Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

Programa nº 386

Mauro Malin

>>Blitz antimídia
>>Poderes da e na mídia

Por Mauro Malin em 02/11/2006 | comentários

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Blitz antimídia

 

Alberto Dines:

 

– Qual a razão da súbita ofensiva contra a mídia um dia depois da estrondosa vitória do último domingo? Se o presidente reeleito dá provas efetivas da sua disposição de aproximar-se da imprensa, então porque esta sucessão de episódios na direção contrária sugerindo um clima de ameaças ao exercício do jornalismo? Existem várias hipóteses para explicar a disparidade e o paradoxo. Uma das hipóteses, a mais humana e a mais compreensível, refere-se ao estresse. As equipes do governo e do PT estariam simplesmente esgotadas pela tensão dos últimos dois meses. Neste estado, as reações são exageradas, impensadas e como há muita gente envolvida, sai tudo pelo avesso, desordenado. Numa outra linha de raciocínio, estão as hipóteses do tipo conspiratório: de acordo com elas, a intenção de aproximar-se da mídia acompanhada por uma série de trancos seria uma forma de manter a mídia na defensiva, impedida de forçar as investigações a respeito dos desdobramentos do malogrado Dossiê Vedoin. Nos próximos dias, em seguida à primeira entrevista coletiva do presidente, as dúvidas talvez possam ser esclarecidas. Enquanto isso é preciso lembrar que esta blitz antimídia com cara de revanche prejudicou a agenda de uma discussão séria a respeito da estrutura da mídia em nosso país. Ao desgastarem-se numa briga em torno dos procedimentos jornalísticos no período eleitoral – no qual nem o governo nem o PT têm razão alguma – queima-se uma preciosa chance de iniciar o debate estrutural sobre mídia e que jamais foi ensaiado. O feriadão talvez sirva para o repouso dos guerreiros e a sua substituição por estrategistas menos tensos e desgastados. Então ficará claro que a mídia é essencial para levar adiante o projeto de reconciliação nacional. Com os mensageiros assustados a mensagem chega sempre truncada aos destinatários.

 

Poderes da e na mídia

 

Uma das participantes do Colóquio Latino-Americano sobre Observação da Mídia promovido pelo Observatório da Imprensa em setembro, a uruguaia María Urruzola adverte jornalistas que se imaginam muito poderosos.

 

María:

 

– Creio que um dos problemas que há no que toca à compreensão do papel dos meios [de comunicação] é que não se distingue suficientemente os meios, que são um aparato produtivo, uma indústria, dos jornalistas, que são assalariados dessa indústria. Os verdadeiros donos dos meios – não o diretor, o redator responsável, não, os donos – não aparecem nunca. E são os que fazem o frio e o calor, com se diz em meu país.

 

Mauro:

 

– María Urruzola fala da poder da mídia nas sociedades modernas e da falta de regras claras para seu exercício.

 

María:

 

– Os meios ocuparam um lugar na cena pública similar ao do poder legislativo, ao do poder judiciário, ao do poder executivo. Só que não estão submetidos às mesmas regras cidadãs que os outros poderes. O poder legislativo se elege, o poder executivo também, esses poderes designam o poder judiciário. Mas em relação aos meios de comunicação, quais são essas regras? Na verdade, a empresa privada se torna usufrutuária dos direitos à comunicação, à informação, que são direitos cidadãos. E só se exercem esses direitos através das empresas privadas. Quando se pensa que neste momento há cifras que dizem que dez por cento do PIB mundial é produzido pelos meios de comunicação, então estamos falando de um poder econômico muito impressionante.

 

Mauro:

 

– María Urruzola diz que a concentração da mídia dá poder.

 

María:

 

– Os jornalistas são empregados. Empregados que se crêem intelectuais. Mais bem-formados ou menos, não importa, mas são peças de uma máquina. E essa máquina chegou a um grau de concentração que nem sequer tem mais a ver com ideologia. As grandes concentrações são donas de um diário de esquerda e do de direita, de automóvel, de cozinha, não importa, de plantas, de qualquer coisa. Ou seja, aos donos dos meios já não importa o conteúdo. O que lhes importa é a concentração de meios que gera um poder econômico que lhes permite fazer e desfazer governos.

