Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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Programa nº 1178

>>A profissão do polemista
>>Inveja da opressão

Por Luciano Martins Costa em 03/12/2009 | comentários

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A profissão do polemista

Na atividade de observação da imprensa, não é conveniente analisar as manifestações de articulistas e colunistas, especialmente quando o observador é um deles.


Corre-se sempre o risco de ingressar em polêmicas que mais favorecem as batalhas de egos do que a suposta intenção de esclarecer os fatos.

No entanto, existem circunstâncias em que o observador não pode escapar de opinar sobre as opiniões alheias.

É o caso do último artigo do jornalista português João Pereira Coutinho, publicado na Folha de S.Paulo terça-feira, dia 1o. de dezembro.

Intitulado “Santos e Pecadores”, o texto dá curso a uma persistente teoria conspiratória segundo a qual 4 mil entre os mais destacados cientistas do mundo, envolvidos nas pesquisas sobre mudanças climáticas, teriam forjado a tese do aquecimento global.
 
Como é característico de todo polemista da imprensa, que precisa fazer muito barulho para preservar seu espaço de exibição, Coutinho manipula silogismos e tenta induzir o leitor a dar crédito à teoria conspiratória a partir de interpretações controversas de comunicações entre pesquisadores do clima, que foram vazadas seletivamente por um hacker.


Vale-se de platitudes. Numa delas, aconselha a não transformar o aquecimento global em nova religião da humanidade. Em outra, afirma que cientistas não são santos, para tentar demonstrar que são criminosos – no caso, os quatro mil cientistas que elaboraram o relatório sobre mudanças climáticas em fevereiro de 2007.


Então, “recomenda” deixar para a ciência a discussão que é sobretudo científica e em seguida afirma que “a ciência dá sinais de manipulação e fraude”.


Por fim, depois de muita marolagem verbal, o articulista se alinha às forças mais reacionárias – que financiam formadores de opinião em todo o mundo para tentar impedir a imposição de maiores controles ambientais à atividade econômica – e afirma que, se a conferência da ONU em Copenhague, marcada para a semana que vem, determinar uma redução de 50% nas emissões de gases do efeito estufa até 2050, haverá “conseqüências econômicas desastrosas”.


E acrescenta que tais conseqüências serão ainda mais desastrosas para os países em vias de desenvolvimento.


Nada mais falso: na verdade, a imposição de regras mais severas para o uso do patrimônio ambiental não apenas tem potencial para estimular a economia, como já está gerando riqueza por todo o mundo, pelas oportunidades de investimento que cria em tecnologias inovadoras e no desenvolvimento de técnicas agrícolas mais eficientes. 


Inveja da opressão


João Pereira Coutinho nasceu em 1976, na cidade do Porto.


Sua juventude não seja causa de condescendência ou de condenação a priori. Apenas seja oportunidade para uma reflexão sobre a juvenilização da imprensa.


Coutinho nasceu um ano depois da Revolução dos Cravos, que tirou Portugal da Idade Média – imposta por quatro décadas de ditadura salazarista – e permitiu a inserção do país na Europa contemporânea.


Repete, de certo modo, o comportamento de muitos colegas brasileiros, que, tendo ingressado na vida adulta depois da redemocratização, protagonizam simbolicamente o parricídio de Freud e atuam no sentido de desmoralizar as conquistas das gerações anteriores de jornalistas, seus pais simbólicos.


É como se tivessem inveja de não terem sido contemporâneos da opressão, de não terem uma história de resistência para contar aos filhos.


A ojeriza que têm alguns representantes das novas gerações de jornalistas à palavra “utopia” remete claramente ao desejo de morte.


Não é da competência do observador avançar neste terreno, nem este é o espaço adequado, mas chama atenção o fato de que a obsessão por desqualificar qualquer manifestação ideológica em favor de um mundo melhor pode levar um suposto formador de opinião, privilegiado detentor de espaço cativo em um grande jornal, a defender a tese de que, diante do aquecimeto global, o melhor é cruzar os braços e confiar na indústria do petróleo, na indústria de defensivos agrícolas, nos fabricantes de motosserras e na luminosa bancada ruralista do Congresso Nacional.

Polemistas profissionais vivem disso: do bate-boca – não importando que pensamentos e ações irão produzir suas aleivosias.

Mas deve haver limites para a irresponsabilidade.


“Basta ouvir os catastrofistas para imaginar glaciares que derretem, águas que sobem”, diz o artigo publicado na Folha.


Seria uma anedota, se o autor e o jornal não se levassem tão a sério.

