Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > DROGAS

Zuenir Ventura

Por lgarcia em 08/08/2001 na edição 133

DROGAS

"O confuso planeta maconha", copyright O Globo, 28/7/01

"A primeira e última vez que experimentei maconha foi em 1968, quando era moda provar de tudo a que não se tinha direito: LSD, haxixe, cocaína e, alguns, até heroína. Fumei e traguei ? e amarrei um tremendo bode, como se dizia então. Nunca mais. Em compensação, conheço pessoas daquela época que continuam fumando até hoje numa boa ? homens normais, do establishment, com emprego, família. Jamais o fumo os impediu de estudar, trabalhar, ter grana e sucesso.

O mesmo eu poderia afirmar em relação à bebida. Muitos companheiros de adolescência, com os quais tomei em Friburgo o meu primeiro porre de Cuba-Libre, continuam bebendo moderadamente, como eu: uma cervejinha no fim de semana, um uisquinho, um vinho. Já outros viraram alcoólatras e morreram de cirrose.

Tudo isso para dizer que há muita confusão entre uso e dependência, entre curtição e submissão, entre recreação e vício. Nem sempre é a droga que cria a dependência, mas é o candidato a ela que vai buscar sujeição em qualquer vício: alcoolismo, jogo, cigarro etc. Da mesma maneira que o inveterado jogador é capaz de jogar até palitinhos de fósforo, se não houver outra possibilidade, o dependente de drogas vai cheirar cola se não encontrar cocaína e o viciado em cigarro vai catar guimba no chão para dar uma tragada.

A dependência química da droga é hoje considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como doença. Portanto, não adianta colocar a ênfase no sintoma. É preciso tratar da enfermidade, curar o doente, atacar a infecção para fazer baixar a febre. Não é o antitérmico que vai resolver, mas o antibiótico. ?Ser dependente de droga não é ter o desejo de usar droga?, já disse sabiamente o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira Filho, ?é não ter a possibilidade de não usá-las?.

O problema é que a sociedade quer combater um inimigo sobre o qual sabe muito pouco ? não sabe nem se é inimigo mesmo e como ele age. Desconhece os seus efeitos no organismo, ignora se (ou até que ponto) faz mal e costuma omitir o fato de que as drogas dão prazer. As campanhas insistem nos efeitos nocivos, dizem que elas são perigosas, que matam, mas esquecem que, antes de matar, elas constituem um barato maior do que o medo da morte, para quem está mergulhado na angústia ou no desespero.

A visão que o senso comum tem do problema, impregnada de moralismo e preconceito, foi importada dos Estados Unidos, cuja política de repressão e proibição, de ?combate?, de ?guerra?, criou a ilusão de que se pode acabar com as drogas a tiro.

O resultado dessa estratégia é que a repressão não impediu que a maconha tivesse se tornado um dos hábitos de consumo mais difundidos entre a juventude. Sem hipocrisia, é preciso admitir que se trata de uma transgressão que virou norma: nas praias, nos shows, nos festivais, só para citar os lugares públicos.

O que ocorreu no show do Planet Hemp é apenas mais um exemplo dessa política de equívocos. A lei, ou seja, a sociedade, obriga que o pobre do juiz aja. Aí ele vai e tenta impedir que milhares de jovens assistam a um espetáculo que os submeteria a uma apologia das drogas, como se eles fossem lá para aprender a fumar e não porque já fumam.

Outra confusão corrente é a de que todas as drogas são iguais, têm a mesma toxicologia e apresentam o mesmo risco letal, quando já há estudos mostrando que o álcool é das drogas mais lesivas e a maconha, a menos agressiva. No livro ?Hemp ? O uso medicinal e nutricional da maconha?, de Chris Conrad, um trabalho sério que a Editora Record acaba de lançar, o autor cita uma respeitada revista científica para garantir que a maconha não é perigosa para a saúde e que mais cedo ou mais tarde todo mundo vai se render a essa evidência. ?A cannabis, em si, não é um risco para a sociedade?, ele escreveu, ?mas incorporá-la cada vez mais à clandestinidade pode bem o ser?.

