Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Programa nº 109

Mauro Malin

>>Delcídio sob pressão
>>O pano de fundo é a improbidade

Por Mauro Malin em 04/10/2005 | comentários

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Delcídio sob pressão


O presidente Lula continua a tentar desmoralizar as denúncias de corrupção no governo e no PT. A pressão é tão grande que o senador Delcídio Amaral falou ontem em renunciar à presidência da CPI dos Correios. A imprensa ainda não explicou o que levou o senador a essa disposição extremada, sobretudo no momento em que teve apoio do deputado José Eduardo Martins Cardoso em sua gravíssima hipótese de que o PT tenha recebido dinheiro do exterior, ainda que proveniente de fundos alimentados a partir do Brasil.



Retórica chavista


Ontem à noite, no Roda Viva, da TV Cultura, os jornalistas que entrevistaram o presidente Hugo Chávez foram combativos, com uma ou outra exceção. Mas o coronel usa uma retórica de palanque. A produção do programa só escalou amigos de Chávez para fazer perguntas gravadas. Entre eles um diretor da empreiteira Odebrecht e a cantora Beth Carvalho, que mandou e ganhou beijinhos de Chávez, animador de programas de televisão na Venezuela.


Logo no início, Chávez disse que seu governo trata de diversificar a economia venezuelana. Infelizmente, ninguém lhe pediu um detalhamento dessas ações.


Mas Chávez deu um exemplo que poderia ser imitado pelo presidente Lula: uma verdadeira, embora limitada pelo formato, entrevista coletiva.


O bispo virou a mídia


Um homem determinado subverteu os planos de mídia do governo para a divulgação do projeto de transposição das águas do Rio São Francisco. Passou de “agenda positiva” a encrenca. Desde sábado, o único noticiário que aparece a respeito da transposição é relativo à greve de fome do bispo de Barra, Dom Luiz Flávio Cappio. O Jornal Nacional, agente fundamental da ofensiva propagandística do governo, pela primeira vez mostrou imagens do protesto quando o senador Antônio Carlos Magalhães e um enviado do presidente Lula visitaram o bispo em Cabrobó, Pernambuco, ponto previsto para o início da obra. Ontem, como outros telejornais, voltou ao local. Apareceram, diante da sede da Fiesp, onde o presidente Lula participou de um evento empresarial, faixas a favor do bispo e contra a transposição. Nesta terça-feira, 4 de outubro, o Estado de S. Paulo e a Folha finalmente abrem espaço para o protesto. O número de apoiadores esperados hoje em Cabrobó já se conta aos milhares. O Vaticano reluta em marcar audiência do papa Bento XVI com o presidente Lula em pleno protesto do bispo, que não é “suicida”, nem “baiano”, como escreve hoje Nelson de Sá na Folha. Para completar, Lula encarregou esse grande diplomata chamado Ciro Gomes de travar o diálogo. Não seria melhor o presidente ir a Cabrobó conversar com um religioso que declarou seu voto nele?


Vocabulário de Lula


O presidente Lula disse ontem a respeito do protesto do bispo: “Greve de fome é judiar do próprio corpo”. Na boca de um presidente da República, esse eco de um preconceito ancestral contra os judeus traduz despreocupação com a natureza e a liturgia do cargo. A imprensa acatou sem reparos o vocabulário de Lula.


O pano de fundo é a improbidade


O Alberto Dines mostra que a improbidade permeia os diferentes focos dominantes do noticiário.


Dines:


– Mauro: o jornalismo é oferecido em doses periódicas, cada dia com um fato dominante, cada edição um novo capítulo, nem sempre da mesma história. O cenário atual parece oferecer tramas diferentes – ontem começou a campanha sobre o referendo, hoje temos a crise transferida para a própria CPI dos Correios e nos cadernos de esportes mantém-se há dias a vergonhosa máfia do apito. No fundo, apesar das aparências discrepantes, é a mesma e antiqüíssima improbidade. A discussão sobre o desarmamento seria menos premente se o contrabando de armas não favorecesse os bandidos. As CPIs estariam mais adiantadas se a luta contra corrupção fosse de fato transformada em prioridade nacional. A sujeira nos gramados já teria desaparecido se as denúncias de corrupção no esporte fossem mantidas sempre nas primeiras páginas. É o que vamos fazer hoje à noite no Observatório da Imprensa – discutir o esporte como se fosse política. Não esqueça, às dez e meia na rede da TVE e às onze da noite na rede da TV-Cultura.


