Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES >   O PIOR DE 2003 / TV

Xico Sá

Por lgarcia em 08/01/2003 na edição 206

SAIA JUSTA

“?Saia Justa? peca ao se meter a ?inteligente?”, copyright Folha de S. Paulo, 3/01/02

“Às vezes o programa do GNT ?Saia Justa?, que nasceu para ser o falecido ?Manhattan Connection? com TPM, cresce e alcança um grau de salão de cabeleireiro. Só às vezes. No mundo macho, esses momentos seriam equivalentes ao boteco da mesa-redonda do Avalonne. Mas o ?Saia Justa? teima em ser inteligente, metido. Se acha!

Na última edição do ano, na noite de anteontem, passou da conta. Acossada pelo ceticismo de Mônica Waldvogel -que representa no simpósio a mulher ?normal?, quase rodriguiana-, a escritora Fernanda Young -a tatuada cheia de ?loucurinhas?- não se conteve e botou Schopenhauer, o filósofo, no meio. Sururu formado na área.

?Sou uma mulher séria, leio Schopenhauer, sou uma mulher culta?, bradou a autora, na tentativa de estancar o deboche, peça que não cai bem ao modelito Waldvogel. A jornalista ria do jeito sério, com ares científicos e impostação de guru, com o qual Young falava de um triunfo cósmico -o bem finalmente suplantaria o mal- daqui a uns 01, 13 anos. Mas quem havia puxado a prosa maniqueísta era Marisa Orth. Que fique bem claro, ora.

A menina também estava com a macaca, registre-se. Que Magda que nada. A mulher é inteligente, sim. Se continuar na mesma pisada evolucionista, vai chegar, fácil, fácil, a um Arnaldo Jabor, um dos expoentes do citado ?Manhattan Connection? -que acabou de direito quando perdeu o cinismo ilustrado de Paulo Francis.

Orth mandou ver um Eric Hobsbawm de primeira, para estufar os barbantes, como dizem os nossos ídolos das mesas-redondas. Encostou-se no historiador inglês, que havia visto na TV, para tratar do caos das nações e o perigo dos novos profetas, novos ditadores, novos fascistas… Waldvogel, que estava impossível depois do champanhe, ficou passada. Era dos extremos é isso aí.

Sim, a escritora ainda contou que viu ET, sim senhor, em uma ilha de Pernambuco. Deve ter sido em Itamaracá, pela descrição geofísica. A tia do rock, Rita Lee, ficou mesmo foi no plano terreno. Com uma proposta no campo do fantástico, mas enterrada faz tempo pela esquerda brasileira que chega ao poder: sequestrar o presidente Bush. Resgate: o não-pagamento da dívida externa.”

 

O PIOR DE 2003 / TV

“Silvio Santos comanda o pior momento da TV em 2003”, copyright Jornal da Tarde, 5/01/03

“Se foi difícil garimpar as melhores coisas da televisão aberta no ano passado, em meio à mediocridade geral, escolher as piores não oferece tanta dificuldade. Mas pode ser que se tenham exibido coisas piores do que as lembradas aqui, pois é impossível assistir a tudo o que a televisão mostra.

Campeão da baixaria, do mau gosto e do desrespeito foi aquele quadro do programa do Gugu em que Silvio Santos, Rodolfo e ET e um repórter daqueles lá do Gugu debochavam dos paulistanos e paulistanas que ficaram nus no Parque Ibirapuera para participar da foto-happening do fotógrafo Spencer Tunick, no final de maio. Eles comentavam no palco as cenas de uma pretensa reportagem sobre o trabalho do fotógrafo, cenas que mostravam a multidão de pelados, filmadas justamente com a intenção de achincalhar, e soltavam piadinhas de nível baixíssimo na tarde familiar de domingo, gracinhas como estas: ?Vai começar o show do mijão?. ?Dava para fazer uma bela feijoada. Olha quanta lingüiça?. ?Aquele que não tem nada entre as pernas?. ?Olha que peitão caído?. ?Vai pescar. Olha o monte de minhoca?. ?Aquele ali não pode. Elefante não pode, olha a tromba?.

Destaco este como o pior momento da tevê em 2003 porque o próprio dono da emissora participou. Silvio Santos estava no palco, açulava a baixaria, fazia algumas dessas piadinhas, esbaldava-se, excitado. Quando é o próprio dono que participa de uma cena dessas, significa que é essa e não qualquer outra a moral da casa, que os ratinhos têm seu ratão, que toda grosseria está automaticamente autorizada.

