Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Programa nº 740

>>A gangorra da economia
>>Evitando o ponto central

Por Luciano Martins Costa em 19/03/2008 | comentários

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A gangorra da economia

As manchetes de ontem dos grandes jornais brasileiros duraram apenas algumas horas.

Bastaram a abertura das bolsas de valores, com a notícia de que o banco central americano havia cortado os juros em 0,75 ponto percentual, e a avaliação de que os bancos dos Estados Unidos ensaiam uma recuperação, para que o pessimismo do dia anterior virasse pó.

Para o leitor que ensaiou uma compreensão da crise que abala os mercados, já por volta do meio-dia os jornais do dia serviriam para pouco mais do que embrulhar peixe.

O que define como o leitor não especializado vai entender a economia é menos o conjunto de números do que o tom que a imprensa escolhe para apresentá-los.

Observe o leitor o seguinte exemplo: durante a crise do início da semana, quando foi noticiada a venda do banco Bear Sterns por apenas 10% do seu valor de mercado, o Globo explicava que o Sterns era ‘o quinto maior banco de investimentos dos Estados Unidos’.

Essa informação ajuda a aumentar as preocupações.

Enquanto isso, outros veículos da imprensa, como o portal Exame, que é acessado por muitos jornalistas de economia, diziam que o Bear Sterns era ‘o menor entre os cinco maiores bancos independentes de investimentos dos Estados Unidos’.

Esse é o tipo da informação que ajuda a relativizar a notícia.

Hoje, o anúncio do corte de juros pelo banco central americano e as primeiras avaliações indicando alguma recuperação dos bancos dos Estados Unidos provocam o efeito contrário: a imprensa celebra a recuperação das bolsas em todo o mundo.

E junto com o otimismo vêm as explicações sobre a interpretação catastrófica dada à venda do banco Bear Sterns: o mercado teria reagido negativamente, com medo de uma quebradeira geral no sistema financeiro norte-americano.

Nas suas edições de hoje, os jornais explicam que a intervenção do banco central americano, facilitando a venda do Bear Sterns por um preço irrrisório, foi um sinal positivo de que as autoridades monetárias vão continuar apoiando o sistema financeiro para evitar o pior.
 
Nenhum jornal brasileiro apostou numa reportagem sobre o problema central, ou seja, a insustentabilidade de um sistema de apostas no qual os jogadores acham que vão ganhar tudo o tempo todo.

A atual crise mundial é pior do que a crise da Malásia, dez anos atrás, conforme lembra o presidente Lula, citado hoje em todos os jornais.

Apresenta características diferentes e tem seu epicentro na matriz do capitalismo global.

Mas pode ser resumida numa palavra: descrédito.

Evitando o ponto central

Os jornais brasileiros precisam explicar por que o sistema financeiro mundial perdeu a confiança dos investidores.

Não basta lembrar que os bancos americanos foram longe demais na concessão de créditos para negócios imobiliários.

Esse é apenas um aspecto do jogo, de qualquer jogo: quem tem a chance de ganhar mais, sempre arrisca mais.

O que a imprensa anda evitando é a discussão sobre a natureza do sistema.

Construída sobre o consenso de que o mercado é racional e auto-suficiente, a imprensa se nega a rever esse dogma, mesmo diante dos sinais inequívocos de irracionalidade.

Outra coisa que a imprensa ainda não explicou é a surpreendente imunidade da economia brasileira aos efeitos da crise mundial.

Além disso, falta esclarecer porque, aparentemente, essa proteção se estente a outros países da América do Sul com os quais o Brasil tem relações intensas de negócios.

Hoje, o Globo informa que alguns dos grandes bancos brasileiros já valem mais do que  alguns gigantes do sistema financeiro norte-americano.

Se um jornal houvesse publicado, alguns anos atrás, que um banco brasileiro como o Bradesco ou o Itaú poderia comprar o banco Morgan Stanley, pouca gente iria acreditar.

Hoje que essa notícia está na imprensa, não basta noticiar.

É preciso contar como isso se tornou possível.

Os fatos aparentemente inexplicáveis, ou pelo menos surpreendentes da economia, têm um fundamento razoável, mas a imprensa se nega a se aprofundar nessas causas.

Talvez porque, lá adiante, todos saibam que a matriz da crise é o próprio sistema.

O sistema não é sustentável. Apóia-se na exploração irracional do patrimônio natural, sem atentar para as conseqüências futuras desse desastre.

O que se pode constatar ainda agora, é que, quando entra em crise, precisa da intervenção do Estado para não se desmanchar.

Seu principal produto não é a riqueza de alguns, mas a pobreza de muitos e sua racionalidade é uma ficção que os jornais ajudam a manter.

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/03/2008 Ricardo Pierri

    Excelente artigo. O fundamento da necessidade democrática da liberdade da imprensa é o mesmo dogma do capitalismo: o de q um sistema é capaz de se auto-regular e se manter em equilíbrio. Mas isso não é verdade para sistemas abertos – ou seja, aqueles q sofrem influência externa -, como é o caso da economia, da democracia ou mesmo das relações intersociais. A existência de diversos ‘atores’ e a liberdade de cada um não conduz ao equilíbrio entre as diversas forças – ou, no caso, das diversas opiniões e pontos de vista. A experiência, reforçando a conclusão lógica, demonstra q ela conduz à dominação de uma sobre as outras, em razão das influências externas. Em resumo, a imprensa não existe em um vácuo e é influenciada pelo contexto em q se insere, levando à preferência pelas opiniões e interesses das forças mais poderosas e influentes. E isso conduz à manutenção de dogmas, à exclusão de manifestações contrárias, à censura. Se essa influência externa é estatal ou privada é imaterial, pois o efeito é o mesmo e é independente. Inclusive no q tange aos ‘mecanismos de defesa’ desse sistema. O influenciado pelo Estado ataca a opressão do capital, e o influenciado pelo capital, ataca a opressão do Estado. E nós, pobres mortais, ficamos vendidos nesse jogo, q nunca permite a discussão do fundamental, incluindo essa necessidade dogmática de uma liberdade q não existe na prática.

  2. Comentou em 19/03/2008 gastrogildo parente

    Como acontece há muito tempo, a imprensa, mais uma vez, não está interessada com o conteúdo da informação que leva aos seus leitores ou telespectadores, mas sim, com o fim político a que ela se destina. Hipocritamente, levanta a bandeira do Estado Democrático de Direito, do Neo-liberalismo, do Direito à informação e ao sigilo da fonte… todavia, relutam em discutir questões relevantes, tais como os erros do sistema capitalista global. E, assim sendo, a questão do descrédito passa a ser um problema que, atualmente, afeta não apenas o mercado financeiro americano, mas também as principais instituições ´democráticas´ existentes no mundo.

  3. Comentou em 19/03/2008 Fernando Lemos

    Luciano, excelente seu texto. A clareza e objetividade, que deveriam estar nas salas das faculdades e redações dos jornais, aqui é exuberante. Quando você escreve que ___Construída sobre o consenso de que o mercado é racional e auto-suficiente, a imprensa se nega a rever esse dogma, mesmo diante dos sinais inequívocos de irracionalidade.___, paro para pensar quais pensamentos e crenças fazem com que pessoas discordem dessa sua premissa. E paro também, para lamentar a prioridade que os interesses por trás dessa ignorância voluntária, causam a sociedade.

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