Sexta-feira, 20 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº983
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Programa nº 762

>>Fogo no campo
>>Democracia é pluralismo

Por Luciano Martins Costa em 18/04/2008 | comentários

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Fogo no campo

Todos os principais jornais destacam hoje as ações do Movimento dos sem Terra, que promoveu ontem uma onda de protestos e bloqueou a Ferrovia de Carajás.

Segundo a Folha de S.Paulo, foram sete horas de bloqueio.

Segundo o Globo foram cinco horas.

Já a reportagem do Estado de S.Paulo registrou que o bloqueio durou oito horas.

Os jornais não conseguem acertar seus relógios, mas são unânimes em condenar as ações do MST.

O movimento, chamado pelos organizadores de ‘abril vermelho’, lembra os doze anos do massacre de Carajás, quando dezenove agricultores sem terra foram mortos a tiros pela Polícia Militar do Pará.

Mas só o Estadão lembra o acontecimento com mais detalhes, observando que, dos 152 PMs envolvidos no massacre, foram condenados apenas um coronel e um major que comandaram a ação.

Eles recorreram de suas sentenças e aguardam o julgamento em liberdade.

O Globo e a Folha apenas citam o episódio de 17 de abril de 1996, ajudando a colocar mais terra sobre um dos mais graves episódios do interminável conflito agrário no Brasil.

Foram mais de cem ações organizadas ontem em quinze Estados e no istrito Federal, mas os jornais concentram sua atenção no bloqueio da ferrovia da Companhia Vale do Rio Doce.

A leitura das reportagens desvia da questão central – ainda o problema da reforma agrária – e induz o leitor a imaginar que os sem-terra são grupos de vândalos que vagueiam pelo Brasil destruindo o patrimônio alheio.

O Globo chega a cobrar o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, pela falta de atitude de sua pasta com relação aos protestos dos sem-terra contra a mineradora.

A resposta de Cassel coloca um ponto de reflexão sobre o tema que não está presente no noticiário, nos editoriais ou nos artigos: ‘trata-se de uma empresa privada que teve seus direitos afrontados. Tem que recorrer ao Poder Judiciário. Afinal, por que razão o governo deveria tomar partido, se as duas instituições em conflito são legais, responsabilizáveis perante a lei?’

A controvérsia poderia conduzir a uma compreensão melhor do problema se os jornais mergulhassem na questão agrária sem preconceitos.

O MST e outras organizações representam cerca de 150 mil famílias de agricultores que vivem precariamente em acampamentos à beira de estradas, aguardando uma reforma agrária que nunca vem.

Enquanto esse problerma não for atacado de verdade, abril será sempre o mês das invasões.

Democracia é pluralismo

O ministro da justiça, Tarso Genro, parece ignora que suas críticas

públicas à imprensa podem se converter em ameaça.

Certos setores do governo ainda resistem a aceitar o pluralismo nas opiniões.

Alberto Dines:

– Em Agosto do ano passado o ministro do STF, Ricardo Lewandowski, surpreendeu o país ao afirmar que a imprensa pressionou a suprema corte para aceitar as denúncias contra os acusados do mensalão. Nesta quarta feira, o ministro da Justiça, Tarso Genro também acusou a imprensa de pressionar o STF para interromper a retirada dos arrozeiros de uma reserva indígena. O ministro Lewandowski deu uma opinião pessoal fora do recinto do tribunal. É uma opinião estranha, mas é legítima. Já o Ministro Tarso Genro, porque faz parte do Executivo e estava numa solenidade pública nas dependências da Polícia Federal, permitiu que a sua crítica a respeito de uma cobertura jornalística se convertesse automaticamente em ameaça. A análise do ministro da Justiça sobre a cobertura na desocupação da Reserva Raposa Serra do Sol é equivocada. A imprensa está acompanhando o caso com enfoques diferenciados. O próprio governo está dividido, como o demonstra a manifestação do comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno, ao declarar no mesmo dia que ‘nossa política indigenista é caótica’ (O Globo, 17-04, primeira página). Certas esferas palacianas ainda não aprenderam a conviver com o pluralismo, acreditam que democracia resume-se à convocação de eleições. Errado. Democracia significa também respeitar a livre circulação de idéias.

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  1. Comentou em 18/04/2008 Marco Antonio Fornaciari

    Caro Dines,
    Admiro e respeito profundamente suas opiniões e considero-o o melhor profissional de imprensa do Brasil, porém essa visão de que Democracia é pluralismo é, no mínimo, uma utopia criada para defender um sistema de governo que só funciona em sociedades evoluídas e extremamente educadas ao longo de sua História.
    Nem no berço da dita Democracia, Atenas, esse sistema previa pluralidade, uma vez que haviam castas e mesmo escravos sem direito a nada. Nem mesmo toda a Grécia Antiga adotava a idéia da Democracia ateniense, pois seus Estados-Reinos possuíam diferentes formas de governo e visão de sociedade (vide Esparta).
    Assim, democracias podem funcionar bem (e até serem pluralistas) em países como Finlândia, Suécia, Suíça, e outros raros com uma homogeneidade social e alto nível educacional.
    Em países como o Brasil, ‘democracias’ sempre serão ditaduras da maioria, como bem demonstra o atual governo anarco-sindicalista do PT, e como a maioria no Brasil é de ignorantes com baixíssimo nível cultural e educacional, ficamos nós, a minoria, reféns da vontade eleitoral de tal massa facilmente comprável e manipulável por qualquer Bolsa-Família.
    O Brasil entrou em uma ‘Idade das Trevas’ da qual dificilmente sairá por meios democráticos, haja vista a ausência total de líderes capazes de oferecer um caminho para o desenvolvimento social e intelectual da população.

  2. Comentou em 18/04/2008 Ivan Moraes

    ‘jornais concentram sua atenção no bloqueio da ferrovia da Companhia Vale do Rio Doce’: se os jornais nao gostassem taaaaaaaaaaanto assim da Vale nao teriam ‘de graca’ ajudado na privatizacao dela. Ja o problema da reforma agraria eh diretamente relacionado aos donos de terra ao lado dos quais jornais sempre estiveram. Nada de novo aqui tambem. Se nao fosse por conivencia de todo mundo, desde judiciario a todos os setores da media e do governo, a favor da paralizacao completa e total de qualquer tipo de reforma agraria, o MST nao existiria. Mas no Brasil, ate mesmo em grandes cidades, grilagem eh legalizada para que o conflito exista eternamente. Usar a forca contra a populacao paga muito bem… para pouquissimos.

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