Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > AINDA O ROCK IN RIO

Zuenir Ventura

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

QUALIDADE NA TV

AINDA O ROCK IN RIO

"O som que canalizou a rebeldia dos jovens", copyright Época, Edição 141, 29/01/01

"Mesmo quem não gosta do gênero ou não agüenta mais ouvir falar de Rock in Rio tem de reconhecer que o megaevento que mobilizou milhares de jovens por sete dias deixa um saldo positivo e algumas lições que transcendem o show biz, como, por exemplo, a de que um dos bons antídotos contra a violência é pegar a energia juvenil e fazer com ela um ersatz por meio do som, ou seja, um bom descarrego musical. Mais fácil que barrar na porrada os impulsos é canalizá-los, quando não domesticá-los.

Temia-se, pensando no Réveillon, que pudesse ocorrer algo parecido com a tragédia daquela noite em Copacabana. Não seria uma temeridade juntar tantos jovens, excitá-los com a fúria do som e do ritmo do rock e impulsioná-los com outros estimulantes usados nessas ocasiões? Pois bem, a não ser pelas confusões do lado de fora no último dia, que estragaram um pouco a festa, a iniciativa foi um sucesso: atraiu mais de 1 milhão de pessoas e carreou cerca de R$ 500 milhões para a cidade. Nesses casos, quando degeneram, está provado que a culpa é mais dos organizadores que dos organizados. O que faltou, por exemplo, na festa da prefeitura houve na Cidade do Rock: previdência (no dia em que esta falhou, surgiu o tumulto na entrada).

As más-línguas alegam que a tranqüilidade se deve ao fato de ter havido muito pouco de sexo, drogas e rock and roll nos sete dias de Rock in Rio, o que não é verdade. Parece que houve dos três, só que em doses que não comprometeram o brilho da festa.

Para ter idéia do bom comportamento das variadas platéias que freqüentaram a Cidade do Rock, inclusive a dos metaleiros, basta dizer que o maior escândalo, o gesto mais ousado, lembrou Woodstock 1969: foi um homem nu – e nu por equívoco. Nick Oliveri, o integrante do grupo Queens of the Stone Age que se apresentou vestido apenas com a guitarra, fez isso por engano, coitado. Depois de sair escoltado do palco, ele disse à polícia, inocente e cheio de razão: Desculpe, mas se todo mundo aqui aparece nu na TV no Carnaval! Ninguém soube explicar-lhe por que no Carnaval pode e não pode no Rock in Rio. Nick transformou-se no melhor exemplo do rebelde sem calça.

Para quem assistiu ao primeiro Rock in Rio, é inevitável a comparação do país daqueles tempos com o de hoje. Um ano antes os brasileiros tinham ido à rua lutar pelas Diretas, se empolgar com a eleição de Tancredo e chorar sua morte. Em 1985, amadurecido pela frustração e pelo sofrimento, o país aprendia que democracia é a difícil arte da tolerância, é conviver com o contrário. Os arqueólogos do futuro vão ver que 1985 talvez tenha sido o último ano da transição e o primeiro da redemocratização.

Há 16 anos descobriu-se que também na música era hora de incorporar sem excluir. Pode-se gostar de rock e de samba. O maniqueísmo começava a sair de moda dando lugar ao pluralismo. Não que um tenha desaparecido e o outro tenha triunfado definitivamente. A todo momento continuamos esbarrando com os resíduos e o entulho autoritário daqueles tempos. Mas pelo menos não se precisa discutir mais o que é melhor, se ditadura ou democracia, por mais imperfeita que esta ainda seja."

"A primeira vez sempre se idealiza", copyright O Globo, 20/01/01

"Eu também fui ao Rock in Rio. No primeiro dia, claro, dia dos velhinhos: de Gil, James Taylor, Sting. Na verdade, foi mais um teste sentimental, uma curiosidade, um daqueles exercícios de comparação que, com a idade, a gente vive fazendo para saber o que é melhor, se hoje ou ‘naquele tempo’. Queria ver se o Rock in Rio 3 seria melhor do que o primeiro, há 16 anos, quando me encharquei de chuva e chafurdei na lama, comandando uma equipe que cobria o festival.

