Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Wladimir Gramacho

Por lgarcia em 06/06/2001 na edição 124

ASPAS

O CIRCO DA RENÚNCIA

"Ocaso Baiano", Folha de S. Paulo, 3/06/01

"Se, nos últimos meses, o mandato de Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) andou por um fio no Senado, agora é seu império empresarial que corre o mesmo risco. A parceria da TV Bahia, de ACM, com a Rede Globo nunca esteve tão ameaçada.

Para o carlismo, o rompimento com o maior grupo de comunicação do país seria um golpe talvez tão duro quanto a cassação evitada pela renúncia do ex-senador.

Além de responder por cerca de 80% do faturamento das empresas de ACM -que soma R$ 200 milhões por ano -, só a TV é capaz de permitir a ele algo de que precisa mais do que nunca para se reabilitar na política: votos.

A relação entre os filhos de Roberto Marinho e a família Magalhães, que já andava estremecida desde 2000 (leia texto na página seguinte), piorou após a Globo passar a fustigar ACM em sua programação, com sátiras no Casseta & Planeta e na novela das oito e reportagens nos telejornais.

Em troca, o departamento de jornalismo da TV Bahia censurou reportagem sobre manifestações anti-carlistas. A agressão da Polícia Militar a estudantes, por exemplo, só foi ao ar no Jornal Nacional em 10 de maio porque a Globo obteve cópia da gravação feita pelo Sindicato dos Bancários da Bahia. ?A TV Bahia não só não tinha as imagens, como também negou-se a transmitir nossa fita. Tivemos que mandar via Embratel?, conta o presidente do sindicato, Álvaro Gomes.

Diante das câmeras e do público, ninguém na Globo e na TV Bahia esconde as desavenças. Nos bastidores, uma negociação muito discreta está em andamento.

Na semana passada, o vice-presidente de Relações Institucionais das Organizações Globo, Evandro Guimarães, encontrou-se em São Paulo com o dono da TV Aratu, Roberto Coelho.

A TV Aratu transmite a programação do SBT em Salvador. Mas, entre 1969 e 1987, era o canal da Globo na Bahia. O contrato foi rompido quando ACM, então ministro das Comunicações no governo Sarney, convenceu Roberto Marinho a trocar de afiliada.

Roberto Coelho é irmão do ex-governador e deputado federal Nilo Coelho (PSDB-BA), e com ele divide a propriedade da Aratu. Estão muito interessados em ouvir o que a Globo tem a dizer.

?Estão dizendo que vocês vão comprar a Aratu?, disse Roberto Coelho a Evandro Guimarães, logo no início do encontro, segundo relato de executivo próximo aos dois. Coelho exibia uma nota de revista que dava conta do novo ímpeto da Globo. ?Não podemos comprar [a Globo tem cinco televisões, o máximo permitido por lei?. Mas você também não precisa desmentir. Se o jornalismo da TV Bahia não mudar logo, vamos tomar providências?, respondeu Guimarães, confirmando a expectativa de mudanças na relação com o carlismo.

A família Coelho já avisou à Globo que aceita figurar como dona da TV Aratu e que pode acolher, sem resistências, indicações do Rio para as diretorias de administração e jornalismo. Mas, enquanto não há definição, Roberto Coelho mantém o discurso ensaiado para resistir à artilharia carlista. ?Isso tudo é boato?, desconversa.

Boato ou não, a Aratu investiu como nunca nos últimos seis meses. Neste mês, inaugura uma nova antena e passará a utilizar o sinal da Embratel para chegar a quase todo o Estado. Também acaba de reformar todo o departamento de jornalismo: a redação está informatizada e o maquinário foi substituído por equipamentos mais modernos.

Foi gasto R$ 1,2 milhão nas melhorias. Muito para quem há anos não investia um centavo no negócio. Mas pouco se comparado aos mais de R$ 5 milhões desembolsados para indenizar um sócio minoritário, Joaci Góes, que deixou a empresa há dois meses para dar à família Coelho total liberdade de negociação à frente da TV.

