Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

Programa nº 1223

>>Escolhas insensatas
>>Fugindo do debate

Por Luciano Martins Costa em 08/02/2010 | comentários

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Escolhas insensatas


Não foram as enchentes, os índices de violência, a corrupção ou o desempenho da economia, os temas principais da imprensa brasileira na semana que passou.


A imprensa tem se ocupado essencialmente de dois assuntos: o tamanho do Estado e quem estaria mais habilitado a liderar o Brasil pelo resto do caminho que pode conduzi-lo ao status de país desenvolvido.


A questão do tamanho do Estado tem permeado todo o noticiário econômico e político desde o final de 2008, quando as dificuldades de alguns dos maiores bancos do mundo denunciaram a ocorrência de uma profunda crise financeira internacional.


Todas as ações que permitiram, no período de doze meses, reduzir os efeitos da crise e reorganizar minimamente a economia global para uma retomada, foram tomadas pelos governos das sete nações mais desenvolvidas, mais os países em desenvolvimento e alguns protagonistas considerados estrategicamente importantes.


A força majoritária da economia, concentrada na iniciativa privada, foi colocada de lado durante todo o ano que passou, passando a atuar apenas como coadjuvante no esforço global de evitar um desastre de proporções catastróficas.


Quando chamadas ao palco, o que fizeram as grandes corporações da velha economia?


Investiram na tentativa de desmoralizar os especialistas que alertavam para a necessidade de modos mais civilizados na vida pessoal e nos negócios, aceleraram a concentração da propriedade dos meios de produção e retomaram a prática de premiar as ações por resultados de curto prazo que haviam contribuído para a crise financeira.


Nesse período, a imprensa internacional, e a brasileira, por reflexo, navegaram com um pé em cada canoa.


Ao mesmo tempo em que davam cobertura às ações dos governos – diga-se, à iniciativa dos Estados – para a superação da crise, tratavam de lançar dúvidas sobre a capacidade estatal de conduzir as economias nacionais.


Agora que o mundo tenta consolidar o caminho da normalidade, apesar dos soluços da crise na Europa, a imprensa abre campanha descarada pela redução do papel do Estado na economia.


Tirou o pé de uma das canoas e embarcou na nau dos insensatos.


Fugindo do debate


Na imprensa internacional, o debate sobre o papel do Estado está dissimulado sob as críticas ao governo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que mal começou.


No Brasil, esse debate não aparece explicitamente nos jornais e revistas.


Como quase todos os assuntos mais complexos e mais importantes para a vida nacional, ele vem dissimulado em declarações de políticos e nas escolhas das opiniões que os editores colocam em maior destaque.


A imprensa é claramente contrária ao maior protagonismo do Estado, mesmo em períodos nos quais a iniciativa privada parece mais apta a complicar do que a resolver os problemas macroesconômicos.


Não por falta de qualificação: apenas porque cada empresa tende a pensar em seus próprios resultados, ou no máximo, nos interesses do seu setor.


Da mesma forma, não se pode afirmar que o Estado seja sempre desqualificado para resolver os problemas estruturais.


Ou, pelo lado oposto, também não se pode admitir que toda decisão estratégica para o país tenha origem e execução exclusivamente no aparelho do Estado.


Afinal, o Estado é composto pelos interesses das forças políticas, que não representam necessariamente ou permanentemente os interesses da sociedade.


A questão central, que é contemplada pela imprensa, é que o Estado contemporâneo, principalmente no modelo adotado pelo Brasil depois da redemocratização, tem que atuar mais efetivamente como indutor do desenvolvimento, em algumas áreas em que a iniciativa privada precisa ser estimulada a investir.


Um dos exemplos é o crescimento recente da população de classes de renda C, a chamada nova classe média, produzido essencialmente à base de políticas públicas que vêm sendo implementadas há cerca de quinze anos.


Esse fenômeno cria oportunidades de negócio onde antes não havia mercado.


Mas a imprensa brasileira parece temer o Estado, como se estivesse convencida de que ele se assenta necessariamente sobre uma base não democrática ou não representativa da nacionalidade.


Essa talvez seja a razão pela qual, por ocasião dos escândalos políticos, o noticiário trate os protagonistas desses escândalos como personagens nascidos do acaso, desvinculados de sua origem nas urnas.


A pauta central da imprensa – o tamanho do Estado – é um tema legítimo.


Mas é preciso mais desprendimento ideológico para propor o debate em termos mais abrangentes, mais profundos, e, sobretudo, mais honestos.

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