Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > MOSAICO NA TV

Xico Sá

Por lgarcia em 04/12/2002 na edição 201

PASTORES DA NOITE

"Globo faz baianidade cansada de guerra", copyright Folha de S. Paulo, 28/11/02

"O Brasil de ?Madame Satã?, de Karim Aïnouz, cearense envelhecido no caldo das delicadezas do pensador Walter Benjamin, e o país de ?Amarelo Manga?, filme do caruaruense Claudio Assis, cujo couro foi engrossado léguas e léguas longe de Frankfurt, deixaram na poeira a suposta cordialidade e o populismo que tem nos diretores Guel Arraes (batismo de núcleo da Globo) e Walter Salles seus principais culpados no sentido de acossados por Cristo, claro.

Mas, ?ô pissit!? -como na linda evocação de ?Os Trapalhões? ao populacho do sofá-, o núcleo Arraes voltou ao oratório de sempre. ?Pastores da Noite? retorna à Bahia repisada por tantas Tietas, Gabrielas… O ?meu rei? do exotique, o francês Marcel Camus, que fez ?Orfeu Negro?, também filmou a mesma macumba acidental, em 75, que agora tem despacho televisivo.

O filme de Camus se chamava ?Otalia de Bahia?, que os bons orixás o tenham. Nada contra reciclagens de ?Os Pastores da Noite?, um dos raros livros interessantes de Jorge Amado. Mas, uma vez que pretendem chafurdar em uma dita brasilidade, por que não coisas melhores? Todo mundo sabe que Graciliano Ramos é ?o cara?, como tem dito Romário sobre si mesmo. Pode não ter a malemolência pretendida pela Globo. Mas sexo e angústia -e existem outras matérias na vida?- o alagoano tem de sobra.

É injusto dizer que a série global é ruim de tudo. Matheus Nachtergale faz um pierrô-mascate do cão. A outra cambada de macho, que faz parte da mesma boa fase do cinema nacional acima citado, é uma desgraça na TV, tudo igual, como na ?leseira? de boteco.

Tem até Fernanda Montenegro, no papel de dona do puteiro cordial de sempre, ave! A sorte é Camila Pitanga (Marialva), que não tem nada a ver com Amado. É coisa de Gilberto Freyre, vale por toda a mestiçagem de ?Casa-Grande & Senzala? e é infinitamente superior a Sonia Braga em todos os tempos.

Enfim, ?Pastores…? é tão igual a tudo que já se viu sobre o mesmo tabuleiro que a saída é inverter a dialética de Zeca Pagodinho no seu último disco. Falo da faixa ?Tá Ruim, mas Tá Bom?. Na série da Globo, tá bom…, mas tá ruim."

TELEJORNALISMO

"Estrelas de bastidores", copyright O Estado de S. Paulo, 1/12/02

"Eles suam a camisa para conseguir agendar os melhores entrevistados e encontrar as matérias mais interessantes, mas, na hora de dar a notícia, lá está o repórter bonitão e impecável na tela. Há quem diga que não se importa, há quem se contente com a aparição relâmpago de seu nome nos créditos, mas, na turma dos produtores de TV, também há quem se incomode com o anonimato.

Para muitos, ter o rosto desconhecido é uma vantagem na hora de conseguir fazer a matéria. Principalmente em reportagens investigativas e policiais, quando é necessário esconder a identidade e, muitas vezes, usar disfarce. O jornalista Tim Lopes, assassinado este ano por traficantes do Rio, era um dos que tiravam proveito do anonimato. Assim como ele, tantos outros produtores já flagraram conversas de traficantes, presos e esquemas de corrupção. E nunca mostraram o rosto.

Uma das matérias de maior repercussão dos últimos meses foi do produtor Eduardo Faustini – conhecido como ?O repórter sem rosto? – que se fingiu de secretário de Planejamento da prefeitura de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio. Durante o mês que esteve ?fantasiado? de secretário, Faustini filmou propostas de empresários, comerciantes e vereadores inescrupulosos. A audácia do produtor já foi premiada. Recentemente, Faustini recebeu o Prêmio Líbero Badaró e também está concorrendo ao Prêmio Esso – o mais importante da área.

