Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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>>A voz da impunidade
>>A mídia contempla a crise

Por Luciano Martins Costa em 28/01/2008 | comentários

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A voz da impunidade

Está na Folha de S.Paulo de hoje a frase que sintetiza a mistura perversa entre política e negócios no Brasil.

A tal frase foi dita, segundo o jornal, pelo suplente de Senador Édison Lobão Filho, do Partido Democratas, a respeito de uma dívida com o Banco do Nordeste, no valor de 5 milhões e meio de reais: ‘Estou pouco me lixando’.

Lobão Filho estava simplesmente vocalizando a idéia de impunidade que pode ser lida, todos os dias, em todos os jornais.

Apenas nas edições de hoje pode-se ler uma dezena de exemplos de criminosos, cúmplices e suspeitos que simplesmente ‘estão se lixando’ para as acusações que pesam contra eles.

Estava ‘se lixando’, por exemplo, o ex-ditador da Indonésia Suharto, que morreu sem ser julgado por centenas de milhares de assassinatos e por corrupção. Da mesma forma ‘se lixam’ autoridades da Suíça, país onde Suharto e seus filhos supostamente esconderam 45 bilhões de dólares roubados de seu país.

Também vem ‘se lixando’ para a Justiça o médico nazista Aribert Heim, conhecido como ‘Doutor Morte’, procurado desde 1962 por atrocidades cometidas em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

Da mesma forma estão ‘se lixando’ os pecuaristas e plantadores de soja, apontados como responsáveis pelo crescimento do desmatamento da Amazônia, assim como o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, que manda recados através da imprensa à cúpula do partido, ameaçando espalhar a culpa pelos empréstimos bancários suspeitos que resultaram no escândalo chamado ‘mensalão’.

Finalmente, também devem estar ‘se lixando’ os suspeitos de haver assassinado o ex-presidente João Goulart.

Os jornais vêm publicando em conta-gotas informações creditadas a um ex-funcionário do serviço de inteligência do governo uruguaio, que diz ter participado de uma operação para envenenar o ex-presidente do Brasil.

Mas não há sinais de avanço nas investigações.

Nos jornais, o que se lê é apenas isso: declarações.

De certa forma, ao tratar cada um desses casos como episódios isolados, os jornais talvez estejam contribuindo para que culpados e suspeitos continuem pouco preocupados com a possibilidade de uma punição.

Eles também devem estar ‘se lixando’ para o que diz a imprensa.

A mídia contempla a crise

As notícias sobre o Fórum Econômico Mundial que se realiza em Davos, na Suíça, revelam que as agências de avaliação de risco foram questionadas e responsabilizadas pela gravidade da crise provocada pela quebradeira no mercado de crédito imobiliário nos Estados Unidos.

Os jornais noticiam hoje que executivos dessas agências sofreram verdadeiros interrogatórios por parte de autoridades e dirigentes de órgãos multilaterais.

E o leitor é induzido a esquecer que foi a própria imprensa que elevou essas agências ao panteão dos oráculos do mercado.

Alberto Dines:

– A mídia impressa do fim de semana não deu muita bola aos desdobramentos da crise econômica. Quando tratavam da possibilidade de uma recessão nos Estados Unidos e de um possível efeito-dominó no resto do mundo nossos mediadores, em geral, optaram por uma atitude otimista – o Brasil está protegido e, desta vez, tudo será diferente. Nas colunas dos especialistas, evidentemente, as perspectivas são mais cinzentas, mas o leitor médio passa ao largo dos especialistas, abomina textos que produzam algum tipo de desassossego. A mega-fraude armada pelo operador Jerôme Kerviel no mercado financeiro francês só empolgou porque o ‘gênio’ se apresentou no sábado à tarde à polícia francesa. De uma forma geral,  nossa mídia continua agindo como animadora de auditórios convencida de que o ceticismo jornalístico não é bom para os negócios. Sobretudo para os negócios da própria mídia. Como a crise é sistêmica e abarca todos os atores do processo econômico – dos gerentes de contas bancárias às agencias avaliadoras de risco – a mídia prefere proteger-se atrás de uma atitude mais contemplativa. Como disse Allan Greenspan, ex-presidente do BC americano, uma recessão não acontece devagarinho, quando começamos a discuti-la já estamos nela. E o papel da mídia é discutir, discutir exaustivamente tudo o que acontece e o que pode acontecer.  Pelas dimensões, pela velocidade do processo e, sobretudo, por causa da globalização, esta crise exige muito mais atenção. Ou como escreveu ontem o economista José Scheinkman na Folha de S.Paulo: é preciso ser cético em relação aos otimistas.

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