Há países experimentando soluções que substituam a repressão pela descriminalização ou pela legalização controlada das drogas. Talvez seja cedo para avaliar os resultados. Uma das dificuldades é que esse projeto tem que ser universal para funcionar. Não adianta liberar numa cidade ou num país, se o vizinho não faz o mesmo e a distribuição continua entregue ao tráfico.

Não sei o que fazer ? aliás, eu, o governo e a sociedade. Só quem parece saber mesmo são os traficantes. O país não conseguiu criar para as drogas um programa exemplar como o que desenvolveu contra a Aids. É um dos mais complicados desafios desse confuso mundo moderno. A única certeza é que a política que aí está é um desastre. Não sei se há outra à mão melhor, mas pior certamente não haverá."

 

"Vamos cair nesta conversa de novo?", copyright O Globo, 1/8/01

"O Globo publicou, dia 28 de julho, o artigo ?O confuso planeta da maconha?, de Zuenir Ventura, renomado formador de opinião. O artigo propugna que ?maconha não faz mal à saúde e cedo ou tarde todo mundo vai se render a esta evidência?. Para defender esta idéia, baseia-se em dois argumentos.

O primeiro é a declaração do próprio articulista: ?Conheço pessoas… que continuam fumando (maconha) até hoje numa boa ? homens normais, do establishment, com emprego, família?. Este argumento implica, por exemplo, que o Ministério da Saúde deveria retirar dos maços de cigarro suas advertências de ?cigarro faz mal à saúde?, simplesmente porque o Zuenir e eu conhecemos algumas pessoas que têm 80 anos e fumaram cigarro a vida inteira.

Como diz o próprio articulista, a dependência química é uma doença. Mas, assim como em outras doenças, só se sabe quem possui propensão à dependência das drogas depois que o indivíduo se torna dependente (com a agravante de que o dependente químico, pela sua própria compulsão, procura o agente causador da sua doença, o que não ocorre nas outras doenças). Portanto, em termos de saúde pública, não podemos abrir a guarda para esta possibilidade.

Concordo com Zuenir quando diz que é preciso curar a doença; mas será que ele sabe que as chances de cura real ? não uma ?alta? temporária ? são baixíssimas (na melhor das hipóteses, abaixo de 30%, sendo que diversos estudiosos afirmam que a taxa é menor do que 10%)? Será que sabe que um bom tratamento de dependência leva de três a cinco anos, custa cerca de 6 mil reais por mês, e que dificilmente pode ser feito ?no atacado?, pois cada indivíduo deve ser visto como um ser especial?

Todos os que defendem o uso de drogas apelam para o exemplo do álcool ou do cigarro. Para mim, exatamente estes dois casos são o melhor exemplo de como é difícil voltar atrás, uma vez que o consumo de alguma droga fica arraigado nos costumes de uma sociedade. Por que fazer isto com a maconha ou outra droga psicoativa?

O segundo argumento é um argumento de autoridade: a autoridade de um livro sobre uso medicinal e nutritivo da maconha. É compreensível que, não sendo um especialista no tema, o articulista pense que ?a sociedade… sabe muito pouco? sobre as drogas. Não é verdade. Nos últimos dez anos, este conhecimento tem tido um crescimento exponencial, com a possibilidade de mapear o corpo humano, em especial o cérebro, e ver de que forma as drogas agem em diversas regiões do corpo. De acordo com um levantamento feito pelo National Institute of Drug Abuse (Nida), mais de 15 mil trabalhos científicos publicados em revistas de associações médicas provam que a maconha causa danos à saúde. Em particular, sabe-se que a maconha fumada na década dos sessenta tinha cerca de 0,5% de THC (o ingrediente que causa o ?barato? no usuário), enquanto a de hoje em dia é de dez a quarenta vezes mais potente em termos de conteúdo de THC, o que torna seus efeitos correspondentemente muito mais fortes. O THC da maconha tem uma afinidade com as células gordurosas do homem ? entre as quais se incluem as do cérebro ? depositando-se nelas até cinco dias após um único baseado, alojando-se constantemente nas células do consumidor usual, facilitando a instalação de doenças mais graves no organismo.