Saí achando que nada mais romantizado na vida do que a ‘primeira vez’, em geral uma experiência ruim ou inexpressiva que o tempo e a distância vão melhorando até transformarem o que foi apenas pioneirismo em marco histórico, inesquecível. A primeira vez a gente não só não esquece, como quase sempre idealiza.

É interessante como a memória é seletiva, como gosta de dourar a pílula, principalmente a memória proustiana, afetiva, sensorial, feita de impressões, carregada de emoções. E quando não se tem boa memória factual então, como é o meu caso, a reconstrução substitui a recordação. Em vez de relembrar, a gente reconstrói com a emoção.

Do que gostei mais? De agora, principalmente quando saí da mordomia do camarote e fui para o meio do gramado. Dali a visão é grandiosa. Nada melhor para grandes eventos do que essa arquitetura orgânica, feita com material extensível que reproduz formas da natureza. Linda. Quanto às preferências, que os metaleiros não me ouçam, que não me ouçam os fãs do Sting, mas adorei James Taylor, e adorei tanto ou mais do que da primeira vez. Será questão de idade? Será por simpatia à história de vida de um artista que sempre esteve meio em crise existencial, entre a queda e a redenção? Não, é pela voz mesmo, pela melodia, por aquelas suaves baladas. Afinal, sou do tempo em que se ouvia música, não som.

Pensando bem, tirando os aspectos heróicos – a aventura pioneira, aquele evento colossal, meio megalomaníaco, que podia ser um fracasso, as reações meteorológicas tentando boicotar o espetáculo, a chuva, a lama, os mosquitos, e como os havia (a gente joga fora até os mosquitos) – o Rock in Rio de 1985 foi mais contexto, pertenceu a um momento importante de nosso processo de redemocratização.

1985 talvez tenha sido o último ano da transição e o primeiro em que de fato a democracia começou a dar as caras nos arraiais da cultura. Foi quando o maniqueísmo saiu de moda para dar lugar ao pluralismo. Encarregado então de fazer o balanço cultural de 1985 para o ‘Jornal do Brasil’, escrevi:

‘Se 84 foi para a cultura o ano do consenso, tecido pela campanha das Diretas e pela eleição e morte de Tancredo, 85 foi o ano do dissenso, isto é, do debate e da polêmica; em uma palavra, do desacordo. Os intelectuais e artistas discutiram, brigaram e se xingaram como há 21 anos não faziam – pelo menos entre si. À primeira vista foi o fim do mundo. Afinal, graças ao consenso foi que se derrubou o regime militar. (…) Mas isso, em lugar de ser o fim do mundo, parece ser o começo de outros tempos’.

O próprio Rock in Rio fez parte da polêmica: ou se era contra ou a favor; ou se gostava de samba ou de rock. Mas já então se começava a concluir que uma preferência não exclui necessariamente a outra. O hábito desse tipo de exclusão já soava como sectarismo que iria cair em desuso. É evidente que Carlinhos Brown hoje, assim como Erasmo e Lobão ontem, iria sentir na própria pele que a intolerância continua por aí, e não só na música, mas ela não tomou conta do país.

Esquecendo o Rock in Rio, bom mesmo é quando se misturam o velho e o novo, quando se juntam, por exemplo, Cole Porter e Claudio Botelho e Charles Möeller, para um musical como ‘Ele nunca disse que me amava’. Com medo da expectativa criada pela unanimidade dos comentários – ‘não pode deixar de ver’ – relutei em ir: muita promessa frustra. Além disso, havia uma resistência que Jaguar expressou dessa maneira: ‘Cole Porter no Rio? É como ir à Broadway ver Pixinguinha?’ (ele acabou indo e adorando).