Com medo de represálias e de ser reconhecido, Faustini, apesar de já ter falado sobre o assunto no Fantástico, preferiu não dar entrevista ao Estado. De acordo com um produtor da Globo, depois da morte de Tim Lopes, seus colegas de profissão redobraram o cuidado com pautas perigosas. Segundo Eduardo Tchao, os produtores evitam usar até mesmo a microcâmera – equipamento que denunciou Tim.

Um produtor de São Paulo, que prefere não se identificar, também já passou apuros ao usar a microcâmera. ?Já fui até espancado, quando descobriram que eu estava fazendo uma matéria sobre trabalho escravo em São Caetano?, diz. O mesmo profissional foi o responsável pelas imagens de duas irmãs que haviam sido seqüestradas, encontradas amarradas no meio da mata.

O produtor Daniel Evangelista, que trabalha no Cidade Alerta, da Record, também já passou por situações arriscadas. Certa vez, estava fazendo uma matéria denunciando uma máfia de cambistas. Depois de pesquisar por vários dias e comprovar a denúncia, quis fazer algumas imagens com uma microcâmera escondida em uma caneta para flagrar a ação dos cambistas.

?O cambista queria me passar um telefone e, sem saber, acabou puxando a caneta do meu bolso.? Foi um caos. Ao puxar a caneta, o cambista puxou também o fio da câmera. Na hora, Evangelista não pensou duas vezes e saiu correndo. ?No meio de 30 cambistas, com dezenas de torcedores na porta do estádio, não teve como. Nunca corri tanto na minha vida?, conta, rindo.

Frieza – Há seis anos trabalhando como produtor, Evangelista diz que quando está com a microcâmera tem de agir da forma mais fria possível. ?Finjo que ela não está lá, pois sei que não posso vacilar.?

Evangelista nunca apareceu na TV, mas diz que a satisfação de seu trabalho é ver a transmissão de uma matéria que conseguiu. ?Ver uma pessoa ser presa ou uma denúncia ir ao ar não tem preço. É aí que está meu reconhecimento e também na equipe, que sabe quem fez o trabalho.?

O fato de seu nome não aparecer na tela, segundo ele, não faz diferença. ?Sei que o trabalho em TV não é autoral, que é preciso ter um trabalho de equipe?, diz.

O produtor da Band, Fernando Hessel, que trabalha no programa Brasil Urgente, muitas vezes faz o papel de toda equipe: encontra a pauta, agenda as entrevistas, coordena o repórter na rua e também vai para a ilha de edição finalizar o material. ?Sou um multifunção e minha vida é um verdadeira agito.?

Segundo Hessel, uma vez, por causa de um atraso de Roberto Cabrini, quase teve de apresentar o programa. ?Aceitei a proposta, mas disse que, mesmo que o Cabrini chegasse, não ia abandonar o programa no meio?, afirma.

Para ele, ser persistente é uma das maneiras de conseguir espaço na TV. Em muitas emissoras, é comum, por exemplo, ter uma hierarquia entre repórteres.

Por isso, as matérias mais importantes ficam com os principais repórteres, mesmo que as informações não tenham sido apuradas por eles. ?Repórter tem de bater o pé e dizer que faz questão de dar a notícia que conseguiu.? De acordo com Hessel, com produtor é a mesma coisa. ?Muitos acham que produtores servem apenas para levar e trazer fitas. É um absurdo?, diz.

Assim como Evangelista, o nome de Hessel quase nunca aparece nos créditos do programa. ?Tem tanta coisa para fazer que nem dá tempo, mas, quando acho que vale a pena, peço para colocarem meu nome?, fala.

Para Marcelo Aith, da TV Cultura, não há emoção maior do que ver seu nome no crédito do programa. Aith é formado em Jornalismo e Geografia e é encarregado de dar a base histórica para os documentários produzidos pela emissora.

