Terça-feira, 27 de Junho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº946

Programa nº 2624

MÍDIA E POLÍTICA > PAUSA NA CRISE

A ‘pax midiática’ e a política sequestrada

Por Luciano Martins Costa em 09/06/2015 | comentários
Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 9/6/2015

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Os jornais de terça-feira (9/6) registram um alívio da crise política que afetou a governabilidade do país nos primeiros meses do ano. O fato mais relevante para entender essa espécie de terceiro turno da disputa eleitoral de 2014 é o acordo na base governista, pelo qual o Partido dos Trabalhadores concordou em evitar críticas ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e ao projeto de ajuste das contas públicas que ele conduz. As discordâncias não foram superadas, mas as tendências que compõem o partido concordaram em poupar o ministro, pelo menos oficialmente.

Essa notícia é o tema da manchete do Estado de S.Paulo, que afirma literalmente: “PT pretende aliviar crítica a Levy e mirar ‘pós-ajuste’” – mas também está presente na Folha de S. Paulo e no Globo.

Como o jornalismo declaratório produz uma narrativa indireta dos eventos, os leitores da Folha e do Globo precisam juntar outros indícios para chegar ao mesmo entendimento que é facilitado aos leitores do Estado. Resumidamente, trata-se de apaziguar os grupos que formam o complexo saco-de-gatos ideológico do PT com a constatação de que as principais medidas econômicas já estão sendo implantadas, e que os ataques ao ministro apenas contribuem para desgastar o governo.

Pode-se especular em muitas direções por quais razões a mídia tradicional, que se move de maneira organizada e homogênea, abre uma pausa em sua constante pressão sobre o Executivo, como uma versão moderna da pax romana. Uma delas pode se encontrada na reportagem publicada pelo Estado de S. Paulo no domingo (7/6), informando sobre uma “freada de arrumação” feita pelo principal partido da oposição, o PSDB. Segundo esse conjunto de textos (ver aqui), o partido precisa reencontrar sua identidade para aumentar suas chances de reconquistar o poder central.

A estratégia comandada até aqui pelo senador Aécio Neves, de alimentar a crise de governabilidade para fundamentar um pedido de impeachment da presidente da República, foi enterrada oficialmente e os tucanos contabilizam o resultado negativo dessa tentativa mal dissimulada de golpe.

A patética chegada da “coluna Aécio” a Brasília, onde foi saudada pelo que há de mais indigesto na fauna política da Capital, foi a gota d’agua que levou os líderes históricos do PSDB a colocar um ponto final na aventura golpista do senador mineiro.

Partidos sequestrados

O núcleo paulista do PSDB, que concentra os intelectuais responsáveis pela preservação do ideário socialdemocrata que está na origem do partido, ficou especialmente irritado com o fato de quase metade de sua bancada ter apoiado o chamado “distritão” no pacote de reforma eleitoral, a despeito da orientação contrária da liderança. Dirigentes da agremiação consideraram que essa indisciplina, que fragiliza a oposição, foi uma das consequências do radicalismo alimentado pelo grupo de Aécio Neves.

Também houve muita discordância do núcleo paulista com a forma como o ex-candidato a presidente tentou manipular os grupos de aloprados que saíram das redes sociais para o ativismo nas ruas – e nas rodovias que levam a Brasília.

Se o senador mineiro fosse mais amigo da leitura, teria levado em conta o estudo publicado recentemente pelo cientista político Sérgio Fausto, diretor executivo do Instituto Fernando Henrique Cardoso, em parceria com o sociólogo Bernardo Sorj (ver aqui o texto integral), sobre a imprevisibilidade dos movimentos sociais quando saem do mundo digital para o espaço urbano.

O alívio registrado nas edições dos jornais de terça-feira se deve mais a esse rearranjo do PSDB do que ao acordo interno entre as correntes que formam o PT.

O núcleo de pensadores tucanos mais qualificados considera que os danos causados ao partido governista pelo noticiário sobre escândalos já foram suficientes para reduzir suas chances na eleição de 2018, mesmo que o candidato petista seja o ex-presidente Lula da Silva. Além disso, o partido oposicionista sempre pode contar com o suporte da imprensa hegemônica, durante a campanha e a qualquer momento, quando lhe for conveniente aquecer o confronto com o atual governo.

O PT vem perdendo apoio entre intelectuais independentes, por conta dos escândalos sucessivos e das alianças oportunistas, e muitas de suas decisões são tomadas na base do voluntarismo dos militantes de tempo integral – que viveram a última década em bons empregos na máquina do governo.

Vale para os petistas o diagnóstico do pesquisador americano Peter Hakim sobre o PSDB, publicado domingo (7) pelo Estado de S. Paulo: ao pautarem suas ações pelos movimentos do oponente, tucanos e petistas se condicionam como imagens num espelho.

E os dois partidos continuam reféns da mídia.

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