Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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A cobertura do carnaval carioca na Rede Globo

Por Francisco Fernandes Ladeira em 15/02/2018 na edição 974

Ao contrário do que pensam as mentes mais conservadoras de nossa sociedade, o carnaval, longe de ser um poderoso mecanismo de alienação das massas, é uma festa frequentemente marcada por diversos tipos de críticas sociais. Nesse sentido, podemos citar o desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro em 1988 como típico exemplo de engajamento carnavalesco. Na ocasião do centenário da Abolição da Escravatura, as agremiações cariocas não conceberam a libertação dos escravos com um gesto benevolente da elite branca, mas ressaltaram a resistência da população negra ao cativeiro – “Ô ô ô ô nega mina, Anastácia não se deixou escravizar” (Unidos de Vila Isabel) – e denunciaram a pobreza vivida pelos descendentes dos escravos em comunidades carentes – “Livre do açoite da senzala. Preso na miséria da favela” (Estação Primeira de Mangueira).

Um ano depois, a Beija-Flor de Nilópolis retratava as desigualdades sociais com o enredo “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”. Já em 1990, a São Clemente alertava para a crescente mercantilização do carnaval, com a exclusão da população pobre e o destaque concedido às chamadas celebridades: “É fantástico. Virou Hollywood isso aqui (isso aqui). Luzes, câmeras e som. Mil artistas na Sapucaí”.

Neste ano, duas escolas se destacaram pelo engajamento. A partir do enredo “Com dinheiro ou seu dinheiro, eu brinco” (uma alusão a um clássico carnavalesco da década de 1940), a Mangueira fez uma dura crítica à política de corte de recursos repassados às escolas de samba realizada pela prefeitura carioca. Já a Paraíso do Tuiuti questionou se a escravidão realmente foi extinta no Brasil. Para tanto, a escola promoveu em seu desfile uma linha histórica que abordou desde o tráfico de escravos, iniciado no século 16, até a atual precarização do trabalho promovida pelo governo Temer, com o desmonte da CLT e as propostas de reforma da Previdência.

Sob a aspecto midiático, foi interessante constatar como a Rede Globo, detentora exclusiva dos direitos de transmissão do carnaval carioca, repercutiu os desfiles de Mangueira e Tuiuti, de acordo com os seus direcionamentos político-ideológicos. Enquanto a causa proposta pela verde e rosa foi apoiada pela Globo, a questão levantada pela Tuiuti gerou um grande incômodo à emissora da família Marinho. Dois pesos, duas medidas.

Logo no início da apresentação da Mangueira, a repórter Mônica Teixeira perguntou ao carnavalesco Leandro Vieira se o enredo da escola era uma crítica ao corte de verbas no carnaval. “Não é uma crítica somente ao corte de verbas, é uma crítica a tudo que a gestão municipal vira as costas”, respondeu Leandro.

Como se sabe, o prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella é ligado à Igreja Universal, de propriedade de Edir Macedo, o dono do Grupo Record, um dos principais rivais das Organizações Globo. Portanto, seria natural que a Globo aproveitasse o protesto (extremamente legítimo, diga-se de passagem) para atacar um de seus principais desafetos. Por outro lado, é importante ressaltar que, ao tentar esvaziar o carnaval carioca por causa de motivações religiosas (a festa é considerada pecaminosa para alguns setores neopentecostais), Crivella promove uma grande afronta ao caráter laico do Estado brasileiro. A reação da Mangueira veio em um dos versos de seu samba-enredo: “Eu sou Mangueira, meu senhor, não me leve a mal Pecado é não brincar o Carnaval!”.

Em um dos primeiros carros-alegóricos da escola havia um recado direto para Crivella: uma silhueta de braços abertos coberta de plástico com a frase: “Olhai por nós, o prefeito não sabe o que faz”. Já em uma de suas últimas alegorias, a Verde e Rosa caracterizou o prefeito carioca como Judas. “E aí o quarto carro, ‘Olhai por nós, o prefeito não sabe o que faz’, é um carro de protesto. O carnaval sempre foi irreverente, sempre fez críticas sociais”, afirmou a apresentadora Fátima Bernardes. Para o comentarista Milton Cunha, a Mangueira fez um desfile “corajoso”.

Se o protesto proposto pela Mangueira foi bem visto e, de alguma maneira, até incentivado pela Rede Globo, o mesmo não pôde ser dito em relação ao desfile da Paraíso do Tuiuti, que apresentou uma crítica contundente sobre os retrocessos vividos pelo Brasil pós-impeachment.  A ala “Manifestoches”, que ironizava os manifestantes/fantoches que bateram panela pedindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff após serem manipulados pelas “mãos invisíveis” da elite e da mídia proporcionou o momento que mais causou incômodo para a Rede Globo. Comentários extremamente comedidos e constrangidos foram tecidos pelos apresentadores da emissora. Ao ver passar os “patos amarelos” guiados pela Fiesp, Fátima Bernardes disse apenas “Manifestoches”. “Manipulados”, completou Milton Cunha, sem, no entanto, se referir a quem esteve por trás de tal manipulação.

O mesmo constrangimento foi visto diante da crítica ao presidente Temer, caracterizado como um “vampiro” que suga o sangue do trabalhador. “O vampirão”, enfatizou Milton Cunha. O apresentador Alex Escobar apenas riu timidamente. Por sua vez, Fátima Bernardes teceu um comentário evasivo: “É o regime de exploração nos mais diversos níveis”, ao se referir ao carro-alegórico “Neo-tumbeiro”. Limitando-se a constatar o óbvio, Escobar disse o que todos viam: “Tá com a faixa de presidente esse vampiro”. “Vampiro neoliberalista”, completou Fátima. Todavia, a ex-apresentadora do Jornal Nacional não explicou o que seriam “regime de exploração nos mais diversos níveis” e “vampiro neoliberalista”. Nenhuma menção à “crítica social”, como o apontado no desfile da Mangueira, foi feita. Tratou-se de um mal-estar apresentado pela Globo só comparável à campanha favorável a Lula no Domingão do Faustão feita pelo então cantor Lobão, no longínquo 1989; e à leitura do direito de resposta de Brizola a um editorial calunioso do jornal O Globo, feita por Cid Moreira, há 24 anos, em pleno Jornal Nacional.

Nos noticiários da Rede Globo a Tuiuti recebeu um espaço menor do que o dedicado às outras escolas. Já uma postagem sobre o desfile publicada na página do G1, portal da Globo, tentava minimizar a fantasia do “Temer Vampirão”: “Componente da Paraíso do Tuiuti não confirma se referência é o presidente Michel Temer”. Só faltou mencionarem que o presidente em questão não era Temer, mas Lula; ou então, devido à grande repercussão do desfile da Paraíso do Tuiuti, proporem o projeto “Escola de Samba Sem Partido”.

Não foi apenas na Marquês de Sapucaí que a população demonstrou o seu descontentamento com os rumos tomados pelo Estado brasileiro. Em todo o país, foram registrados inúmeros protestos durante os festejos carnavalescos. As mentes mais conservadoras de nossa sociedade odeiam o carnaval justamente porque a festa apresenta uma excelente oportunidade para questionar o status quo. Em última instância, é muito melhor ter o povão brincando, pulando se divertindo e também protestando durante quatro dias do que ver a classe média verde-amarela manipulada indo às ruas para reivindicar pautas retrógradas.

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Francisco Fernandes Ladeira é mestrando em Geografia pela UFSJ e pesquisador sobre as relações entre mídia e ensino de Geografia na educação básica.

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