Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

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Xico Vargas

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

CORREIO CENSURADO

“A primeira vítima”, copyright no mínimo (www.nominimo.com.br), 24/10/02

“Para quem acreditava esgotado o estoque de novidades produzido pela turbulência da campanha eleitoral aqui vai uma. O Correio Braziliense, único jornal do país a publicar uma reportagem contundente sobre falcatruas envolvendo um candidato, perdeu seus dois diretores mais importantes. Paulo Cabral, o presidente, e Ricardo Noblat, o diretor de redação, deixam o jornal, no rastro de uma série de denúncias envolvendo a grilagem de terras públicas promovida por secretários de governo, amigos e deputados distritais do grupo do governador Joaquim Roriz, candidato a reeleição pelo Distrito Federal.

As denúncias bateram nos alicerces da campanha de Roriz, que tem entre seus aliados o jornalista Ari Cunha, vice-presidente do Correio Braziliense. Na semana passada, Cunha estrelou um dos programas eleitorais do governador na TV, durante o qual o jornal, Cabral e Noblat foram duramente atacados. A resposta de Cabral veio rápida: anunciou no jornal que Cunha seria afastado da empresa. Na terça-feira, 22, porém, o presidente do Correio recebeu – com a assinatura de 13 dos 19 integrantes do Condomínio Associado – uma carta de censura à maneira com vem conduzido as empresas sob sua responsabilidade. Aos 80 anos, o velho condômino decidiu ir para casa.

O Correio Braziliense é hoje a ponta mais fulgurante de um conjunto de empresas que já foi conhecido como Império Associados. Por quase meio século essa teia funcionou integrada por agências de notícias, jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão que cobriam todo o país. Construída de maneira nem sempre lícita por uma espécie de mago chamado Assis Chateaubriand, a obra, pouco antes de sua morte, foi depositada nas mãos de seus auxiliares mais próximos, com um estatuto que criou o Condomínio Associados. Cada condômino tornou-se responsável pela gestão dos negócios do grupo numa região do país. Desde então, o conglomerado entrou em declínio, com exceções das quais o Correio Braziliense é uma das mais notáveis.

Ao longo dos últimos nove anos, período que baliza a administração de Ricardo Noblat, o jornal experimentou profundas transformações que, segundo pesquisa da empresa, o elevaram à preferência de oito em cada 10 leitores de jornal no Distrito Federal. Na base disso, estaria a linha editorial mais combativa aliada às modernizações técnica e gráfica. Mas, na proporção em que conquistaram leitores para o jornal, as mudanças fizeram-no perder a simpatia do governador. ?Roriz passou a gastar muito mais dinheiro de publicidade com jornais menores do que com o Correio. A intenção era sufocar economicamente o jornal?, afirma nota da direção.

A troca de chumbo, que já era intensa, cresceu no curso da campanha. Cabral e Noblat obtiveram na Justiça Eleitoral 16 sentenças favoráveis para exercer o direito de resposta do jornal, nos programas de Joaquim Roriz na TV. A marca, que sinaliza novo recorde nas relações entre imprensa e ocupantes de cargos públicos no país, acelerou o desfecho. Antes que o patrão conseguisse removê-lo do cargo, Ari Cunha articulou a carta, que também assina como condômino. Com a mudança, ele assumirá a presidência do jornal.

Nesta quarta-feira, 23, logo depois da decisão de Cabral de afastar-se da empresa, ?um carro de som da campanha de Roriz anunciou diversas vezes defronte a Rodoviária de Brasília que dr. Paulo Cabral e Ricardo Noblat estavam de saída do Correio. E que o governador, finalmente, tinha ganho sua batalha de quatro anos contra o jornal?, revela a nota da direção que se afasta. Engana-se, porém, quem pensa que já passou toda a água por baixo dessa ponte. No próximo dia 1 haverá reunião do Condomínio Associado. Até lá, já será conhecido o governador eleito do Distrito Federal. E se Roriz perder? Talvez por isso, ao anoitecer da quarta-feira, havia notícias de que cinco dos signatários da carta manifestavam disposição de, digamos, rever o gesto.”

“Governador diz que não pediu censura prévia”, copyright Folha de S. Paulo, 26/10/02

“O governador Joaquim Roriz (PMDB-DF), candidato à reeleição, disse ontem no horário eleitoral gratuito na TV, à tarde, que não determinou que seus advogados fizessem o pedido de censura prévia contra o jornal ?Correio Braziliense?.

E acusou o candidato do PT, Geraldo Magela, de ter impedido jornais da cidade de publicarem reportagens com acusações contra o petista. Magela obteve na Justiça liminar para impedir publicação de trechos de uma fita em três jornais.

O ?Correio Braziliense? teve a edição de anteontem submetida à censura prévia, devido a um pedido do advogado Adolfo Costa, em nome de Roriz.

Ontem, Roriz disse que não autorizou a censura, que ?repudia? o ato e que só soube à noite. Costa também disse que o governador não sabia da decisão. Segundo ele, os advogados de Roriz têm autonomia.