Lance na televisão


O jornal Valor noticia hoje que o grupo Lance, capitalizado com recursos estrangeiros, prepara para novembro entrada em rádio e televisão. O grupo pretende se tornar o maior fornecedor de conteúdo de esportes do país, segundo seu diretor-presidente, Walter Mattos Júnior.


Dificuldades no campo


Não será surpresa se a próxima onda de inquietação econômica for uma crise dos produtores de grãos. O ministro da Agricultura tem feito seguidas advertências a respeito de problemas financeiros no campo. O caderno Dinheiro da Folha noticia hoje que, “para pagar dívidas, agricultores desovam estoques por qualquer valor”. Esse movimento explicaria a queda dos preços de pão, óleo de soja, arroz e carne.


Portão arrombado


Durante a meteórica ascensão de Edemar Cid Ferreira, a mídia praticamente ignorou o que à boca pequena se dizia do empresário. Depois da falência do Banco Santos não param de surgir notícias de irregularidades. Para os aplicadores lesados, agora é tarde.

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  1. Comentou em 04/10/2005 Pedro Amaral

    Prezado Mauro:
    Assisti ontem a boa parte da entrevista do presidente Hugo Chávez ao ‘Roda Vida’. Entrevista que mais me pareceu um interrogatório com um acusado, como, aliás, sói acontecer em nossa mídia sempre que há um marcado fosso ideológico entre o entrevistado e o conjunto de seus detratores, isto é, entrevistadores. Você diz que os colegas foram ‘combativos’. Ok, fiquemos com esse adjetivo: de fato, no decorrer de boa parte do programa, o mandatário venezuelano (anatemizado por quase todos os nossos órgãos de imprensa) foi combatido por perguntas que, passando longe da ‘isenção’, por vezes revelavam clara intenção de colocá-lo em maus lençóis. Ansiosos por criticá-lo, os jornalistas por diversas vezes o interrompiam e o impediam de concluir suas repostas. Eliana Castanhede, da Folha, procurou obter de Chávez respostas que o incompatibilizassem com Lula. Outro jornalista, em tom de incredulidade, perguntou se ele realmente trabalhava com a hipótese de uma agressão militar norte-americana. E a retórica do entrevistado também foi por diversas vezes rechaçada.
    Nesse contexto de quase-linchamento, nessa atmosfera de ‘Chávez na cova dos leões’, as perguntas com açúcar e com afeto de convidados como Beth Carvalho e Cristovam Buarque serviram, ao menos, como um contraponto, salvando o programa da monotonia.
    Faltou, Mauro, o que costuma faltar no tendencioso tratamento que nossa grande imprensa dispensa a Hugo Chávez: contextualização. Todos nós (e isso inclui, evidentemente, os jornalistas) temos o direito de gostar ou não de quem quer que seja, e de expressar nossas opiniões. Mas os jornalistas não deveriam omitir informações para tornar seus pontos-de-vista mais convincentes. Ora, o fenômeno Chávez é incompreensível sem menção ao passado recente da Venezuela, às tensões políticas geradas pelos governos Perez e Caldera, que aprofundaram as desigualdades sociais, levando a maioria dos venezuelanos à exasperação.
    Do mesmo modo, a retórica por vezes inflamada do presidente da Venezuela só pode parecer descabida, quando se desconhece o tratamento que lhe dispensam a elite venezuelana com suas empresas de comunicação, os grandes grupos de mídia internacionais (li há alguns anos, na Newsweek, artigo intitulado’Is Chávez Mad?’) e, last but not least, o Departamento de Estado dos EUA, que além de já haver patrocinado um golpe de Estado (um golpe de Estado!) contra Chávez, não hesita em lhe enviar provocações e em acolher líderes oposicionistas venezuelanos com honras semelhantes às dispensadas a chefes de Estado.
    Sem o recurso à contextualização, portanto, ‘Não há encrencas COM Hugo Chávez, mas encrencas DE Hugo Chávez’, como afirma Gilberto Maringoni em seu excelente artigo ‘Quem precisa de Veja?’, publicado no Brasil de Fato em 5/05/2005.
    Concordo com você, Mauro, quando elogia o exemplo dado por Hugo Chávez, ao se submeter ao ‘Roda Viva’. É de fato um exemplo louvável, sobretudo em se considerando que nosso último presidente fugia de debates, e o atual corre de entrevistas coletivas.
    Será Hugo Chavez realmente ‘o clone do totalitarismo’, como querem, por exemplo, os Civita? Com mais e melhores informações, todos poderíamos formar nossas próprias opiniões.

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