parte do sentimento anti-americano aos ?acontecimentos dos últimos anos na Palestina?, o que colocou em risco sua visita a Israel, parada seguinte no périplo pelo Oriente Médio. Curioso é ler no jornal o primeiro-ministro Ariel Sharon dizer que ?nenhum terrorista é mocinho e todo ato de terror é horrendo?. Declaração curiosa vinda de alguém que participou da explosão de um hotel em Jerusalém durante o domínio britânico. É mais um governante pedindo que se esqueça o que fez, disse ou escreveu.

Batom na cueca

Desculpem a expressão um tanto vulgar acima, mas ela retrata aquele tipo de situação onde não cabe explicação, onde não existe desculpa possível (um amigo meu diz que até existe, mas é outra história). Bem, hoje o JB exibe um batonzaço vermelho encontrado na cueca do senador Jader Barbalho (PMDB-PA): um cheque de R$ 400 mil depositado na conta do senador por José Osmar Borges, apontado como o maior fraudador da Sudam. A reportagem lembra que, tão logo começaram a surgir denúncias sobre o caso, Jader dizia mal conhecer Borges, tendo de mudar continuamente suas versões à medida que apareciam novas provas de ligações entre eles.

Vendo a situação se complicar a cada dia, como mostra o ?Estado de S. Paulo?, Jader recorreu ao Supremo Tribunal Federal para impedir a votação no Conselho de Ética do Senado do relatório que recomenda a abertura de processo contra ele por quebra de decoro parlamentar. Resta ver se algum dos ministros do Supremo vai querer interferir em outro Poder, ainda mais para defender Jader.

Deixa pra lá

O presidente Fernando Henrique Cardoso deu hoje uma longa entrevista ao ?Globo? dizendo, entre outras coisas, que ainda não tem candidato e que, agora que está quase saindo, pode implantar um Banco Central independente. Para variar, desqualificou seus opositores, comparados ao ?talibã?. Mas o que realmente me suprendeu foi sua evasiva ao falar da reforma tributária. Primeiro, disse que gostaria de tê-la feito, ao que um dos três entrevistadores respondeu lembrando que, segundo empresários, a reforma não acontecia porque o Ministério da Fazenda não queria. Nosso supremo mandatário respondeu simplesmente ?Não, é mais complicado do que isso? e mudou de assunto, falando do Código Penal. Como muitos leitores, gostaria que a pergunta seguinte tivesse sido: ?Voltando à Reforma Tributária, complicado por quê??

Mais vagas

Queremos deputados! Essa parece ser a nova bandeira amazonense, segundo reportagem do jonral ?A Crítica?, de Manaus. A Assembléia Legislativa local quer autorização do Tribunal Superior Eleitoral para aumentar de 24 para 27 seu número de parlamentares e de sete para oito a bancada federal do estado. A justificativa seria o aumento da população, que teria deixado o Amazonas subrepresentado no Congresso em comparação com Alagoas e Piauí. Até entende-se que é preciso rever a representação proporcional no Congresso – São Paulo, por exemplo, é flagrantemente subrepresentado -, mas não faz muito sentido aumentar o número de deputados na Assembléia Legislativa. Se a população aumentou, passam a ser necessários mais votos para eleger um deputado estadual. Do contrário, as bancadas vão ficar se expandindo indefinidamente – com mais cargos de assessores, carros oficiais, verbas de representação etc.

Versões chamuscadas

Por algum motivo o ?Zero Hora? abandonou o caso do jovem Thomás Engels, assassinado por um tenente da Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Mas hoje o ?Correio do Povo? conta que a perícia comprovou o disparo a queima-roupa, a menos de um metro da vítima. Isso desmonta a versão de um dos outros policiais, que afirmava não ter visto o disparo porque o tenente estava ?mais atrás?. Esse caso parece uma cebola: você descasca uma mentira, encontra outra para ser descascada."

 

"Internet é alvo fácil", copyright Jornal do Brasil, 26/09/01

"A guerra entre direitos civis e controle governamental tem no ciberespaço uma de suas maiores batalhas. O pacote antiterrorismo que está no Congresso americano propõe restrições à privacidade dos internautas. Hoje, se um agente de segurança quiser monitorar o e-mail de um suspeito, precisa de uma nova autorização judicial a cada vez que o suposto criminoso se corresponder com o usuário de um provedor localizado em outro estado. O pacote de Bush torna uma única autorização suficiente.

Além disso, para ter acesso apenas aos cabeçalhos das mensagens, com assunto, hora, remetente e destinatário, bastaria ao agente uma autorização sumária, sem a necessidade de justificar seu pedido com a apresentação de outras provas.

Também estão na mira dos conservadores os programas de criptografia que permitem trocar informações em código na rede. Acredita-se que a mesma tecnologia que impulsionou o comércio online tenha ajudado os terroristas a planejar em segredo os atentados do último dia 11. Isso não consta do pacote, mas o senador republicano Judd Gregg já se encontrou com o advogado geral John Ashcroft para pedir a adoção de restrições à criptografia.

Gregg defende a proposta – a mesma que, apresentada pelo governo Clinton, foi derrotada há alguns anos – de se criar um acesso pela porta dos fundos aos códigos criptográficos, cuja chave ficaria à disposição dos órgãos de segurança. Philip R. Zimmermann, criador de um dos melhores programas de criptografia do mercado, o PGP, acha que a tecnologia ajudou mesmo os terroristas. ?Suponho que qualquer pessoa que estivesse planejando algo tão diabólico ia querer esconder suas atividades usando a criptografia?, reconheceu. Mas não condena a tecnologia. ?Fiz esse programa em benefício dos direitos humanos há dez anos, e hoje todas as organizações de direitos humanos o usam.? Segundo Zimmermann, também os Boeings ajudaram os terroristas – e ninguém pensa em proibi-los.

O professor de Teoria da Comunicação Muniz Sodré, 59 anos, afirma que uma provável sujeição da internet ao controle do governo americano não será um retrocesso, mas apenas a realização de um processo que estava latente. ?O controle social foi aumentado com a internet. Depois dos atentados, o sistema agora se mostra claramente, sem disfarces?, afirma Muniz. Pessimista, ele cita como exemplo do que considera a vocação Big Brother da internet a ferramenta Carnivore, que o FBI usa desde o ano passado para monitorar o tráfego na rede. ?São bilhões de interceptações por dia?, diz."

    
    
                     
Mande-nos seu comentário

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem