Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

Programa nº 1707

>>A espuma das retrospectivas
>>O best-seller invisível

Por Luciano Martins Costa em 27/12/2011 | comentários

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A espuma das retrospectivas

Este é o período do ano em que a imprensa brinda seu público com as alentadas retrospectivas e com ambiciosas perspectivas para o futuro próximo.

Dadas certas características do noticiário, porém, é aconselhável que o leitor não leve muito a sério tudo que lê.

Se considerar as edições desta terça-feira, dia 27, do Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo, por exemplo, terá de escolher entre duas alternativas para o mesmo acontecimento.

No Estadão, “número de homicídios sobe pelo segundo mês em São Paulo”.

Na Folha, a manchete festiva garante que “homicídio cai e roubo de veículos sobe em São Paulo”.

O Estadão afirma ainda que o número de latrocínios – roubos seguidos de morte – ocorridos até novembro deste ano supera o total de 2010 em 15% em todo o Estado. A tendência de alta também se repete na capital.

A diferença entre os números dos dois jornais paulistas é o período escolhido para as comparações.

A Folha compara novembro de 2011 com novembro de 2010, enquanto o Estadão leva em conta os dados do ano inteiro.

Evidentemente, cada editor escolhe os itens que quiser no conjunto de estatísticas.

Ao isolar os dados de novembro, menos preocupantes, a Folha de S.Paulo revela sua predisposição para poupar a imagem do governo paulista.

Considera essa sua versão das estatísticas do crime em São Paulo mais importante do que o fato de a economia do Brasil ter superado a da Grã-Bretanha, tornando-se a sexta maior do mundo – essa foi a manchete do Estadão e do Globo.

O mesmo critério questionável é seguido por todas as publicações quando ocorre a seleção dos assuntos considerados mais relevantes no ano que termina.

O falecido economista Roberto Campos deu ao leu livro de memórias o título de Lanterna na popa. E explicou que tirava as palavras de uma frase do filósofo britânico Samuel Taylor Coleridge: “a luz que a experiência nos dá é a de uma lanterna na popa, que ilumina apenas as ondas que deixamos para trás”.

O livro de Roberto Campos é considerado por alguns como uma autobiografia, mas ele mesmo o considerava apenas um livro de memórias – e memórias muito seletivas.

O problema com as retrospectivas da mprensa é que iluminam apenas o que a imprensa quis ver, do jeito que ela viu.

Por essa mesma razão, essas coletâneas de notícias velhas não trazem o que a imprensa não quis ver.

O best-seller invisível

Ninguém vai ler, por exemplo, nas retrospectivas sobre o mercado editorial, que o livro A privataria tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., representa um fenômeno de vendas neste final de ano.

Conforme destaca o portal Comunique-se, é o segundo mais vendido de acordo com as listas das livrarias Cultura, Publifolha e Saraiva, além do site especializado Publishnews, perdendo apenas para o best-seller internacional Steve Jobs, de Walter Isaacson.

No entanto, o livro polêmico é completamente ignorado pelo ranking dos vinte mais vendidos da revista Veja.

Aliás, não fosse por um artigo de um historiador publicado nesta terça-feira pelo Globo, a obra do jornalista Ribeiro Jr. teria passado em branco pelas páginas dos principais jornais do país.

Para o indignado historiador, A privataria tucana “foi produzido nos esgotos do Palácio do Planalto”.

Afora esse verdadeiro primor de destempero verbal, o livro segue na geladeira das redações e, logicamente, ignorado nas retrospectivas ao longo dos tempos.

Exceção feita ao blog do jornalista Paulo Moreira Leite, no site da revista Época (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed674_sobre_um_livro_polemico).

Donde se conclui que essas retrospectivas, como diria Roberto Campos, são apenas espuma de águas servidas.

Observatório na TV

A edição especial do Observatório da Imprensa desta terça-feira, dia 27, vai fazer uma reflexão sobre o ano de 2011 e debater as perspectivas para 2012.

Com a diferença de que o objeto da análise não é apenas a coleção de fatos destacados pela imprensa, mas também a própria imprensa e aquilo que ela desprezou.

Este programa é apresentado pelo quarto ano seguido. Neste ano, porém, há uma pequena alteração: além do jornalista Claudio Bojunga e do economista e ecologista Sérgio Besserman, teremos a participação do escritor Affonso Romano de Sant'Anna, que substitui o cientista social Renato Lessa entre os debatedores.

Entre os temas em destaque estarão a crise econômica mundial, questões políticas daqui e do exterior, um panorama sobre a América do Sul, ambientalismo e outros assuntos que encheram o noticiário em 2011.

O Observatório da Imprensa vai ao ar às 22 horas, em cadeia nacional pela TV-Brasil. Em São Paulo, pelo canal 4 da Net e 116 da Sky.

 

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