Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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>>A pizzaria federal
>>Aqueles que se lixam

Por Luciano Martins Costa em 16/07/2009 | comentários

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A pizzaria federal


A manchete do Globo desta quinta-feira: “Lula chama senadores de pizzaiolos e abre nova crise”.


A frase provocativa e debochada do presidente da República também é destaque nos outros jornais de circulação nacional.


Mas há controvérsias se o deboche, em si, é factóide suficiente para abrir nova crise ou mesmo para agravar a crise que tem como epicentro o gabinete do presidente do Senado Federal.


Para o cidadão comum, leitor de jornais, o próprio noticiário dos últimos meses justifica a frase inapropriada.


Então, vejamos: desde janeiro deste ano, o Congresso Nacional vem sendo citado pela imprensa como fonte de escândalos.


Já passaram pelas páginas dos jornais e pelos noticiosos eletrônicos o caso do dono do castelo que foi indicado corregedor da Câmara dos Deputados, as trocas de favores na contratação de parentes, as fraudes no uso de verbas indenizatórias e a farra das passagens aéreas.


Nenhum dos grandes partidos ficou ileso. Tanto parlamentares da base governista como representantes da oposição apareceram como protagonistas desse festival de escândalos.


E nada aconteceu. Ninguém foi sequer denunciado.


Depois disso, veio a revelação de que, desde 1995, o Senado vinha sendo administrado clandestinamente, por meio de decisões secretas que não eram publicadas no Diário Oficial.


No noticiário fragmentado que se seguiu, ficou claro que o senhor por trás dessa prática pouco transparente era o próprio presidente do Senado, José Sarney.


Foram nada menos do que 663 medidas administrativas, quase todas tratando de criar privilégios para funcionários ou nomeando parentes e protegidos para cargos sem função, mas bem remunerados.


Apenas o esforço isolado do jornal O Estado de S.Paulo permitiu explicitar a extensão das falcatruas e sua origem: o gabinete do presidente do Senado.


E o que aconteceu até o presente momento? – A pizza foi levada ao forno. 


Aqueles que se lixam


A frase infeliz e desrespeitosa do presidente da República, ao afirmar que os senadores da oposição são “bons pizzaiolos”, não se justifica dentro dos parâmetros de respeito que devem um ao outro os poderes da República.


Mas retrata uma realidade que a imprensa vem relatando e justificando há muito tempo: o poder Legislativo se transformou num clube dos cafajestes, no qual o interesse público foi substituído pela acomodação dos interesses privados dos parlamentares.


E a tocha olímpica do descalabro passa nesta semana para as mãos do deputado gaúcho Sérgio Moraes, aquele que declarou há dois meses que se “lixava” para a opinião pública.


Ao comemorar o arquivamento, no Conselho de Ética, do processo contra o deputado Edmar Moreira, o senhor do castelo, Sérgio Moraes declarou aos jornalistas que lucrou com a polêmica sobre suas declarações.


Disse que ganhou muitos pontos ao manifestar seu desprezo pela opinião pública. “Nunca recebi tantos convites na vida, ganhei espaço”, comemorou o parlamentar.


Mesmo com a gravidade das acusações que pesam contra ele, José Sarney segue senador e presidente do Congresso. Edmar Moreira segue deputado e dono de castelo, apesar das evidências de ter fraudado prestações de conta de verbas indenizatórias, e o deputado Sérgio Moraes se canditata a prosseguir em sua carreira política tendo como plataforma eleitoral o cinismo puro e simples, a mais deslavada cara de pau.


A imprensa apenas registra.


E nada acontece, o que de certa forma dá razão ao deputado que “se lixa” e levanta uma questão relevante: por que uma parte da opinião pública não se sensibiliza com o noticiário da imprensa?


Talvez porque, no fim das contas, a imprensa também contribui para a avacalhação geral.


Nos últimos meses, a imprensa antecipou e extrapolou os efeitos da crise econômica, relegou a segundo plano os ataques dos ruralistas ao patrimônio ambiental, exagerou no noticiário sobre a chamada gripe suína e principalmente tomou partido em questões políticas, ao fazer uma seleção arbitrária dos escândalos que valem um esforço de reportagem.


E agora, ouve em silêncio o deputado cara de pau comemorar a popularidade que ganhou ao “se lixar” para a opinião pública.

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