Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

Programa nº 1930

>>A estratégia do confronto
>>O medo gera violência

Por Luciano Martins Costa em 06/11/2012 | comentários

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A estratégia do confronto

O surto de violência que assusta os paulistanos tem um símbolo, registrado nos jornais desta terça-feira, 6 de novembro: Amanda, 10 anos, foi morta por um bombeiro assustado que tentava impedir um assalto.

De quebra, o agente público acertou ainda um segurança que passava pelo local.

Um dos ladrões, de apenas 16 anos de idade, morreu na hora. O outro, de 18 anos, foi preso em seguida.

Na mesma edição, os jornais seguem anotando as contas dos assassinatos: desde a noite de domingo, treze pessoas haviam sido mortas na região metropolitana de São Paulo.

O noticiário tem diferenças de estilos e intenções.

Globo faz um relato das mortes, citando o caso da menina Amanda, com uma reportagem curta, mas o Jornal Nacional, da Rede Globo, havia dado na noite anterior grande destaque ao crescimento da violência em São Paulo.

Estadão preferiu dar espaço para as negociações entre autoridades estaduais e o Ministério da Justiça, e coloca a morte da menina em segundo plano. A sequência de reportagens da semana passa a impressão de que o jornalão paulista já não se entusiasma com o assunto ou evita expor demais o governo do estado.

Folha de S. Paulo investe mais no episódio da morte de Amanda e oferece aos seus leitores um panorama mais amplo, que permite a formação de opiniões mais densas.

Por exemplo, o leitor pode analisar a curta entrevista do comandante da Polícia Militar na capital paulista, na qual o jornalista levanta uma das questões cruciais para se entender o que está acontecendo: “Os policiais estão mais assustados?”

O comandante, evidentemente, responde que não, mas os leitores certamente são também telespectadores, e viram no Jornal Nacional uma policial, aos prantos, confessar que está morrendo de medo.

A outra pergunta – “O estado perdeu o controle da violência?” – foi respondida com um sofisma sobre a suposta precisão das operações policiais mais recentes.

Outra entrevista, com uma pesquisadora da USP, oferece as respostas que o comandante da PM negou: sim, os policiais estão com medo, o estado pode não ter perdido o controle mas é um grande responsável pelo que está acontecendo.

O medo gera violência

Folha deixa para uma página secundária a cobertura dos entendimentos entre o governo federal e o governador paulista, onde também pode ser lida outra reportagem mais instigante: o delegado-geral de Polícia de São Paulo havia orientado seus subordinados a enquadrar como ações terroristas os ataques das organizações criminosas contra policiais, ônibus e instituições públicas.

O argumento do delegado-geral é de que os atentados que resultam, por exemplo, no incêndio de um ônibus, não têm como alvo a empresa de transporte, mas “a sociedade, o estado democrático de direito”.

Embora o delegado-geral tenha sido desautorizado pelo secretário de Segurança Pública, sua iniciativa demonstra a visão que fundamenta a estratégia oficial para enfrentar a criminalidade e a violência em São Paulo.

Três semanas depois de o próprio governador haver justificado o aumento do número de vítimas em supostos confrontos com a Polícia Militar, com o argumento de que “os que não reagiram estão vivos”, o resultado é o aumento da violência.

Da mesma forma, a iniciativa de usar contra bandidos comuns a Lei de Segurança Nacional, criada em 1983 pela ditadura para combater os inimigos do regime, diz muito sobre o espectro ideológico que orienta essa estratégia.

O raciocínio é simples: pelo Código Penal, quem incendeia um ônibus pega de 6 meses a 3 anos de detenção, por dano qualificado; pela Lei de Segurança Nacional, o ato é interpretado como sabotagem e rende pena de prisão de 3 a dez anos, podendo ser triplicada em caso de morte.

O medo é o pior dos conselheiros. E o medo está conduzindo a estratégia e as ações da polícia paulista.

Numa circunstância em que a orientação dada aos agentes na abordagem de suspeitos alimenta a espiral da violência, a Folha dá uma contribuição melhor ao questionar o primarismo do raciocínio oficial.

Basta uma olhada nas manifestações da população, em mensagens enviadas aos jornais e nos comentários postados sob notícias nos sites informativos, para se notar que a maioria é favorável a ações violentas da polícia.

Mas, como já alertava o escritor Elias Canetti no livro “Massa e poder”, sem consciência de seus direitos, a sociedade se transforma em turba, acabando por agir contra seus próprios interesses.

Se a imprensa ainda tem uma função nobre, trata-se exatamente de manter a sociedade atenta ao que isso significa.

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