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/12/2009 Ney José Pereira

    E no ilustrado artiguelho do intelequítual Joao Pureira Cultinho o lusitano utiliza-se do termo ‘climatérica’ que é um ‘galicismo’. O lusitaninho deveria -para o bem de Portugal- utilizar-se do termo ‘climática’!. Afinal, ele optou por escrever no Brasil e não em França!. E, climaticamente, o colunático folháctico é ‘unicético’. Mas, deveria sê-lo ‘ambicético’!. E, afinal, o portuguesinho -muito direitinho- está a preocupar-se com ‘largas parcelas da humanidade a novos ciclos de pobreza e fome e doença’!. Fiquemos, então, com os velhos ciclos de pobreza e fome e doença!. Mas, globalmente aquecidos. E poluídos!. Alô, José Manuel Durão Barroso!. Que negócio é esse de exportar ‘colunistas lusitanos ao Brasil?!.

  2. Comentou em 05/12/2009 Ney José Pereira

    Parece-me que o tal intelequítual lusitano Joao Pureira Cultinho não está preocupado nem sequer com a poluição atmosférica ou não!. Quanto à religião ele debocha do tal ‘marxismo’, mas, não debocha não do tal sebastianismo nem do tal salazarismo. A primeira ainda é uma religião lusitana. Quanto à segunda o direitão Joao Pureira Cultinho gostaria que ainda fosse!.PS. E na opinião do tal Cultinho não há não aquecimento global não!. Nem português!. Rarará!.

  3. Comentou em 04/12/2009 Herman Fulfaro

    Penso que o autor do texto está rigorosamente certo. Não fora pelas oportunas razões expostas, então pelo simples fato de que é infinitamente mais fácil um jornalista defender interesses escusos ou excentricidades, do que 4.000 cientistas se juntarem para forjar uma tese. Afinal, que interesses estariam defendendo?! Quem estaria financiando e com que intenções a tese do aquecimento global?! O Coringa, o Dr. Silvana ou o satânico Dr. No ??? A ocorrência, ou melhor, recorrência de fenômenos naturais cada vez mais violentos e imprevistos no mundo inteiro não são o suficiente para demonstrar que – independentemente da famigerada tese do aquecimento – algo precisa ser feito em termos de sobrevivência e conservação das espécies?!?

  4. Comentou em 03/12/2009 Ney José Pereira

    E o gajinho lusitano (pleonasmo) Joao Pureira Cultinho nasceu em 1976!. E em 1975 havia um livro ‘didático’ indicado para a disciplina ‘Ciências’ para a 8.ª série do 1.º Grau (‘última série do antigo curso ‘ginasial’). Nesse livro já se tratava do ‘aquecimento global’!. Seus autores eram, salvo lapso, paranaenses. Um deles era militar [acho que do Exército Brasileiro]. E naquela época nem havia ainda os tais hackers!.

  5. Comentou em 03/12/2009 Janaina Bernardes

    É lamentável acompanhar posicionamentos distorcidos e escamoetados sobre temas importantíssimos, vindos daqueles que mais deveriam se ocupar de esclarecer e bem informar a sociedade. Eu, apesar de ser de 1979, ainda consigo preservar valores morais, que muito tem a ver com a escolha da minha profissão e eles transmitir, através dos meus artigos, para a população. Quem me dera falar para milhares de vozes, como o Coutinho o pode e não o faz… Contudo, não me renderei e não me calarei… Parabéns pela crítica!

  6. Comentou em 03/12/2009 Marcelo Silvestre

    Acho que o articulista da folha se esquece de um detalhe: Com ou sem
    aquecimento global, estamos alterando o planeta. Ecosistemas se
    perdem, e quanto perdemos com isso? Ninguem conhece os reais
    impactos. Nao seria mais prudente agir de uma forma mais racional em
    realcao aos nossos recursos naturais esgotaveis?

  7. Comentou em 03/12/2009 Anderson Oliveira

    Oras…

    Também não se deve estigmatizar o articulista por apenas um de seus textos. É como jogar no lixo todo o trigo apenas por ter encontrado nele um pouco de joio.

  8. Comentou em 03/12/2009 Antônio Luiz Calmon Teixeira Filho

    A palavra utopia, que significa ”lugar-nenhum”, só encanta o tolo. O tal encantamento leva, sempre, aos regimes de força e terror como os de Cuba, Venezuela, Irã, Coréia do Norte e outros assemelhados. É o mito da construção do “novo homem” que levou a cadáveres incontáveis.
    E se existe alguém que inveje a época da opressão é o tolo. Todos preferem a democracia a regimes de força e terror que não dão inveja. Dão repugnância.
    Quanto ao dito polemista, João Pereira Coutinho, sua formação intelectual é realmente invejável. Mas o articulista não deve se sentir inferiorizado; é só estudar.

  9. Comentou em 03/12/2009 Eduardo Alex

    O articulista toca em ponto importante sobre certa visão que, ao negar a utopia , opta por deixar nas mãos dos mercadistas, por exemplo, a solução para os problemas.
    Ainda que haja discursos equivocados qto à forma de se resolver questões de interesse da humanidade, não é abandonando o debate que se alcançará a resposta.

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