Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

Programa nº 639

>>Amor de perdição
>>Deslumbrados com a Vale

Por Luciano Martins Costa em 26/10/2007 | comentários

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Acordo à vista

O Executivo e a oposição encontraram um ponto comum na negociação para aprovar a prorrogação da CPMF.

Os jornais de hoje trazem, na prática, mais uma interessante lição de como são feitas as políticas públicas no Brasil.

Aparentemente, o Plano Plurianual, produzido a cada quatro anos como programa estratégico de gestão das receitas e despesas do governo federal, foi elaborado neste ano com base em uma ilusão: a de que o Executivo teria espaço de sobra para aprovar tudo que quisesse, inclusive a prorrogação da CPMF.

Os fatos demonstram que o governo se enganou ao ignorar uma realidade histórica: o insaciável apetite da maioria dos parlamentares por cargos importantes na máquina pública e sua necessidade de alimentar constantemente as bases eleitorais com obras ou promessas de obras.

Amor de perdição

É assim que funciona a coisa, e com certeza os estrategistas do Planalto colocaram nas contas o valor de cada voto.

Só não contavam com a inconstância dos deuses.

No caso, Eros, o deus do amor e do desejo, que colocou a jornalista Mônica Veloso no caminho do presidente do Senado.

Renan Calheiros foi apanhado em pecado, tentou se defender apontando outros pecadores, envolveu grande parte do Congresso numa trama de intrigas e chantagens e desfez o equilíbrio das forças.

Como no romance de Camilo Castelo Branco, o caso de Renan e Mônica foi um amor de perdição.

Renan está afastado da presidência do Senado, e os jornais de hoje afirmam que ele não volta mais ao cargo, o que equivale ao degredo do herói do romance.

Mas Mônica, ao contrário da heroína da literatura, não foi para o convento: acabou nas páginas de Playboy.

Ovos mexidos

A última semana de outubro se completa com o governo e a oposição fazendo o que sempre foi feito: uma ampla acomodação de interesses.

O governo terá a CPMF até 2011, a oposição arranca um fator redutor de gastos do Estado e ganha uma bandeira para futuras campanhas eleitorais, além de preservar o interesse de governadores e prefeitos na manutenção do tributo.

E o ministro da Fazenda, Guido Mantega, dá mais uma demonstração de que lhe falta o talento para metáforas que faz a fama do seu chefe, o presidente da República.

Referindo-se à tese de que, segundo ele, não se pode ao mesmo tempo reduzir os gastos públicos e dar mais recursos para a saúde, Mantega saiu-se com esta: ‘Não dá para comer os ovos e a omelete ao mesmo tempo’.

As chuvas de sempre

Foram dois dias de chuvas fortes, que causaram transtornos em São Paulo e no Rio.

Mais uma vez, a população arcou com as perdas pela falta de planejamento urbano e a incapacidade das autoridades de prever aquilo que acontece todos os anos: alagamentos e desabamentos.

A imprensa cobriu os problemas do trânsito, as mortes nas enchentes, mas ignorou completamente o que aconteceu nos aeroportos.

Depois de passar meses criticando o ‘caos aéreo’, parece que a memória dos jornais se apagou.

Dines:

– O apagão aéreo de quarta-feira foi  apagado pela imprensa. Exatamente isto: terça-feira repetiu-se o caos nos aeroportos  do Rio e S. Paulo por causa da chuva torrencial que fechou o Santos Dumont o dia inteiro e Congonhas parcialmente. E o que aconteceu? Nem uma linha nos três jornalões nas edições de ontem, quinta-feira. A ponte-aérea é a rota com o maior número de vôos do país, a mais rentável, verdadeiro show-room das três empresas aéreas. Se as equivalentes americanas, a linha Nova  York-Chicago ou  Washington-Nova York, entrassem em colapso durante um dia inteiro, os grandes jornais americanos ignorariam o fato? Pois aqui ignoraram, ignoraram completamente: o Estadão fez um registro sem dar dimensão ao fato, mínimo;  O Globo ao noticiar a visita do ministro da Defesa ao Galeão, disse que o aeroporto está péssimo e vai melhorar em 2008, nada sobre o que se passava naquele aeroporto naquele exato momento. E a Folha voou, passou ao largo. No entanto, houve gente que ficou presa nos aeroportos durante parte do dia, houve vôos que levaram duas horas para percorrer um percurso que normalmente leva 45 minutos, a confusão voltou a imperar e a mídia não achou importante registrar. O governo, é claro,  adora este tipo de desatenção, mas os leitores não vão perdoar.

Luciano:

Perdas e ganhos

Se dependessem do noticiário econômico dos principais jornais do País, os investidores estariam em apuros.

A cada balanço publicado, a interpretação dos jornais não especializados pode pintar o céu ou o inferno para quem se interessa pelo desempenho das empresas de capital aberto.

Hoje, por exemplo, a Folha de S.Paulo anuncia, na primeira página, que o lucro da Vale do Rio Doce caiu 20% em relação ao segundo trimestre.

Já o Globo e o Estado de S.Paulo afirmam que a Vale teve um lucro superior a 55%.
Como pouca gente tem condições de ler os três jornais para tirar suas próprias conclusões, a hipótese mais óbvia é que a análise de cada um dos jornais não ajuda os leitores.

Na verdade, a diferença básica pode estar no senso de humor dos editores.

O Estado e o Globo escolheram os dados mais correlacionados, ou seja, compararam o desempenho da empresa no terceiro trimestre deste ao mesmo período do ano passado.

Já a Folha, conhecida pelo temperamento saturnino que influencia suas escolhas editorriais, analisou o balanço da empresa e preferiu comparar os dados do terceiro trimestre com o segundo trimestre deste mesmo ano, o que resulta em queda nos lucros.

Deslumbrados com a Vale

A praxe é comparar períodos semelhantes, como fizeram o Globo e o Estado. No entanto, nenhum dos jornais deu um retrato inteiro do balanço.

Ao anunciar o crescimento espantoso dos lucros da empresa, os dois jornais se deixam  deslumbrar com o desempenho da Vale do Rio Doce e de certa forma escamoteiam os problemas que a afetaram no terceiro trimestre, como a desvalorização do dólar e a queda do preço do níquel.

Ao ressaltar as perdas, a Folha deixa em segundo plano a estabilidade do crescimento da companhia.

As duas visões, no entanto, sofrem do pecado capital do jornalismo econômico no Brasil: o valor excessivo que se dá aos lucros, em detrimento de outros fatores que retratam o grau de sustentabilidade das empresas no longo prazo.

Talvez seja por isso que os investidores há muito tempo não tomam decisões com base em notícia de jornal.

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