Hitchcock – Segundo ele, já é satisfatório ver o nome no vídeo, junto com os créditos das outras pessoas da equipe. Aith diz que se sente desconfortável no vídeo, que, realmente, não é sua área. No entanto, já chegou a imaginar uma aparição à Hitchcock. ?Como se fosse uma brincadeira, com espírito lúdico, não como mérito. Acho que seria legal.?

Apesar de algumas vezes participar da edição do documentário, Aith trabalha nos bastidores. Primeiro levanta todas as matérias sobre o assunto que já apareceram na TV, depois parte para pesquisas em bibliotecas, hemerotecas, cinematecas, bancos de imagem e, se necessário, viagens. ?Às vezes, a equipe está na ilha de edição e eu ainda continuo reunindo material?, diz.

Os fatos históricos também são o ponto de partida para o trabalho de Karina Dorigo, produtora do quadro Me Leva Brasil, apresentado no Fantástico por Maurício Kubrusly.

É Karina quem vai atrás de personagens interessantes, que saibam exemplificar um pouco do costume, da cultura, da comida, do jeito de falar de uma região do Brasil. Uma vez por mês, ela escolhe um Estado, aluga um carro, contrata um motorista e sai percorrendo as cidades do interior. Em apenas quatro dias, chega a rodar cerca de mil quilômetros, procurando por boas histórias.

Quando retorna de viagem, passa suas anotações para Kubrusly, com todos os detalhes, para que o repórter vá ao local certo. ?Avalio tudo. A melhor locação para gravar, o personagem, o roteiro mais adequado e o tempo que o Kubrusly terá de gastar?, afirma.

No entanto, Karina admite que a frustração é inerente à profissão de produtor. ?Tenho de conviver com isso, pois sei que, por melhor que seja meu trabalho, ele tem um limite.? Aparecer no vídeo? Karina jura que nem pensar.

Por isso, para compensar seu desapontamento, ela passou a editar a série do médico-repórter Dráuzio Varella, também no Fantástico. ?A edição é um caminho interessante e posso mostrar uma coisa com a minha cara?, afirma.

No esporte – Marco Aurélio Daumas de Moura mostrou sua cara e matou um pouco sua vontade de aparecer na TV na Copa.

Moura é um dos proprietários da World Soccer Consulting, empresa que fornece estatísticas e dados de esporte para a Globo desde 1995. Em todos os campeonatos de futebol, vôlei, esportes de praia e olímpicos, Moura envia para a emissora um relatório com as informações que servem de base aos repórteres. Durante as transmissões, também costuma ficar atento, caso apareça alguma dúvida. Este ano, em um dos plantões durante a Copa, Moura participou de uma mesa-redonda. ?Tive uma oportunidade e foi ótimo. É claro que seria legal aparecer?, confessa."

FANTÁSTICO

"?Fantástico? volta a reinar no domingo", copyright Folha de S. Paulo, 1/12/02

"Há quase 30 anos no ar, o ?Fantástico? reassumiu a liderança na audiência nas noites de domingo depois da meteórica ascensão e queda do ?reality show? ?Casa dos Artistas?, do SBT, que impôs suas primeiras derrotas durante várias semanas. Entre os últimos dias 11 e 17, o ?Fantástico? foi a atração mais vista da Globo na região metropolitana de SP, segundo o Ibope, com cerca de 3,1 milhões de telespectadores.

Agora, a emissora prepara novas mudanças para 2003, quando o ?show da vida? vai comemorar seu trigésimo aniversário. ?Um quadro apresentado por Cid Moreira marcará a passagem dos 30 anos?, antecipa Geneton Moraes Neto, editor-chefe do programa, explicando que haverá também uma seção sobre culinária brasileira e atrações para o público mais jovem.

Segundo ele, a fórmula que mistura denúncia, notícia, esporte, música, assuntos leves, seriedade e humor deu mesmo certo. A audiência mostra, inclusive, que humor domingo à noite cai bem: os quadros ?Retrato Falado?, com Denise Fraga, e ?Papo Irado?, com Eloísa Perissé, registram picos de audiência.

