Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Por Luciano Martins Costa em 14/07/2008 | comentários

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Bandidos e mocinhos na imprensa

As revistas de informação e as edições de fim de semana dos jornais se concentram na crise entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e outras instáncias e representações do Judiciário.

Embora o ministro tenha desmentido a informação de que havia pedido uma investigação sobre o comportamento do juiz Fausto Martin de Sanctis, responsável pelo processo contra o banqueiro Daniel Dantas e o especulador Naji Nahas, o noticiário sustenta que o presidente do STF estaria ameaçando usar o Conselho Nacional de Justiça contra De Sanctis.

Como o noticiário sobre crimes costuma ser reduzido ao confronto entre a Justiça e os delinqüentes, o leitor é induzido a alinhar o presidente da Corte Suprema entre os que facilitam a vida dos criminosos.

Na edição de hoje, a Folha de S.Paulo faz um perfil do ministro Gilmar Mendes, lembrando que ele entrou para a vida pública no governo Collor mas se destacou no governo Fernando Henrique. Como advogado-geral da União, entrou em polêmicas por defender a privatização do Banespa.

Indicado para o Supremo Tribunal Federal pelo ex-presidente Fernando Henrique, chegou a libertar 13 acusados da Operação Navalha num único final de semana e também desfêz prisões da Polícia Federal nas operações Hurricane e Anaconda.

Em meio às notícias sobre a crise no Judiciário, destaca-se a informação de que Daniel Dantas criou tamanho emaranhado de investimentos e relações suspeitas que nem ele conhece a estrutura das empresas que controla ou influencia.

No fim, é possível que o banqueiro consiga se safar da Justiça, graças a suas relações privilegiadas, mas acabe sendo punido pelo mercado, por conta da operações de alto risco a que submete o patrimõnio de seus clientes.

O vale-tudo na imprensa

Alberto Dines:

– O prato forte da imprensa neste fim de semana foi o vazamento pela Polícia Federal de partes do relatório sigiloso sobre a Operação Satiagraha que prendeu o banqueiro Daniel Dantas. Este vazamento é grave, mais grave do que a discussão sobre a espetacularização das prisões ou o confronto entre o presidente do STF e um juiz de primeira instância. O Estado de S.Paulo foi privilegiado pela Polícia Federal e publicou na sexta-feira uma pagina inteira com reproduções em fac-símile do relatório secreto sobre o caso.

A PF cometeu duas infrações simultaneamente: violou o segredo de justiça e favoreceu um único veículo de informação. Mais grave ainda é que um dos trechos vazados consistia na transcrição de um grampo telefônico onde conversavam o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado pelo PT, e o Chefe de Gabinete da Presidência da República, Gilberto de Carvalho. Ficou evidente que Greenhalgh foi ao palácio do Planalto a serviço do seu cliente, Daniel Dantas e que Gilberto de Carvalho, ingenuamente, prestou-se a passar-lhe informações confidenciais que, em última análise prejudicam os interesses do governo.

É incrível e inadmissível. As conversas de um dos mais altos funcionários do governo não podem ser gravadas e se o foram por engano, sob hipótese alguma, podem ser divulgadas antes da conclusão do inquérito. Os federais merecem o apoio e o respeito da sociedade. Apoiados pelo Ministério Público e pelo Judiciário têm desenvolvido um esplêndido trabalho no combate à corrupção e ao crime organizado. Estes vazamentos, porém, são rigorosamente ilegais, porque comprometem a isenção e a probidade das autoridades. A PF parece sem controle, presa de conflitos internos, e o ministério da Justiça dá a impressão de estar sendo atropelado pelo voluntarismo e a truculência de uma de suas alas.

Estes vazamentos maculam o vazador, maculam o beneficiário e maculam a imagem da imprensa. É preciso não esquecer que recentemente a Polícia Federal tentou prender uma repórter da Folha de S. Paulo porque teria antecipado detalhes da Operação Satiagraha. Agora, a mesma PF beneficia o seu concorrente revelando um grampo na presidência da República. Estamos próximos do vale-tudo.

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