É evidente que os péssimos de sempre continuaram lamentáveis, seja por causa das baixarias, como Márcia, João Kleber, Ratinho, Mallandro e outros, seja por causa da mediocridade, como Raul Gil, Gugu, Nelson Rubens etc. Mesmo entre programas de conteúdos igualmente ruins há nuances, por exemplo, Márcia e Ratinho têm veia de comunicadores, enquanto João Kleber é a chatice mastodôntica, pretensiosa e irremediável. Por que esses programas ?populares? têm público fiel na classe D? Pessoas desprotegidas pela sorte consolam-se vendo gente em pior situação do que a delas.

A Globo, que não costuma aparecer nas listas de piores, merece duas citações. Uma, por ?Hipertensão?, aquela gincana nojenta que tripudiava sobre os coitados concorrentes levando-os a comer pratos de macarrão com minhocas vivas, degustar baratas e besouros, fechar-se numa urna com ratos etc, sob o comando do teatral inocente Zeca Camargo. Outra citação, a Globo merece pela novela ?Desejos de Mulher?, espécie de Ratinho, João Kleber e Márcia em formato de ficção.

A propósito, todas as novelas foram fracas – todas, de todos os canais – tanto as de grande sucesso popular, como ?O Clone?, de Glória Perez, quanto as prejudicadas, como ?As Filhas da Mãe?, de Sílvio de Abreu, iniciada em 2001 e que chegou capengando a 2003. A única que teve alguma beleza e grandiosidade iniciais foi justamente a hoje fracassada ?Esperança?, de Benedito Ruy Barbosa, agora tocada por Walcyr Carrasco. Justamente dois mestres da teledramaturgia, Sílvio e Benedito, tiveram seus piores resultados em 2003. É o gênero que está capengando.

Na categoria especial ?equívocos?, desponta a minissérie ?O Quinto dos Infernos?, que estreou em janeiro. Não é que fosse uma porcaria de cabo a rabo, tinha até momentos divertidos, mas foi um grande equívoco de concepção. A história do reino de Portugal e do Brasil sob Maria I, João VI e Pedro I virou palhaçada. Nada contra a comédia histórica, mas os realizadores (Carlos Lombardi, texto, Wolf Maia, direção) apelaram demais, perderam o tom, falsearam datas e fizeram foi uma chanchada histórica. Ficou difícil acreditar que aquela gente ensandecida, abobalhada e destemperada pudesse governar por trinta anos um grande império como era o português, sem o pôr a perder.

Na categoria bobagem inútil tivemos o ?Big Brother? da Globo e a ?Casa dos Artistas? do SBT. Abobrinhas, rela-rela sob edredons, pessoas medíocres querendo aparecer, apresentadores tentando transformar tolices perpetradas pelos medíocres em lances sensacionais… Tudo tempo perdido. E o pior é que a bobagem está para voltar.

Entre os programas que vão ladeira abaixo temos o do Jô: entrevistador despreparado e auto-referente. E dos que vão ladeira acima destaca-se o ?Fantástico?: pautas mais atentas, assuntos melhores. Contribui muito para a subida do ?Fantástico? a participação de Regina Casé, a artista mais afinada que temos com a linguagem da televisão.

Necessário apontar também o pior da propaganda, que é aquele merchandising ostensivo que vai tomando conta de todos os programas, corroendo a imagem de todos os apresentadores. Sabem do que estou falando? Daqueles comerciais ao vivo com garota e garoto-propaganda, coisa da era pré-VT, os quais se postam atrás de uma banquinha para anunciar picaretagens, introduzidos por palavras elogiosas dos apresentadores que, naturalmente, ganham sua comissão.

Muitos comerciais clássicos da tevê pós-VT foram bem fracos. São exemplos a cansativa miação de Zezé de Camargo e Luciano para uma loja de varejo e a repetida invocação de São Nunca para uma marca de automóvel. Mas houve coisa boa. Entre as melhores, aquele juiz de futebol da propaganda de telefone celular da Sky, que liga para a mãe no meio do jogo: ?E aí, mãe, foi pênalti ou não foi??

Não poderia deixar de mencionar, neste rápido balanço, que houve muita coisa interessante na tevê por assinatura. Destaque para os filmes, shows e documentários. Destaque para alguns seriados, especialmente o que está sendo exibido no Multishow: ?Sex and the City?. E destaque para o programa de conversa entre mulheres, ?Saia Justa?, do GNT, com o quarteto formado por Mônica Waldvogel, Rita Lee, Marisa Orth e Fernanda Young.”

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