 

Eu não conheço o rosto dos donos das principais mídias do mundo. E você também não a conhece. E a imensa maioria dos cidadãos não a conhece. E esses senhores prestam contas a quem? Agora se diz que um dos pilares da democracia é a prestação de contas. Os donos da mídia, quem são e a quem prestam contas?

 

Mauro:

 

– A resposta clássica à pergunta da observadora da mídia uruguaia é: rendem contas aos leitores, que podem ser enganados num ou noutro episódio, mas, quanto maior e mais desenvolvida a cidade, tanto mais são capazes de perceber, para o bem e para o mal, o sentido político das narrativas. Mas é verdade que freqüentemente editores se enganam, e muito, a respeito de seu grau de indepedência e isenção profissional.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/11/2006 Schetini Rossi

    Essa é a mídia brasileira, defende a revista VEJA, com todas as suas calúnias e inverdades publicadas e não tece uma linha se quer sobre a condenação do Amir Sader. Se fosse algum jornalista invocavam logo a Liberdade de Expressão. E o que fez mesmo o Amir Sader ao emitir sua opinião sobre as declarações do Bornhausen. Quem diria, a mídia encobrindo um algoz da ditadura.

  2. Comentou em 02/11/2006 Alexandre Melo

    É compreensível a preocupação de vocês, mas algo precisa ser feito. Não pode acontecer o que vem acontecendo. Acusações de qualquer tipo sem o mínimo de responsabilidade. A mídia, que no meu entender deveria prestar serviços à sociedade informando os fatos, passou a tomar partido. Quando se toma partido, seja de qual lado for, a razão de informar perde o seu sentido. Em qualquer setor da sociedade existem regras. Quais as regras da imprensa? Vou usar a revista Veja como exemplo: Pode a revista Veja estampar em sua capa tudo aquilo que ela bem entender e não sofrer as conseqüências depois? E se isso virar moda, onde vamos parar? Se a mídia cumprir com o seu papel (o verdadeiro), ninguém falará nada. Se alguém reclama é porque algo acontece e sem examinar não podemos dizer que nada acontece ou que isso é frescura. A sensação de ler (quando tinha estômago) a revista Veja é a mesma de quando descobrir (pela própria VEJA) que o árbitro de futebol (que agora não lembro o nome) manipulava resultados de jogos. Naquela época eu pagava por algo que era uma mentira. Você colocaria a mão no fogo por todos os meios de comunicação? Se sim, você está certo em reclamar; se não, você deve repensar um pouco. Não quero uma mídia covarde, calada, amarrada. Pelo contrário, quero uma mídia livre, porém, justa, prospectiva e equilibrada.

  3. Comentou em 02/11/2006 Carlos Henrique Pereira

    Boa Tarde Alberto, Me permito colocar que: • A Agressão feita aos Jornalistas foi executada por 2 pessoas, somente, mas é uma atitude errada. • A pressão à qual você se refere, na minha opinião, é reflexo de uma consciência pesada de parte da própria Imprensa e/ou Mídia, visto que não se pode negar que a grande maioria dos dirigentes desta classe apoiavam de modo ABERTO a candidatura Alckmin. Hoje o que vejo e principalmente SINTO, pois não sou jornalista, é que devido à Internet e a comunicação infinitamente mais fácil nos dias de hoje, uma parcela muito grande da população não aceita a criação de fatos e sugestões dos tipo das que foram feitas pela Mídia desde Maio de 2005. O que o cidadão comum deseja é que a Imprensa/Mídia, independente de direcionamento que tenha, apenas diga a VERDADE, doa a quem doer. • Esta VERDADE há muito vem sendo escondida pela imprensa, quando não lhe interessa onde vai desaguar a verdade. Podemos verificar apenas o caso do Delegado Bruno, que foi acusado na época pelo M. A. Garcia de ter dito que o fato fora gravado e a Globo e Folha disseram que seus Jornalistas negaram que fosse VERDADE. O pior é que a gravação apareceu, todos na Internet a ouviram e a Globo e a Folha colocaram o rabo entre as pernas e ficaram quietas, mas o Cidadão, não. Aliás, não fiará mais porque tem acesso a tudo e a todos. É isso, Alberto, o que penso. Valeu.

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