Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

Programa nº 1916

Luciano Martins-Costa

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Por Luciano Martins Costa em 17/10/2012 | comentários

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A voz do dono

Estado de S. Paulo resolve enfrentar, na edição desta quarta-feira, dia 17, o que considera os principais desafios da imprensa tradicional ao sul dos Estados Unidos.

Em editorial de rara transparência, o jornal paulista começa por admitir que a imprensa e os meios de comunicação vivem dias atribulados “naquelas partes do mundo com as quais a América Latina aspira a se equiparar”.

Embora isso não esteja explícito, a expressão “aquelas partes do mundo” deve se referir à Europa e aos Estados Unidos, espelhos de civilização do Ocidente, onde jornais, revistas e emissoras de televisão vivem dificuldades para manter o nível de faturamento.

O texto observa que “os meios convencionais de produzir e difundir informações enfrentam, com diferentes resultados, o desafio sem precedentes da revolução tecnológica que criou a internet”.

A partir daí, o editorial deixa explícita a visão conservadora que as empresas jornalísticas desenvolveram sobre o advento da era digital nas comunicações. Cita, por exemplo, o “fenômeno mundial da blogosfera” e das redes sociais, misturando duas etapas bastantes distintas do processo de desenvolvimento das novas tecnologias.

“Blogosfera” é uma expressão que saiu de moda justamente quando novos aplicativos abriram o caminho para o desenvolvimento das redes sociais de relacionamento e informação.

Outro aspecto interessante da manifestação do tradicional jornal paulista é o conceito de jornalismo.

Para o Estadão, o constante fluxo de notícias na internet – “ou o que passa por sê-lo – transformou drasticamente as relações entre a mídia (que, na forma clássica, coleta, organiza, expõe e discute os fatos presumivelmente relevantes para a maioria) e o público (que os consumia com escassa ou nenhuma intervenção no processo)”.

Então, na opinião da imprensa tradicional, apenas organizações como um jornal, revista ou uma emissora de televisão realmente trabalham com notícia, ou seja, produzem jornalismo.

Mas esse padrão está em xeque, admite o texto, o que obriga as empresas de mídia a buscarem atalhos para adaptar seu modelo de negócio.

“Inimigos da mídia”

A partir daí, o editorial abraça a frase do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, dita durante a 68a. Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa, realizada nesta semana em São Paulo, segundo o qual há “um ressurgimento do pensamento contrário à democracia” na América Latina.

Embora, como sociólogo, o ex-presidente devesse detalhar melhor sua afirmação, é de se entender que, na ocasião, falava como político e se dirigia a uma plateia de correligionários.

Mas o editorial poderia avançar mais nesse sentido.

Se o quadro latino-americano se tornou “mais sombrio”, como diz o texto, por conta de movimentos “a pretexto de democratizar o acesso à informação”, o jornal deveria dizer claramente que valor daria a essa expressão.

Se as tecnologias digitais descontroem o conceito clássico de mediação entre os fatos e a sociedade e colocam sob risco o modelo tradicional da imprensa, o que seria, na opinião do jornal, a democratização do acesso à informação?”

Seria uma necessidade da sociedade contemporânea, uma imposição das mudanças tecnológicas, ou apenas uma fantasia política de esquerda?

Mais adiante, o editorial dá uma pista, ao criticar as manifestações em favor do controle social da mídia, bandeira de jornalistas e acadêmicos apoiada por setores do Partido dos Trabalhadores e outros grupos esquerdistas.

“A mídia não pode ser um partido político, esbravejam os petistas”, diz o editorial.

E completa: “Se não opera em regime de concessão, (a mídia) pode ser o que queira – e se entenda com o seu público”.

Ora, eis aqui a chave de toda a controvérsia: o Estadão entende que, como as empresas de comunicação funcionam de acordo com as leis do mercado, podem ser o que quiserem, até mesmo partidos políticos.

O mesmo raciocínio não valeria, porém, para as emissoras de rádio e televisão, que operam por concessão do estado.

A visão segundo a qual só tem valor a informação ou a opinião distribuída sob a chancela de um veículo mediador e distribuidor de conteúdos é que está sendo demolida pela tecnologia.

A outra questão, política, se refere mais propriamente à conveniência ou não de regulamentar a propriedade dos meios.

Como está, empresas que funcionam “segundo as leis do mercado” ficam misturadas com outras que atuam sob concessão pública.

O editorial tem como título “Os inimigos da mídia”.

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