No horário eleitoral, Roriz disse que liberaria as fitas com os diálogos entre ele e Pedro Passos, deputado eleito pelo PSD, caso Magela fizesse o mesmo em relação a uma fita que mostraria a relação do petista com Germano Carlos, acusado, como Passos, de grilagem de terras públicas. O TSE liberou as fitas de Roriz ontem.

Nelas, Passos teria pedido a ele que impedisse a fiscalização de um condomínio. No caso de Magela, a fita traria conversa de Germano com uma pessoa que poderia envolver o petista em esquema de grilagem.

Para impedir a publicação de trechos dessa fita, Magela também obteve liminares na Justiça contra o ?Jornal da Comunidade?, o ?Tribuna do Brasil? e o ?Jornal de Brasília?. O petista alega que a fita é uma armação para tentar envolvê-lo na grilagem de terras públicas.

Anteontem, Magela obteve uma liminar de busca de panfletos apócrifos contra ele que estariam sendo impressos na gráfica do ?Jornal da Comunidade?. Um oficial de Justiça e PMs foram à gráfica do jornal. Nada foi encontrado.

Magela divulgou nota ontem em que aceita o desafio de Roriz e autoriza a veiculação de fita com supostas denúncias que o envolvam com grilagem de terras.”

“Troca na chefia do Correio tem caráter político, revela repórter”, copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br), 23/10/02

“Nesta quinta (23), o presidente do Correio Braziliense, Paulo Cabral de Araújo, e o diretor de redação, Ricardo Noblat, pediram demissão e fixaram, para o último dia no comando do diário, o próximo dia 1o de novembro, quando haverá uma reunião dos condôminos dos Diários Associados, que detém a propriedade do diário.

Mais do que uma simples troca de chefia, a saída da dupla Cabral/Noblat é a ponta de um iceberg formado por um jogo de interesses e poder. ?Todos nós sabemos que a troca da direção tem caráter político. O clima está muito ruim, péssimo?, revelou, em depoimento à Agência Carta Maior, um repórter do Correio.

Na semana passada, o vice-presidente do jornal, Ari Cunha, fez duras críticas à linha editorial da publicação, ao presidente Cabral e ao jornalista Noblat no programa eleitoral reservado ao candidato à reeleição para o governo do Distrito Federal, Joaquim Roriz (PMDB). O Correio publicara, durante a campanha, denúncias envolvendo o governador com pessoas acusadas por grilagem de terras públicas.

A atitude de Cunha fez Cabral anunciar de imediato que o vice seria afastado da empresa. Na última terça (22), veio o contragolpe assinado por 13 dos 19 condôminos dos Associados: uma moção de censura ao modo como o jornal vinha sendo conduzido.

?O interessante é que a maioria dos condôminos que assinaram a moção de censura foi alçada ao posto pelo próprio Paulo Cabral?, observou Edgard Tavares, presidente do SJPDF (Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal). Ele fez uma conjectura ao se referir à mudança de opinião dos condôminos: ?Imagine quanto dinheiro público pode ter sido canalizado para que eles firmassem essa posição?.

Para Tavares, houve, neste episódio, uma coincidência que abre precedentes. ?O interesse de Roriz no afastamento de Cabral é amplamente conhecido. Os anúncios antecipados e as comemorações por partidários e militantes do governador, bem como o envolvimento de Ari Cunha, dão sinais da possibilidade de ter ocorrido articulações para que essa moção se concretizasse?.

Cunha, na opinião do repórter do Correio, foi quem articulou a troca de comando no jornal. ?A possibilidade de que o jornal volte a ser ?chapa branca? (termo jornalístico pejorativo que denomina veículos comprometidos com o poder público) como na época do Cunha, há mais de 20 anos atrás, está apavorando toda a redação. Depois de anos de trabalho, conseguimos consolidar uma linha editorial independente que agora corre risco de ser jogada no lixo?, declarou.

Logo depois que Cabral e Noblat fizeram o anúncio de suas demissões, contou o trabalhador do diário brasiliense, o pessoal da redação pensou em não publicar o jornal nesta quinta (23) ou fazer uma edição reduzidíssima, só com textos sobre a saída dos dois chefes. ?Eles mesmos, porém, pediram para que o diário fosse concluído e circulasse normalmente por considerarem que a situação ainda poderia ser revertida de alguma forma?, disse.

?Os boatos sobre demissões estão rolando soltos, mas a hipótese de renúncia coletiva foi descartada. O texto é a nossa maior arma. Vamos continuar trabalhando até que haja alguma interferência na redação?, ressaltou o repórter. ?Mas tudo aconteceu de repente. Tem gente na redação decidida a deixar o jornal junto com eles…?

As demissões de Cabral e de Noblat foram utilizadas como argumento pelo advogado da coligação de Roriz para que a edição desta quinta (24) do Correio Braziliense sofresse censura prévia.”