São seis atrizes. Ou seis cantoras? Ou atrizes-cantoras? Ou cantoras-atrizes? Não importa, o que importa é a qualidade das vozes, das interpretações. Quanto charme! É tanto talento no palco que a todo momento a gente fica perguntando se não está em Nova York. Elas desmentem todos aqueles preconceitos e lugares-comuns de que no Brasil cantora não sabe interpretar e atriz não sabe cantar, e que nós, um povo tão melodioso, não sabemos fazer musical. Quem ainda acha isso que vá lá vê-las, urgentemente."

"Fechando a tampa do rock", copyright O Globo, 21/01/01

"Também não agüento mais ouvir falar em Rock in Rio. Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. E, sob essa perspectiva, todos podem comemorar. Para quem considera o festival um mal ou para quem considera o festival um bem, a verdade é apenas uma: é hoje só, amanhã não tem mais. Num ponto, todo mundo vai ter que concordar. Economicamente, a Cidade do Rock só faz bem ao Rio. Somos uma cidade turística que depende do verão. Os limites do verão, ultimamente, são bem conhecidos. A estação começa no réveillon e termina no carnaval. Neste 2001, houve um Rock in Rio no meio. Melhor para os hotéis, locadoras de automóveis, agentes de viagem, restaurantes, companhias aéreas e todo o resto que vê os negócios crescerem quando há mais turistas na cidade. O Rio depende do turismo. E o Rock in Rio é um chamariz e tanto. Quanto à música… quem falou em música?

* Tem gente querendo processar o Rock in Rio por propaganda enganosa. Pagou para ver o Axl Rose, mas garante que quem estava no palco era a Ângela Ro Ro.

* A tal série de espetáculos conhecida como ‘noite teen’ do festival apontou para uma verdade irrefutável: se o futuro da música depender da pirralhada que se apresentou no Palco Mundo, a arte de cantar ao vivo tende a terminar. Tudo começou com o espetáculo (?) daquele garoto lourinho que usa um pouco de Gumex em dois ou três fios de cabelo. Aaron Carter chegou aqui com um showzinho de quinta – tendendo para sétima ou oitava – quatro bailarinos desconjuntados, nenhuma banda e… cantando com playback! Se o Rock in Rio se levasse a sério, exigiria que o empresário do menino devolvesse o cachê e ainda pagasse uma multa à organização do festival. O pior é que o estilo de Aaron Carter não é original. A dupla Sandy e Júnior foi pelo mesmo caminho.

* O show brasileiro era mais produzido, Sandy e Júnior são simpáticos, Sandy canta razoavelmente bem – o razoável vai por conta da confusão que a menina ainda faz entre cantar bem e gritar até onde os pulmões agüentam – mas, como se estivessem em qualquer clube da periferia, Sandy e Júnior usaram… playback! E, enfim, Britney Spears, a virgem mais (mal) falada do planeta, chegou cheia de banca e… dublando um playback!!! Acho que todos deveriam devolver o cachê e repassá-lo para Daniela Mercury. A baiana também pula, requebra, balança os braços mas, quando solta a voz, ela sai límpida, equilibrada e, principalmente, ao vivo.

* Daniela, por sinal, foi a única baiana que se deu bem nesse festival. É verdade que seu show, às vezes, se assemelha mais a uma parada militar do que a um espetáculo musical. Mas para uma temporada em que Carlinhos Brown foi quase expulso do palco e em que Moraes Moreira caiu do trio elétrico durante o ensaio – baiano que cai do trio elétrico, convenhamos, não merece o respeito de ACM – Daniela Mercury salvou a cultura do dendê.

* Vamos falar a verdade: a nível de virgem, enquanto mulher intocada, a Britney Spears não é essa Coca-Cola toda. Sou mais a Angélica dos velhos tempos.

* Quem viu o show de Sá, Rodrix e Guarabyra na Tenda Brasil do Rock in Rio sabe que tudo muda na música brasileira. Menos o cabelo do Guarabyra.

* Por falar em Sá, Rodrix e Guarabyra, eles voltaram a compor juntos, vão gravar um disco ao vivo e iniciam, em março ou abril, uma turnê nacional. Desarquivem o patchuli.

* Para a quarta edição, o Roberto Medina vai ter que se decidir: ou é por um mundo melhor ou é com playback. Os dois não combinam."

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