Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

Programa nº 1541

>>A miséria sumiu
>>Notícias Populares

Por Luciano Martins Costa em 05/05/2011 | comentários

Ouça aqui

Download

A miséria sumiu

Assim como entrou na pauta dos jornais, quarta-feira, dia 4, a miséria desapareceu do noticiário, no dia seguinte, resumindo-se a editoriais nos quais basicamente se manifestam votos de sucesso na empreitada de eliminar a pobreza extrema do País, assumida pela presidente da República.

Apenas a Folha de S.Paulo aborda o tema em reportagem, ainda assim para dizer que o indicador adotado pelo governo para definir a pobreza extrema reduz o valor previsto em investimentos sociais durante a campanha eleitoral.

Essa foi também a abordagem no editorial do jornal paulista.

Fora isso, nem uma linha a mais na chamada imprensa de circulação nacional.

A pobreza sempre foi, na imprensa, uma espécie de Aids ou lepra, assunto que precisa ser tratado à distância, ou com luvas higiênicas.

No fundo, pode parecer que a imprensa considera os pobres como uma categoria marginal da sociedade, com a qual e sobre a qual não vale a pena gastar papel e bits.

Nesse caso, trata-se da imposição de uma visão meramente mercadológica: se eles não lêem jornais, pouco importa o que fazem ou deixam de fazer.

No máximo, as empresas de mídia investem nas classes sociais intermediárias ou emergentes, para as quais podem vender seus títulos chamados de “populares”.

Trata-se de um erro estratégico em termos de futuro dos negócios de imprensa, mas, ainda mais grave, trata-se da preservação de uma visão de mundo elitista segundo a qual a imprensa deve se dirigir preferencialmente aos mais educados e mais bem situados na escala social.

Mas se o elitismo costuma ser analisado sob o crivo ideológico, as mudanças no perfil da sociedade brasileira observadas nos últimos anos – e noticiadas na quarta-feira pelos jornais – indicam que também do ponto de vista de mercado não é apropriado relegar a pobreza às páginas policiais ou a eventuais estudos sociológicos.

Se os projetos para eliminação da miséria forem tão bem sucedidos como os programas sociais do governo anterior, os pobres de hoje poderão vir ser a classe média de amanhã, e isso deve provocar grandes mudanças na sociedade, que incluem escolhas sobre o que comprar, o que ler, o que consumir.

Inclusive jornais e revistas.

Notícias Populares

Um exemplo de como a imprensa trata de maneiras diferentes os cidadãos conforme o estrato social a que pertencem está justamente na Folha de S. Paulo de quarta-feira, dia em que o tema da pobreza foi abordado por todos os grandes jornais.

A reportagem em questão se referia à “segunda porta” do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, destinada ao atendimento de pacientes pagantes, que possuem seguro-saúde privado.

O teor do texto indicava a possibilidade de diferenças no tratamento dos mais pobres e dos que possuem um convênio particular.

A impressão que passa para quem conhece o Hospital das Clínicas é de que a repórter destacada para o assunto não saiu da redação.

Se tivesse se deslocado até o hospital, teria descoberto, por exemplo, que a fila anda rápido, muito mais rápido, na segunda porta, aquela dos pagantes.

Além disso, quem passa por ali tem acesso a uma sala de espera, no Instituto Central, mais moderna e bem arrumada, o que poderia reforçar a tese da reportagem, ou inspirar explicações plausíveis por parte dos administradores da instituição.

Também faltou dizer que o Ministério Público Estadual questionou longamente, durante a década de 1990, a existência de dois tipos diferentes de atendimento no complexo hospitalar.

Esse questionamento levou a uma ação popular, que acabou sendo julgada improcedente e que ainda assim os procuradores continuam investigando os critérios de entradas diferenciadas no hospital público.

Sem qualquer juizo prévio sobre o tema, mesmo porque a ação não prosperou na Justiça, cabe questionar quanto a reportagem se interessou de fato pelo assunto que, aparentemente, retrata um exemplo de discriminação dos mais pobres.

Não custa lembrar que a jornalista que parece ter escrito a reportagem sem ter ido ao local foi, há alguns anos, editora do falecido jornal Notícias Populares, de execrável memória.

Aquele foi provavelmente um dos piores momentos da imprensa nacional.

Todos os comentários

Programas Anteriores

1 2 3 4 5 última

1 de 2625 programas exibidos

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem