Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

Programa nº 1591

>>A criatividade sem limites
>>Rediscutindo a liberdade de imprensa

Por Luciano Martins Costa em 14/07/2011 | comentários

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A criatividade sem limites

Os assinantes do Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo que moram na região metropolitana da capital paulista foram surpreendidos, nesta quinta-feira, dia 14, ao receberem seus jornais organizados de maneira diferente.

Em lugar do primeiro caderno, os jornais exibiam o caderno “Economia & Negócios” – no caso da Folha, “Mercado” – impresso em cor assemelhada à do logotipo de um banco.

Três anúncios davam conta do motivo: o anunciante estava celebrando o prêmio de “banco mais sustentável do mundo”, oferecido pelo jornal britânico Financial Times e o IFC, braço financeiro do Banco Mundial.

Na Folha de S.Paulo, um texto acima do primeiro anúncio explicava aos leitores: “Informe publicitário – os assinantes da Grande SP recebem hoje a Folha na ordem diferente da habitual, com o caderno Mercado abrindo o jornal e impresso em outra cor”.

Os editores do Estadão não tiveram o mesmo cuidado, e muitos leitores devem ter considerado que o conteúdo era um falso noticiário, como acontece eventualmente nas edições de domingo, com o primeiro caderno envolvido por uma folha de propaganda.

Esse tipo de iniciativa, fruto da criatividade de publicitários, tem se tornado muito comum com o aquecimento da economia e a necessidade de diferenciar as mensagens comerciais dos anunciantes.

No entanto, eventualmente falta algum cuidado em preservar o conteúdo jornalístico.

A atenção da Folha, que o Estadão não teve, de alertar o leitor sobre a mudança, já é alguma coisa, mas ainda convém refletir sobre os limites das intervenções da área comercial no território do jornalismo.

Um caderno de negócios é sempre vulnerável a interpretações sinuosas sobre a influência de bancos e grandes empresas, e a vinculação de todo o conteúdo às cores do anunciante pode afetar a credibilidade do noticiário.

Os jornais já sofrem, de vez em quando, acusações de engajamento incondicional a grupos políticos e se posicionam sem reservas em favor de um viés qualificado genericamente de “valores liberais”, fugindo de debates importantes para a sociedade.

Além disso, resistem a qualquer proposta de regulamentação e ignoram os desmandos do setor – como nos casos de falência de empresas jornalísticas que deixaram milhares de profissionais desprovidos de seus direitos trabalhistas nos últimos anos.

Pintar suas páginas de notícias com as cores do anunciante pode não ser uma idéia assim tão criativa.

Rediscutindo a liberdade de imprensa

O noticiário internacional destaca a decisão do magnata australiano de imprensa Rupert Murdoch de abandonar seu projeto de assumir o controle da maior rede de TV por satélite da Grã Bretanha.

Envolvido no escândalo que levou ao fechamento de um de seus jornais, o News of the World, Murdoch decidiu sair de cena por algum tempo, e seus executivos consideram que este não é o melhor momento para aumentar sua participação na provedora de TV paga British Sky Broadcast, conforme vinha sendo anunciado.

Murdoch vai enfrentar investigações também nos Estados Unidos, onde sua empresa News Corp.é acusada de haver tentado grampear as comunicações de vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001.

O jornal panfletário de Murdoch na Inglaterra vinha sendo acusado há muito tempo de espionar ilegalmente celebridades, inclusive com o uso de escuta telefônica e invasão de comunicações privadas.

Nas últimas semanas, porém, revelou-se que jornalistas do tablóide News of the World subornaram policiais e invadiram a privacidade de pessoas comuns, vítimas de crimes, para obter informações exclusivas.

Uma das vítimas, uma menina que havia sido sequestrada, teve seus telefonemas grampeados e o jornal seguiu publicando trechos de suas conversas gravadas, mesmo depois que ela foi assassinada, produzindo falsas esperanças em sua família.

Foi o limite para a liberdade absoluta de imprensa.

Artigo do New York Times, reproduzido nesta quinta-feira pelo Estadão, afirma que o caso provocado pelo estilo jornalístico de Murdoch pode marcar um ponto de virada nas relações entre imprensa e sociedade.

A revolta do público com os abusos da imprensa sensacionalista tem sido tão grande que pode afetar as regras de funcionamento das empresas jornalísticas na Europa.

O artigo lembra que o primeiro-ministro britânico, David Cameron, foi obrigado a mandar abrir inquéritos e declarou que a tradição de autorregulação da imprensa britânica fracassou.

A imprensa tradicional da Inglaterra começa a reagir às ameaças de mudança nas regras, mas o debate público escancara as dificuldades de manter indefinidamente sem limites a liberdade de expressão através da imprensa e ao mesmo tempo assegurar o direito à privacidade.

Esse debate deve ser a melhor contribuição que, por vias tortas, o aventureiro australiano terá dado à imprensa de todo o mundo.

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