Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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>>Blitz antimídia
>>Poderes da e na mídia

Por Mauro Malin em 02/11/2006 | comentários

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Blitz antimídia

 

Alberto Dines:

 

– Qual a razão da súbita ofensiva contra a mídia um dia depois da estrondosa vitória do último domingo? Se o presidente reeleito dá provas efetivas da sua disposição de aproximar-se da imprensa, então porque esta sucessão de episódios na direção contrária sugerindo um clima de ameaças ao exercício do jornalismo? Existem várias hipóteses para explicar a disparidade e o paradoxo. Uma das hipóteses, a mais humana e a mais compreensível, refere-se ao estresse. As equipes do governo e do PT estariam simplesmente esgotadas pela tensão dos últimos dois meses. Neste estado, as reações são exageradas, impensadas e como há muita gente envolvida, sai tudo pelo avesso, desordenado. Numa outra linha de raciocínio, estão as hipóteses do tipo conspiratório: de acordo com elas, a intenção de aproximar-se da mídia acompanhada por uma série de trancos seria uma forma de manter a mídia na defensiva, impedida de forçar as investigações a respeito dos desdobramentos do malogrado Dossiê Vedoin. Nos próximos dias, em seguida à primeira entrevista coletiva do presidente, as dúvidas talvez possam ser esclarecidas. Enquanto isso é preciso lembrar que esta blitz antimídia com cara de revanche prejudicou a agenda de uma discussão séria a respeito da estrutura da mídia em nosso país. Ao desgastarem-se numa briga em torno dos procedimentos jornalísticos no período eleitoral – no qual nem o governo nem o PT têm razão alguma – queima-se uma preciosa chance de iniciar o debate estrutural sobre mídia e que jamais foi ensaiado. O feriadão talvez sirva para o repouso dos guerreiros e a sua substituição por estrategistas menos tensos e desgastados. Então ficará claro que a mídia é essencial para levar adiante o projeto de reconciliação nacional. Com os mensageiros assustados a mensagem chega sempre truncada aos destinatários.

 

Poderes da e na mídia

 

Uma das participantes do Colóquio Latino-Americano sobre Observação da Mídia promovido pelo Observatório da Imprensa em setembro, a uruguaia María Urruzola adverte jornalistas que se imaginam muito poderosos.

 

María:

 

– Creio que um dos problemas que há no que toca à compreensão do papel dos meios [de comunicação] é que não se distingue suficientemente os meios, que são um aparato produtivo, uma indústria, dos jornalistas, que são assalariados dessa indústria. Os verdadeiros donos dos meios – não o diretor, o redator responsável, não, os donos – não aparecem nunca. E são os que fazem o frio e o calor, com se diz em meu país.

 

Mauro:

 

– María Urruzola fala da poder da mídia nas sociedades modernas e da falta de regras claras para seu exercício.

 

María:

 

– Os meios ocuparam um lugar na cena pública similar ao do poder legislativo, ao do poder judiciário, ao do poder executivo. Só que não estão submetidos às mesmas regras cidadãs que os outros poderes. O poder legislativo se elege, o poder executivo também, esses poderes designam o poder judiciário. Mas em relação aos meios de comunicação, quais são essas regras? Na verdade, a empresa privada se torna usufrutuária dos direitos à comunicação, à informação, que são direitos cidadãos. E só se exercem esses direitos através das empresas privadas. Quando se pensa que neste momento há cifras que dizem que dez por cento do PIB mundial é produzido pelos meios de comunicação, então estamos falando de um poder econômico muito impressionante.

 

Mauro:

 

– María Urruzola diz que a concentração da mídia dá poder.

 

María:

 

– Os jornalistas são empregados. Empregados que se crêem intelectuais. Mais bem-formados ou menos, não importa, mas são peças de uma máquina. E essa máquina chegou a um grau de concentração que nem sequer tem mais a ver com ideologia. As grandes concentrações são donas de um diário de esquerda e do de direita, de automóvel, de cozinha, não importa, de plantas, de qualquer coisa. Ou seja, aos donos dos meios já não importa o conteúdo. O que lhes importa é a concentração de meios que gera um poder econômico que lhes permite fazer e desfazer governos.

 

Eu não conheço o rosto dos donos das principais mídias do mundo. E você também não a conhece. E a imensa maioria dos cidadãos não a conhece. E esses senhores prestam contas a quem? Agora se diz que um dos pilares da democracia é a prestação de contas. Os donos da mídia, quem são e a quem prestam contas?

 

Mauro:

 

– A resposta clássica à pergunta da observadora da mídia uruguaia é: rendem contas aos leitores, que podem ser enganados num ou noutro episódio, mas, quanto maior e mais desenvolvida a cidade, tanto mais são capazes de perceber, para o bem e para o mal, o sentido político das narrativas. Mas é verdade que freqüentemente editores se enganam, e muito, a respeito de seu grau de indepedência e isenção profissional.

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