Outros trunfos nas últimas semanas foram os flashes do show de Roberto Carlos no Rio e a entrevista, acompanhada de um número musical, de Herbert Vianna. Mas as velhas matérias apocalípticas ou sobre temas funestos como exorcismo continuam.

?Nossa ambição é contar histórias que mobilizem a curiosidade dos telespectadores?, afirma Moraes Neto. Segundo ele, o desafio maior é prender a atenção de todas as faixas de público durante duas horas e meia.

No ar em mais 20 países, via TV Globo Internacional, e em Portugal, através da SIC e do GNT, o programa, que estreou em agosto de 1973, vem sendo sintonizado, em média, por 50% dos aparelhos de TV ligados no domingo à noite.

?Não há uma teoria geral da audiência?, diz o editor-chefe. ?A mistura de atrações tão díspares pode ser um dos segredos do sucesso, porque nosso público-alvo é toda a audiência, do bóia-fria ao professor de pós-graduação.?

Depois do susto pregado por Silvio Santos no ano passado, quando a ?revista eletrônica? apresentada por Glória Maria e Pedro Bial conheceu suas primeiras derrotas, a saída foi investir pesado nos ajustes, que, antes, eram feitos apenas periodicamente.

Moraes Neto diz que, ?independentemente das investidas da concorrência, o ?Fantástico? tenta refletir os temas que ocupam a atenção do brasileiro?. Mas como mobilizar uma audiência tão variada? ?Essa é a pergunta que toda a equipe passa a fazer no final da noite de cada domingo, quando o programa da semana seguinte começa a tomar forma?, responde ele."

MOSAICO NA TV

"Programa que tirou Silvio Santos do livro dos recordes agora é digital", copyright Folha de S. Paulo, 1/12/02

"O mais antigo programa da TV brasileira acaba de entrar na era digital. ?Mosaico na TV?, no ar desde 1961 com a missão de ensinar o que são Israel, seu povo e a comunidade judaica, é um sobrevivente: estreou na TV Excelsior, passou pela Tupi e Cultura e, em 1971, chegou à Gazeta. Vai ao ar também nacionalmente, pelo canal 225 da operadora de TV paga Directv.

?A imagem digital modernizou o programa?, diz Francisco Gottihilf, criador e produtor da atração. Derivado de uma versão radiofônica que ficou no ar entre 1940 e 1982, o ?Mosaico na TV? desbancou a liderança de Silvio Santos na edição brasileira do ?Guiness Book?, o livro dos recordes. ?O programa do Silvio é de 1962, mas constava no livro como o mais antigo. Procurei a editora e fui até homenageado?, afirma Gottihilf, satisfeito por ter começado na TV ao lado do rabino Henry Sobel -que tem o quadro ?Pergunte ao Rabino?, no terceiro domingo do mês- e do jornalista Boris Casoy.

Deixando a divergência entre árabes e judeus de lado, o programa mostra entrevistas, música, documentários e reportagens. ?Queremos transmitir a imagem correta do povo judeu, porque há muitos conceitos negativos sobre nós?, afirma Gottihilf, agradecido a Benedito Ruy Barbosa que, segundo ele, mostra o universo judaico de maneira positiva na novela ?Esperança? (Globo).

Quanto à audiência, ele afirma: ?A experiência me diz que meu programa é visto por 250 mil pessoas no país todo; a maioria não-judaica. Recebo telefonemas e cartas até do Acre e do Amapá?.

Depois de ter a duração de ?Mosaico na TV? reduzida de 60 minutos para 30, há três anos, Gottihilf mostra-se incansável. ?Como todos, nós também sofremos com a falta de anunciantes. Mas meu programa pode agradar a quem não quer entrar numa fria: infelizmente, há muita coisa baixa na TV?, afirma. (MOSAICO NA TV – Gazeta e canal 225 da Directv, domingos, 13h30)"

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