O articulista também faz eco a um mito cada vez mais comum: o de que a política restritiva em relação às drogas é uma política ?dos Estados Unidos?. Isto excita o antiamericanismo tão em voga, e ameaça talvez transformar o problema numa questão ?patriótica?. Só que não é correto. As políticas mais repressivas em relação a drogas estão na China, em Cingapura, Japão, Coréia, Taiwan, Cuba e outros. Na Europa, países como a Suécia e a Finlândia, por exemplo, têm uma política mais restritiva do que a americana, baseada no consenso geral de recusa da sociedade em relação ao consumo de drogas, mas não repressiva no sentido dos asiáticos citados. Apenas a Holanda, a Suíça e a Austrália têm uma política abertamente em favor das drogas, sendo que alguns outros países europeus ensaiam uma política liberalizante, como é o caso de Portugal. Mas França, Inglaterra, Itália, Alemanha, etc., todas têm políticas semelhantes às dos EUA, assim como vários países sul-americanos, como Argentina, Peru e Chile. E além das políticas oficiais dos países, não podemos ignorar as centenas de organizações internacionais, formadas por médicos, pesquisadores, pais, etc., que há anos trabalham a favor da vida e de uma sociedade sem drogas, tais como: Drug Watch International, Europe Against Drugs, European Cities Against Drugs, etc.

Por fim, o articulista toca de leve na questão da ?descriminalização e da legalização controlada das drogas?, aparentemente vista com uma certa simpatia, principalmente porque ?é preciso admitir que se trata de uma transgressão que virou norma?.

Há aí um sério problema moral envolvido: devemos também descriminalizar o roubo ou legalizar o assassinato, por serem transgressões comuns? Porém aqui também há falta de informação. Para citar apenas um exemplo, a pesquisa ?Fala galera?, da Fiocruz-Unesco, constatou que os níveis de consumo de drogas pelos jovens de 14 a 20 anos em 1999, no Rio de Janeiro, eram muitíssimo inferiores aos que seus próprios professores imaginavam.

Sobre legalização, que mereceria vários artigos, quero apenas ressaltar que a liberação somente da maconha evidentemente não faria nenhuma mossa no tráfico, já que continuariam ilegais as outras drogas atualmente ilícitas. Serviria somente para aumentar o consumo de drogas em geral, inclusive das ilegais, para as quais a maconha é conhecida porta de entrada, como mostraram os exemplos da Holanda e da Austrália.

Por fim, o articulista declara: ?Não sei o que fazer ? aliás, eu, o governo e a sociedade.? Permita-me sugerir que se junte àqueles que desejam uma cidade e um país com uma juventude sadia e lúcida, livre tanto de cigarros de nicotina quanto de cigarros de maconha.

Para obter isto, o que mais se necessita é dos formadores de opinião, pessoas que são vistas como modelos. Num país democrático e avançado, como queremos o nosso, bem-estar e liberdade não combinam com massas de manobra entorpecidas pelas drogas."

 

"Uma lição: a,e,i,o, Urca", copyright O Globo, 4/8/01

"Num artigo irritado (O Globo, dia 1), a secretária especial de Prevenção à Dependência Química da Prefeitura respondeu ao que escrevi aqui sobre maconha. Até aí tudo bem. O problema é que já nas primeiras linhas, ela afirma que ?o artigo propugna que ?maconha não faz mal à saúde?…?. Não é verdade: meu artigo não ?propugna? nada, até porque detesto ?propugnar?. Ao contrário do dela, que sabe tudo sobre as drogas e não admite dúvidas, o meu estava cheio delas.

O que escrevi: ?O autor (do livro ?Hemp?, a que me referia antes) cita uma respeitada revista científica para garantir que a maconha não é perigosa para a saúde…?. Estava claro que quem garantia, ou propugnava, não era eu. Será que a dra. Mina de Carakushanski acha honesto omitir um trecho para poder atribuir a mim o que foi dito por outro?

Quase no final, ela sugere que eu me junte ?àqueles que desejam uma cidade e um país com um juventude sadia e lúcida, livre tanto de cigarros de nicotina quanto de cigarros de maconha?. Aceito a sugestão, contanto que se fique livre também das certezas da dra. Carakushanski."

    
    
                     
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