Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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>>A imprensa na montanha-russa
>>O dia em que os jornais saíram iguais

Por Luciano Martins Costa em 13/10/2008 | comentários

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A imprensa na montanha-russa


As revistas semanais de informação chegam ao primeiro mês da cobertura da crise financeira em ritmo de montanha-russa.


Das primeiras edições, que deitavam regras sobre como vencer as turbulências, o leitor foi conduzido a momentos de pânico e novas soluções milagrosas, até o ponto em que as capas trazem simplesmente pontos de interrogação.


A constatação a que se pode chegar, neste momento da história, é que ninguém sabe sequer o tamanho do problema, e toda solução anunciada depende basicamente do grau de otimismo ou pessimismo de quem edita a notícia.



É nesse processo ciclotímico que se apresenta o noticiário desta segunda-feira sobre as medidas propostas pelos bancos centrais europeus.


O Estado de S.Paulo e o Globo enxergam nas medidas um plano promissor para socorrer os bancos e evitar o colapso do sistema financeiro.


A Folha de S.Paulo vê no pacote de refinanciamento e compra de ações um processo de estatização dos bancos.


Se os jornais não se entendem na denominação do que representa a intervenção estatal na economia privada, pouco podem fazer pelo leitor na tarefa de compreeender a extensão da crise e fazer escolhas para defender seu patrimônio. 


Entre as notícias reproduzidas das agências internacionais e enviadas por seus correspondentes, a melhor história que a imprensa oferece hoje foi colhida pela Folha nas ruas de São Paulo.


Trata-se do catador de latinhas Enildo Paulino, que acompanha as oscilações do dólar pelo telefone celular.


Com base nas informações que recebe, ele negocia com os intermediários o preço do material que recolhe no lixo da cidade.


Para melhorar o rendimento do seu trabalho, o reciclador criou uma base de dados de compradores e telefona diariamente a eles para descobrir as melhores ofertas.


Ele também lê os jornais que recolhe pelas ruas e acompanha o desempenho do alumínio na oscilação dos preços de commodities.


Enildo Paulino é um dos raros elementos reais no noticiário sobre a crise financeira.


E também um exemplo de que o noticiário econômico não interessa apenas a quem investe na bolsa de valores.



O dia em que os jornais saíram iguais


A capa que cobriu os principais jornais do País no domingo deu a eles uma só notícia: os duzentos anos do Banco do Brasil.


Mas eles se esqueceram de outro episódio histórico: os duzendos anos de fundação da imprensa no Brasil.



Alberto Dines:


– É inédito: os três jornalões chegaram ontem às mãos dos seus leitores com capas iguais. Iguais e falsas. Não exibiam fatos ou noticias, mas uma gigantesca promoção. Na realidade, o Estado de S. Paulo, a Folha de S. Paulo e O Globo mostravam sem qualquer pudor  uma publicidade ostensiva, matéria paga, no espaço mais nobre da edição. O fato relevante foi a comemoração dos 200 anos da fundação do Banco do Brasil. Numa avaliação ainda mais relevante constata-se que na imprensa de hoje tudo está a venda. Inclusive o seu compromisso de diferenciar os concorrentes.


Nada demais, considerando que a imprensa virou indústria e o Banco do Brasil sempre foi uma instituição financeira que aposta no marketing e na expansão dos seus negócios. Acontece que a imprensa brasileira também comemorou os seus 200 anos  no período maio-setembro deste ano, mas estes mesmos jornalões que badalam a festa do Banco do Brasil recusaram-se a comemorar condignamente a efeméride. Enrustiram a sua festa.


Os dois aniversários têm a mesma origem, integram  o mesmo episódio histórico (a chegada da corte lisboeta ao Rio de Janeiro). Mas o leitor só teve acesso à metade dele, a outra metade (que diz respeito à própria imprensa) foi embargada por que não havia entidade disposta a desembolsar alguns trocados e transformá-la em letra de forma.


Este jogo tem vários nomes, você escolhe o mais adequado: pode ser desrespeito ao público, descaso pela história, pode ser manipulação ou pode ser venalidade. Também pode ser a confirmação de que nosso jornalismo impresso optou pelo suicídio.

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