Entre os funcionários e colaboradores da Aratu, a aliança com a Globo é vista como iminente. A possibilidade tem renovado o ânimo da combalida equipe da TV, que há anos ouve a Aratu gabar-se em seu slogan por ser ?vice-campeã absoluta (sic) de audiência?.

***

"Famílias Magalhães e Marinho vivem relação desgastada", Folha de S. Paulo, 3/06/01

"Confirmado, o rompimento entre os Marinho e os Magalhães colocará um ponto final no desgastado relacionamento das duas famílias. Em março do ano passado, uma edição do Globo Repórter levou ao ar acusações da ex-mulher de Celso Pitta, Nicéa Camargo, contra ACM.

Sem ser ouvido, o então senador foi obrigado a ver sua própria TV transmitir denúncia segundo a qual teria pressionado Pitta para que liberasse pagamentos à empreiteira OAS, de César Mata Pires -que é genro de ACM. Num fax dirigido aos três herdeiros da Globo -Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto -, ACM classificou as declarações como ?mentirosas? e ?levianas?.

Também lembrou que por anos fora confidente da família -insinuando guardar segredos do patriarca -e que havia arriscado a própria reputação, em 1986, para beneficiar Roberto Marinho na compra da Nec, fábrica de equipamentos de telecomunicações.

Em dezembro, nova rusga. O empresário e agora senador Antonio Carlos Magalhães Júnior (PFL-BA) foi ?obrigado?, segundo expressão utilizada por ele mesmo em conversas privadas, a determinar à redação da TV Bahia que cobrisse a visita do senador Jader Barbalho (PMDB-PA) a Salvador. Inimigo número um de ACM àquela altura, Jader participaria da cerimônia de filiação de deputados que estavam abandonando o PFL carlista para assinar a ficha de filiação no PMDB.

Na programação local da televisão de ACM, não houve menção ao fato. Quase 80% dos telespectadores baianos, portanto, deixaram de tomar conhecimento de uma pequena derrota política do cacique pefelista.

?O que a TV Bahia não transmite, a Bahia não fica sabendo?, define a deputada estadual Lídice da Mata (PSB), que critica a concentração de meios de comunicação sob o comando de ACM.

Além da televisão em Salvador, a família Magalhães tem as TVs Santa Cruz (em Itabuna) e Subaé (em Feira de Santana), além de controlar indiretamente as TVs Norte, Oeste e Sudoeste, todas repetidoras da Globo.

A audiência da TV Bahia dá ao governador César Borges (PFL) justificativas para destinar quase toda a verba publicitária do Estado -R$ 63 milhões anuais -para as empresas do grupo carlista.

Tem sido assim há 10 anos. Mas nos últimos dois meses, o Ministério Público Federal decidiu apurar essa relação entre público e privado na Bahia. O abuso na destinação de recursos publicitários para a promoção de ACM em sua própria TV é alvo de investigação."

"ACM", Folha de S. Paulo, 3/06/01

"Não vejo como imparcialmente democrática a forma como acoimaram o ex-senador ACM. Não se pode atribuir o êxito que o seu Estado conseguiu a outra liderança política. Utópico pensar, com todo o respeito que tenho pelos seus opositores, que conseguirão respaldo suficiente para, ao menos, incomodá-lo de forma a obter resultados práticos em sufrágios. É impressionante vê-lo tocando trombone abraçado ao povo baiano, que lhe confortou. E estou convencido de que a odisséia de ACM ainda não terminou. Luiz Fernando Arantes Machado (Jundiaí, SP)

Mais uma vez o povo brasileiro ficou com cara de trouxa. Quando todos esperavam que ACM, em seu discurso, arrastasse consigo todos os seus comparsas e o entulho produzido pelos nossos ?políticos? instalados nas luxuosas repartições brasilienses, viu-se apenas um desabafo sem muita repercussão. Resta ao povo brasileiro saber quanto cada um terá de pagar pelo silêncio do ?cacique?. José Luiz Brogian Rodrigues (Araucária, PR)"

"O construtor da moderna Bahia", Folha de S. Paulo, 2/06/01

"Chego à Bahia no mesmo momento em que ACM é recepcionado no aeroporto. E isso em uma semana na qual os desacertos administrativos do governo federal ameaçam jogar o país em uma crise, pela imprevidência, pela falta de noção de planejamento e de construção do futuro.