***

“Correio Braziliense sofre censura prévia por ordem judicial”, copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br), 24/10/02

“O pesadelo da censura mostrou, nesta quarta (23), que ainda encontra espaço na sociedade para apavorar o povo brasileiro. A redação do jornal Correio Braziliense foi obrigada, por ordem judicial do desembargador Jirair Meguerian, a submeter todo o conteúdo da sua edição desta quinta (24) à apreciação do oficial de Justiça Ricardo Yoshida e de Adolfo Marques da Costa, advogado da coligação que sustenta a candidatura à reeleição do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz (PMDB).

O pedido de censura prévia, feito pela coligação de Roriz e acatado pelo desembargador, teve como base a suposta informação de que o jornal publicaria o conjunto de gravações realizadas pela Polícia Federal, com autorização da própria Justiça, que captou conversas de personagens do primeiro escalão do governo do Distrito Federal com os irmãos Pedro Passos e Márcio Passos, empresários acusados de parcelamento irregular do solo.

A decisão de Meguerian determinou a ?busca e apreensão, com arrombamento ou entrada compulsória, na sede, se houver necessidade (…) de todos os exemplares do jornal Correio Braziliense, edição de 24.10.2002, desde que publique trechos ou a íntegra de conteúdo das fitas de gravação das conversas telefônicas interceptadas por ordem judicial?.

Para garantir sua presença e de um oficial de Justiça na sede do jornal, o advogado Costa utilizou como argumento as mudanças ocorridas na direção do jornal. Segundo ele, o presidente do Correio Braziliense, jornalista Paulo Cabral, e o diretor de Redação, jornalista Ricardo Noblat, ?adotavam uma linha editorial de confronto com o atual governo, e, ainda, procurando influenciar o resultado eleitoral com notícias muitas vezes tendenciosas, como foi o das matérias das fitas contendo gravações que estão em segredo de justiça?.

No último dia 17 de outubro, contudo, em entrevista ao telejornal DF TV, da Rede Globo, o governador Joaquim Roriz negou que tenha pedido à Justiça a proibição da divulgação de fitas em que ele e o empresário Pedro Passos conversam sobre o loteamento Mansões do Lago, no Lago Sul. Chegou, inclusive, a autorizar a divulgação do material. ?Eu dou inteira liberdade. Se quiserem pegar a fita, eu assino se for necessário?.

Leia abaixo a íntegra do texto que apresenta a visão do Correio sobre o episódio:

Atentado à democracia

A liberdade de imprensa foi vítima ontem de mais uma injustificável agressão por parte da coligação partidária que sustenta a candidatura à reeleição do governador Joaquim Roriz. Baseado em informações falsas, fornecidas por aliados de Roriz, o desembargador federal Jirair Aran Meguerian expediu um mandado de busca e apreensão para tentar impedir que esta edição do Correio Braziliense chegasse às bancas com a reprodução do conteúdo de fitas cuja divulgação está proibida pela Justiça.

Na representação feita ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Distrito Federal, a coligação Frente Brasília Solidária alegou ter ?fortes indícios? de que o jornal publicaria trechos das gravações proibidas. Um oficial de Justiça esteve na redação e na gráfica do jornal para ler todo material preparado para ser publicado hoje. Nada encontrou, pois em nenhum momento a direção do Correio cogitou afrontar a Justiça para expor o teor das fitas aos leitores.

Foi a terceira vez, em menos de um mês, que o governador instigou o Poder Judiciário contra o direito à informação garantido aos cidadãos pela Constituição. A primeira tentativa aconteceu no dia 29 de setembro, quando o Correio publicou trechos de conversas telefônicas do empresário Pedro Passos, acusado de grilagem de terras pelo Ministério Público.

Gravadas com autorização judicial, as fitas têm diálogos de Passos com vários integrantes do Governo do Distrito Federal, inclusive com o próprio Joaquim Roriz. Passos queria convencer seus interlocutores a garantir a criação do condomínio Mansões do Lago, contra a vontade do presidente da Terracap, Eri Varela. A partir do dia 1? de outubro, o jornal foi proibido de publicar as gravações.

Às vésperas do primeiro turno das eleições, mais uma vez a Justiça foi induzida a erro pela coligação de partidos que apóiam Roriz. Na ocasião, o argumento era de que o jornal circularia com encarte especial para divulgar o conteúdo das fitas. Embora se tratasse de deslavada mentira dos aliados do governador, a direção do jornal recebeu notificação de um oficial de Justiça, que reiterava a proibição de se divulgar o conteúdo das fitas.

A prática de enganar os brasilienses tornou-se uma rotina na campanha de Joaquim Roriz. Num de seus recentes pronunciamentos, o atual governador teve o cinismo de dizer que, se dependesse dele, as fitas seriam divulgadas sem restrições, como se não partissem de sua própria coligação as investidas judiciais contrárias à publicação do material.

A tentativa de intimidação por parte do governador atingiu primeiro o Correio, mas a proibição de divulgação das fitas vale também para os outros meios de comunicação. Em última instância, os maiores prejudicados são os cidadãos e as instituições brasileiras, que têm na liberdade de imprensa um dos principais pilares da democracia.”

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