Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

Programa nº 1292

>>Aplainando a História
>>De olhos bem fechados

Por Luciano Martins Costa em 17/05/2010 | comentários

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Aplainando a História


Os jornais do final de semana ofereceram uma variedade de temas nos seus principais espaços de reportagem, mas nenhum deles promete uma seqüência de grande fôlego.


O endividamento do Brasil no governo Lula é abordado pelo Globo com manchete ruidosa, que o texto da reportagem não justifica.


O Estado de S.Paulo requenta material sobre a presença, na fronteira amazônica, de guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que atuam ali como traficantes de drogas e contrabandistas de armas há pelo menos dez anos.


A Folha aposta num estudo sobre como os programas sociais de transferência de renda podem desestimular o crescimento do emprego formal na zona rural do Nordeste.


Nesta segunda-feira, os jornais anunciam que, ao contrário de todas as previsões publicadas por eles mesmos durante toda a semana anterior, o governo brasileiro foi bem sucedido na tentativa de um acordo com o Irã na questão nuclear.


A Folha de S.Paulo cita o chanceler brasileiro Celso Amorim como fonte da informação, observando que uma declaração oficial seria feita nesta segunda-feira.


O Globo e o Estado de S.Paulo usam como fonte o chanceler turco, que também participou do acordo, mas de forma geral toda a imprensa, inclusive as agências internacionais e portais de publicações européias e americanas, aceita como verdadeiro o fato de que o Brasil conseguiu convencer o governo iraniano a enriquecer urânio em território da Turquia, sob supervisão internacional.


Se confirmado, trata-se de um dos acontecimentos mais relevantes deste começo de século, mas a leitura dos diários não permite uma avaliação abrangente desse acordo.


Não ocorreu às redações preparar edições especiais para o caso de a reunião ser bem sucedida.


Certamente os plantonistas de domingo não estavam autorizados a aumentar o número de páginas para dar algo a mais aos leitores.


Não deixa de instigar a curiosidade pensar como a imprensa brasileira vai analisar o acontecimento, e comparar suas edições com as publicações internacionais de maior prestígio.


Afinal, esse pode ser o episódio mais marcante da diplomacia brasileira desde o Barão do Rio Branco. 


De olhos bem fechados


Alberto Dines:


– Nem uma linha impressa na grande imprensa, difícil monitorar todo o noticiário de rádio e TV mas certamente a mídia eletrônica seguiu o ditado da mídia impressa e também se omitiu. Os porteiros das redações brasileiras continuam se achando os donos da verdade, senhores absolutos da atualidade.


Na sexta-feira, a Espanha foi dramaticamente remetida ao passado quando o destemido juiz Balthazar Garzón foi suspenso das suas funções na Audiência Nacional por abrir uma investigação sobre os crimes cometidos durante a ditadura do general Francisco Franco. Não foi um desfecho inesperado, o caso arrasta-se há meses, os principais jornais do mundo acompanham os desdobramentos apaixonadamente porque Garzón é herói no Chile, na Argentina, Itália, França. Garzón não teme os torturadores, narcotraficantes e corruptos.


Não foi suspenso apenas porque contrariou a Lei de Anistia mas porque está investigando o mega-escândalo no qual está envolvida a alta direção do partido espanhol de direita, o Partido Popular. E a direita espanhola não se confina aos seus limites territoriais, tem conexões internacionais, é fortemente apoiada pela Igreja, pela Opus Dei e por suas maiores empresas multinacionais.


Ao ignorar a vasta cobertura dada por El País no sábado nossa imprensa reconhece sua incompetência. O silêncio que se seguiu à inominável injustiça praticada pelo judiciário espanhol tem algo de suspeito e cumplicidade nesta omissão. Garzón é um magistrado exemplar, sua independência não pode ser celebrada, sua coragem e desprendimento não devem ser valorizados.


Incentivar a investigação dos crimes do franquismo equivale a passar ao largo do acordo que permitiu a aprovação do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos na semana passada graças a um pacto entre governo, Igreja, mídia e o lobby dos ruralistas, verdadeira caricatura do texto original. Uma nova Guernica foi pintada na Espanha e nós estamos olhando para o outro lado.

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  1. Comentou em 19/05/2010 Marcus Fidelis

    Dines, o julgamento do Brasil na Corte Interamericana, cuja audiência começa amanhã, está passando em branco, embora tenha tudo a ver com a investigação dos crimes do franquismo por Garzón (como pode ser visto na matéria do El País, abaixo). Só vi no Blog do Fred a notícia da ida de Gilson Dipp e Sepúlveda Pertence à Costa Rica, integrando a equipe brasileira, o que mostra a gravidade do caso. Também só vi no Terra a reprodução da cobertura da EFE e da AFP da entrevista coletiva ontem, em San José, pelos autores da ação, em que foi criticada a declaração dada pelo Ministro Nelson Jobim, no começo do mês, ao Estadão, de que o Brasil não acataria uma decisão contrária. Seguem os links:
    1. Araguaia – Dipp e Pertence vão a Costa Rica – http://blogdofred.folha.blog.uol.com.br/arch2010-05-01_2010-05-31.html#2010_05-17_16_49_04-126390611-0
    2. Entidade de Direitos Humanos diz que Brasil precisa acatar decisão sobre ditadura militar -http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4438269-EI294,00-Entidade+de+direitos+humanos+diz+que+Brasil+precisa+acatar+decisao+sobre+ditadura+militar.html
    3.Garzón sobre leis de anistia – http://www.elpais.com/articulo/espana/Garzon/siento/perseguido/alguien/hace/deberia/explicar/elpepuesp/20100518elpepunac_5/Tes

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