Ao ver a multidão atopetando o aeroporto, ao sentir a modernização que tomou conta da Bahia nas últimas décadas, ao ver ACM sendo carregado em triunfo, me lembrei dos estadistas que planejam o futuro.

A Bahia modernizou-se graças a um deles, talvez o maior dos baianos, homem que, com seu sentido de planejamento, sua visão de futuro, sua capacidade de juntar em torno de si os melhores quadros técnicos, ajudou a formar não apenas a nova Bahia como o novo Brasil. Refiro-me a Rômulo de Almeida, o construtor da moderna Bahia.

Conheci Rômulo em 1977, quando decidi levantar a história da Petrobras e da campanha do ?petróleo é nosso?, em um período no qual a história pré-64 estava varrida do mapa. Rômulo havia sido o criador do Departamento Econômico da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em meados dos anos 40. Depois, foi indicado para compor a assessoria econômica especial do presidente Getúlio Vargas, em 1950. Nessa condição, foi o formulador do projeto original da Petrobras e da Eletrobrás, o homem que pensou os primeiros projetos para o Nordeste e que ajudou a criar o Banco do Nordeste Brasileiro (BNB).

Diferentemente de muitas eminências atuais, tinha por hábito a fidelidade a quem caía. Depois que Vargas se suicidou, recusou convite de Café Filho para permanecer no cargo, em um episódio inédito nos anais do funcionalismo público brasileiro.

Voltou paras a Bahia e, por meio da Comissão de Planejamento Econômico (CPE), primeiro, e, depois, da empresa de consultoria que criou -a Clan, Consultoria e Planejamento S.A.-, preparou os estudos que lançaram as bases da moderna Bahia. De lá saíram o Plano de Turismo do Recôncavo, os Termos de Referência para o Pólo Petroquímico do Nordeste, o distrito industrial de Aratu, o modelo petroquímico de Camaçari, projetos urbanísticos. Por suas mãos passaram os melhores quadros baianos, formados dentro das mais eficientes técnicas de planejamento. Poderia ter-se tornado grande empresário, recusou. Sua vocação era ser um agente permanente do desenvolvimento nacional e de sua terra.

Foi afastado do mapa baiano a partir de 1970, vitimado por implacável perseguição do novo governo baiano, que acabou por levar ao fechamento da Clan. Mesmo assim prosseguiu sem denodo, ajudando na definição do modelo tripartite, que permitiu a viabilização do Pólo Petroquímico de Camaçari.

Quando se vai à Bahia, sua presença está em todos os lugares; seu nome, em nenhum. Suas idéias frutificaram, consolidaram a noção de planejamento.

Ao ver ACM sendo recebido em festas por um Estado que se regozija de estar caminhando rumo à modernidade, a lembrança de Rômulo me veio imediatamente à mente. Porque foi justamente o governo ACM que decretou a liquidação da Clan. E, sendo seu algoz, acabou se beneficiando dos quadros que Rômulo criou e das idéias que plantou.

Por isso, ao ver ACM chegar ao aeroporto Luís Eduardo Magalhães e caminhar vitorioso pela avenida Antonio Carlos Magalhães, me ocorreu que há algo faltando na reconstituição da história baiana.

OAB

A atitude do presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Rubens Approbato Machado -por quem tenho estima pessoal-, na posse do novo presidente do Supremo Tribunal Federal me passou a nítida sensação de que o ex-presidente da Ordem José Roberto Batocchio foi derrotado. Mas seu estilo tornou-se referência definitiva para seus sucessores."

    
    
                     

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