Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

QUALIDADE NA TV > CONTEÚDO & TV DIGITAL

Para um mapa do pensamento audiovisual

Por Nelson Hoineff em 10/02/2004 na edição 263

No início deste ano, o cinema brasileiro comemorou a ocupação de mais de 22% do mercado interno e crescimento de 200% em sua receita. Agora, celebra a indicação de um filme brasileiro para quatro Oscar e o conseqüente crescimento no mercado externo.

Quase simultaneamente, dois atos do governo, aparentemente sem relação entre si, apontam para a possibilidade de que a construção de imagens no país possa estar festejando muito mais do que isso no futuro imediato. Mas isso só acontecerá se as circunstâncias que os envolvem forem plenamente entendidas.

Um destes atos é a constituição do novo Conselho Superior do Cinema, que será instalado pelo presidente da República em 11 de março. Este conselho, vinculado à presidência, vai estabelecer a política nacional do cinema e possivelmente de todo o setor audiovisual, incluindo a televisão. O outro é a formação do comitê gestor para a implantação da TV digital no país, vinculado ao Ministério das Comunicações.

Este segundo comitê foi criado nos termos do decreto 4.901, de 27/11/03, que tem a particularidade de sinalizar a mudança que se operou na política do governo para a TV digital. Basicamente, as ações deixaram de se concentrar na definição do padrão tecnológico a ser adotado para se fixar no impacto social da nova mídia.

Inclui-se aí, como se sabe, a questão do controle dos meios de comunicação. Mas até isso é pouco se comparado à extensão do que pode ser feito para mudar o patamar de todo o modelo de produção e consumo audiovisual no Brasil durante os próximos 50 anos.

Tudo a ser feito

A obstinação de se limitar os estudos de implantação de TV digital à definição do padrão a ser adotado durou mais tempo do que devia. Deixou-se de perceber que o ponto nevrálgico da questão não está na implantação da tecnologia de transmissão, mas na fabricação do conteúdo a ser transmitido.

Tecnicamente, não existem diferenças essenciais entre os padrões americano, europeu ou japonês que estão sendo oferecidos – e eles se parecerão cada vez mais nos próximos cinco anos. A pretensão do ex-ministro Miro Teixeira de desenvolver um padrão próprio no Brasil não gozava de consistência técnica – e nem política. Em conseqüência, durou tão pouco tempo quanto o próprio ministro.

A tentativa só tinha respaldo no que diz respeito ao desenvolvimento de middlewares, sistemas operacionais. Eles são, em última análise, parte do cardápio de softwares sobre os quais deveríamos de fato estar nos debruçando.

Deste cardápio, os softwares mais importantes são justamente os de conteúdo. Isso passa pelo conteúdo audiovisual tradicional (filmes, séries e programas) – cuja demanda será multiplicada por 6 nos primeiros anos da implantação da TV digital –, mas aplica-se sobretudo ao conteúdo original, voltado para a capacidade do meio que está em gestação. Conteúdo que leve em consideração as competências específicas da TV digital, entre as quais a capacidade interativa, por exemplo, representa apenas o primeiro passo.

O mundo inteiro já está trabalhando na formatação desse tipo de conteúdo – mas os resultados são ainda incipientes, o que é bom para nós. Onde a televisão já é digital – como nas transmissões por satélite em DTH –, modelos específicos de processamento de sinais já são adotados. O PVR, que permite ao espectador afastar-se por alguns minutos sem interromper o que estava vendo, dá uma pequena medida dessa possibilidade. Mas a construção de conteúdo que tenha seu eixo fincado sobre os patamares digitais ainda é embrionária.

Evitar o fracasso

Este é um negócio de 10 bilhões de dólares nos três primeiros anos – e o Brasil tem uma oportunidade única para se valer desta situação. O sucesso da construção de conteúdo audiovisual brasileiro, no país e fora dele, respaldam essa evidência.

Os royalties decorrentes do desenvolvimento e exportação de formatos concebidos para plataformas digitais são infinitamente maiores que os pagos pela utilização de padrões tecnológicos estrangeiros. Virar as costas para esse fato não significa apenas abrir mão de toda essa receita. Implica também no aumento da dependência brasileira ao conteúdo audiovisual estrangeiro, com reflexos na formação cultural do povo brasileiro no decorrer de muitas gerações.

Se um braço começa agora a estabelecer a política para a TV digital e outro passa a construir as políticas para a produção de conteúdo, o governo tem que entender que ambos os braços são parte do mesmo corpo. A compreensão disso pode dar ao país uma chance que ele nunca teve para ingressar de fato no mapa internacional da construção do pensamento audiovisual. Essa corrida vai definir as posições no mercado de televisão digital, determinar quem estará importando ou exportando cultura de massas. Os que ficarem atrás vão ter que engolir por décadas a submissão aos modelos e produtos que serão definidos pelos outros.

Já vimos esse filme – e ele não fez sucesso algum.

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