Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1021
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>>A cobertura dos conflitos

Por Luciano Martins Costa em 22/12/2008 | comentários

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A cobertura dos conflitos

Ao longo desta semana, com exceção do dia 25, estaremos conversando com João Paulo Charleaux, ex-assessor da Cruz Vermelha Internacional, hoje editor assistente do jornal O Estado de S.Paulo, sobre a cobertura jornalística dos conflitos armados e situações de guerra.

Observatório da Imprensa: – Bom dia, João Paulo, fale um pouco sobre sua experiência na Cruz Vermelha.

João Paulo Charleaux: – Bom. Há sete anos eu acompanho o debate sobre o direito da guerra, o direito que pretende normatizar o conflito armado; colocar limites na guerra. Essa experiência veio através de um trabalho que eu fiz, um longo trabalho, na Cruz Vermelha Internacional, que a instituição que deu origem a esse direito e tem sede em Genebra, na Suíça. Eu cuidei da comunicação dessa instituição nos países do Cone Sul. É uma experiência pouco comum pro jornalista acompanhar geopolítica internacional, os conflitos armados do outro lado do balcão. Então essa foi um mergulho um pouco na questões teórica do conflito armado, não tanto nas questões políticas, mas sim na questão dos limites da guerra, o que é um crime de guerra, o que é um genocídio, o que é um massacre, o que é uma prisão legal, ilegal, o que é um prisioneiro de guerra, o que é Guantánamo, à luz do que diz a norma adotada nos países.

OI: – Nós temos ainda especialistas no Brasil, como Joel Silveira foi, por exemplo?

J.P.C.: – Tem muita gente que cobre conflito armado; acho até que no Brasil, em comparação com os países da região, tem uma experiência interessante nessa área. Aqui no Estadão mesmo tem o Lourival Sant´Anna, que é um cara que acompanhou todos os grandes episódios recentes em terreno, né. Se a gente for em um nível um pouco mais baixo de conflitividade, não um conflito bélico, mas conflitos sociais, conflitos de rua, como o que acontece normalmente na Bolívia, no Paraguai, eventualmente na Argentina, tem muita gente que acompanha. A Ruth Costas que trabalha na mesma editoria [que eu] tem acompanhado todos esses eventos. A gente vê, as televisões foram a todos esses grandes episódios, tanto na a guerra do Iraque, então a Folha deu, a Globo deu, o Estadão deu. Comparativamente com a região, acho que sim, a gente tem acompanhado bem essas coisas.

Estamos conversando com João Paulo Charleaux, editor assistente do jornal O Estado de S.Paulo e ex-assessor da Cruz Vermelha Internacional.

OI: – Em geral se percebe que a cobertura é do fato em si, e não há muita convergência entre o fato dos conflitos e, por exemplo, questões de direitos humanos. Como você vê essa cobertura?

J.P.C.: – Acho que às vezes há lampejos de percepção sobre isso. Lampejos de lucidez da imprensa. Por exemplo, um episódio que foi muito debatido foi o uso de bomba de fósforo por Israel nos ataques ao sul do Líbano. Surpreendemente foi uma questão que cresceu e que ganhou a atenção das pessoas, e que é uma questão puramente do direito da guerra. Ela é uma munição permitida em certas circunstâncias, para iluminar terreno, mas que, usada contra combatente inimigo ou contra a população civil constitui uma violação e pode vir a ser um crime de guerra. Isso é um exemplo. Mas a gente tem volta e meia discussões sobre isso; Guantánamo é um caso clássico. O que acontece com as pessoas que estão ali, que direitos elas têm, que violações foram cometidas, o que é tortura de fato, o que é o tratamento abusivo, o que é o método coercitivo de interrogatório? Essas questões têm frequentado os jornais muito fortemente e acho que a imprensa acompanha; a gente pode conversar sobre a qualidade desse acompanhamento, mas acompanha sim.

OI: – A guerra e a própria cobertura, altamente tecnológica, transformam a guerra quase em um evento cinematográfico. Perde-se aí o viés humano dos conflitos?

J.P.C.: – Uma vez me fizeram uma provocação que foi muito interessante. Disseram: Por que vocês jornalistas acham que mostrar as vítimas, mostrar os civis, as crianças, essas pessoas dilaceradas, é uma coisa importante, para a guerra, para mostrar a crueza da guerra, e não fazem a mesma coisa, sobre os conflitos criminais, urbanos, classificam isso como ‘jornal sanguinolento’. Por que esse duplo caráter na coisa? Eu acho que essa é uma provocação interessante. A guerra tecnológica é um conceito que se tenta vender por aí; que a guerra é limpa, que ela é inteligente, a bomba é inteligente, mas, se você descer ao terreno, você vai ver que continuam morrendo mulheres, crianças, pessoas que não participam da guerra, pessoas mutiladas. Essas munições clusters, que são essas sub-bombas que infestam os países – e o Brasil é um produtor dessa arma. A guerra continua. Ela é tecnológica, mas continua muito cruel; até mais cruel, na medida em que faz mais vítimas civis hoje, do que antigamente.

OI: – Obrigado por enquanto.

Seguimos conversando amanhã João Paulo Charleaux, editor assistente do jornal O Estado de S.Paulo.

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