Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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>>As pessoas de bem
>>Reescrevendo a história

Por Luciano Martins Costa em 26/02/2009 | comentários

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As pessoas de bem

As revistas semanais de informação deram sequência aos comentários sobre a moralidade política inaugurados por Veja.

Até mesmo a revista Época e a IstoÉ repercutiram o tema levantado por Veja com a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos na semana anterior.

No entanto, apenas IstoÉ abriu o leque, citando de modo geral “os fichas sujas do Congreso”, alinhando os sete senadores e 38 deputados que respondem a processos no Supremo Tribunal Federal.

Ainda assim, reunido todo o material publicado durante os dias de carnaval, o leitor fica com a sensação de que falta alguma coisa.

Esse sentimento é induzido pela constatação de que a imprensa continua fazendo uma seleção arbitrária dos corruptos de plantão.

A leitura de Veja, por exemplo, induz o leitor a acreditar que existem duas bandas distintas de corruptos: os “nossos” e os “deles”, do ponto de vista dos editores.

A revista apresenta um levantamento do crescimento do patrimônio de algumas figuras notórias do PMDB, restringindo a esse partido a análise do fenômeno da corrupção no Congresso.

E avança ligeiramente sobre a origem dos desmandos, nas eleições municipais.

Embora afirme ligeiramente que a corrupção está presente em todos os partidos – o que é uma injustiça literal, por faltar com as evidências – a reportagem de Veja centra fogo apenas no PMDB.

Mas não em todo o PMDB – e como se sabe, existem sempre dois PMDBs.

Se pretendia mesmo fazer uma radiografia da corrupção, como anuncia em sua capa, a revista poderia ir bem mais fundo, pois material de pesquisa não falta.

Da forma como o tema foi abordado, e seguindo a repercussão oferecida nos últimos dias pelos jornais, algum leitor distraído pode se induzido a acreditar que a imprensa brasileira é o último refúgio da moralidade política, e que a corrupção tem indicadores de nível conforme o perfil ideológico do corrupto, ou conforme o grupo político com o qual ele se identifica.

Todos sabemos que muitos “homens de bem” poupados do noticiário sobre corrupção estariam mais bem retratados na editoria de polícia do que na de política.

Reescrevendo a história

Passados quase dez dias, a Folha de S.Paulo segue provocando debates por causa da revisão histórica que seus editorialistas resolveram oferecer à Nação.

Segundo o jornal que se apresenta como “o maior do País”, o regime de exceção imposto ao Brasil entre 1964 e 1985 não foi uma ditadura.

No trocadilho infeliz escolhido pelo redator que expõe as opiniões do diretor responsável do jornal, o Brasil passou por uma “ditabranda”.

Os argumentos já alinhavados pela internet, alguns deles publicados na seção de cartas da Folha, bastariam para qualificar tal afirmação como mera e desrespeitosa aleivosia.

Mas preocupa os observadores da imprensa que um jornal alinhado entre os mais influentes do País venha a propor semelhante jogo de palavras sobre tema a respeito do qual não há como tergiversar.

A Folha tem há algum tempo a mania dos “rankings” e das tabelas classificatórias, mas não há como fazer uma lista classificatórias de horrores.

Comparar a ditadura brasileira com a chilena ou a argentina seria o mesmo que comparar o terror nazista com os horrores do estalinismo, dizendo que este ou aquele pode ser mais aceitável.

A Folha foi o jornal brasileiro que mais se entusiasmou com as idéias do economista americano Francis Fukuyama, que no fim dos anos 1980 anunciou o “fim da História”.

Também foi o jornal que abrigou sem reservas as teses de que existe uma tal pós modernidade.

Mas não há como fugir da História.

Não é com a negação que a Folha vai escapar da verdade segundo a qual foi um dos jornais que mais colaboraram com a ditadura militar, inclusive contratando policiais para trabalhar como jornalistas na década de 1970.

Ao desrespeitar os mortos dos regime de exceção, o jornal faz lembrar seu próprio comportamento durante os anos de chumbo.

A reação, tardia, e a luta pela redemocratização, foi liderada por repórteres e alguns editores, inicialmente à revelia da direção do jornal.

Quem se aventura a reescrever a História se arrisca a ser julgado por ela.

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