Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

Programa nº 1144

>>A imprensa verde
>>Simplificando

Por Luciano Martins Costa em 15/10/2009 | comentários

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A imprensa verde


Os debates sobre a questão ambiental há muito ocupam lugar de destaque na agenda econômica internacional.


O tema conquistou espaço entre os indicadores de desempenho dos investimentos, com referências rotineiras nos principais órgãos informativos do mundo, tanto no papel como na televisão e na internet, através do acompanhamento do valor das ações dos chamados fundos sustentáveis.


O mais importante desses indicadores, o Índice Dow Jones de Sustentabilidade, completou dez anos em setembro, consolidando-se como principal parâmetro para a análise dos investimentos em negócios chamados socialmente responsáveis.


O histórico desses indicadores e dos fundos de investimentos formados por ações de empresas que lideram esse movimento no mundo financeiro revela um desempenho regularmente superior ao das demais companhias de capital aberto e menor vulnerabilidade desses papéis às oscilações do mercado.


No entanto, a imprensa brasileira ainda trata essa vanguarda como uma faixa marginal do ambiente de negócios.


São raros os movimentos no sentido de relacionar estratégias sustentáveis de negócio ao tema geral da defesa do meio ambiente e da responsabilidade social, como se os editores estivessem convencidos definitivamente de que o capitalismo tem que ser necessariamente um ambiente selvagem no qual o respeito à natureza e o humanismo representam sinais de vulnerabilidade.


Nesse cenário, chama atenção a iniciativa da revista Carta Capital, que inaugurou, na edição desta semana, um encarte trimestral sobre o tema, composto em parceria com a agência de notícias Envolverde.


A aliança com uma das mais respeitadas mídias socioambientais dá à Carta Capital a oportunidade de abordar com profundidade essas questões.


A edição inaugural do suplemento se concentra nos debates que antecedem a 15a. Conferência das Nações Unidas sobre Clima, oferecendo uma visão ampla do desafio que os líderes mundiais terão de encarar em Copenhague daqui a dois meses.


A “Carta Verde”, como é denominado o suplemento, peca apenas no nome.


A expressão tem sido contaminada por muitas ações publicitárias de empresas que mais se dedicam a limpar sua imagem do que a cuidar realmente do meio ambiente. 


Simplificando


A busca da síntese é da natureza do jornalismo.


Assim, jornais e revistas estão sempre buscando a expressão mais sucinta para conjuntos densos de informações.


Essa tendência certamente está na raiz das reduções que muitas vezes dificultam o entendimento de temas complexos, como a questão da sustentabilidade, os conflitos rurais, os desafios da educação e da segurança pública, a qualidade de vida nas grandes cidades e até mesmo a estratégia para exploração das últimas reservas de petróleo do planeta.


No caso do amplo temário que se abriga sob a denominação “sustentabilidade”, as simplificações mais atrapalham que ajudam.


Como exemplo, pode-se observar como a imprensa rotineiramente trata a questão amazônica quase sempre sob o olhar esfumaçado dos índices de queimadas e do desmatamento.


Não se registra qualquer interesse em vincular a preservação da floresta ao tema das políticas agrárias ou das práticas dos negócios rurais.


Mais distante ainda é a possibilidade de o leitor se deparar com reportagens que vinculem a preservação do patrimônio ambiental com a questão da gestão territorial.


A imprensa, de modo geral, discute separadamente meio ambiente, agronegócio, agricultura familiar, movimentos de lavradores sem terra e violência no campo.


A parceria entre a Carta Capital e a Agência Envolverde pode enriquecer esse cenário.


Quando se referem à floresta Amazônica, no contexto da preservação, jornais e revistas quase sempre ficam presos aos números do desmatamento.


A Amazônia não deve ser analisada apenas do ponto de vista do balanço negativo produzido pelo desmatamento, da emissão de carbono quando é queimada, mas principalmente pelo ângulo positivo de sua função na regulação do clima, do potencial de negócios com o mercado de compensação de carbono – ainda que controverso – e da percepção do real valor da floresta em pé.


Da mesma forma, uma empresa que contribui para mudar os paradigmas econômicos através de uma estratégia de responsabilidade social e ambiental é muito mais do que uma empresa “verde”.

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