Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

Programa nº 1610

>>Crise, corrupção, complexidades
>>Uma nova base conceitual

Por Luciano Martins Costa em 10/08/2011 | comentários

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Crise, corrupção, complexidades

O cruzamento de duas crises nas páginas dos jornais – a crise econômica global e a crise política produzida no Brasil pelo combate à corrupção – proporciona uma oportunidade valiosa para observar como funciona a Teoria da Complexidade na análise imediata de acontecimentos de interesse público.

(Essa é, afinal, uma das funções principais da imprensa).

No primeiro caso, o modelo serve para explicar como se comporta o conjunto dos protagonistas do mercado de ações e como o sistema reage à ação externa das autoridades monetárias.

No segundo caso, pode-se observar como as forças da corrupção se rearticulam em torno de seus interesses específicos quando uma ação externa supostamente em favor do interesse público desequilibra  o sistema de partilha interna de benefícios.

Esse exercício poderia ser praticado todos os dias nas redações, e pelo menos uma tentativa de implantar essa metodologia foi feita na imprensa brasileira, mas não chegou a prosperar.

O projeto chamou-se “DNA da História” e foi ensaiado no Estadão, no início dos anos 1990.

Tratava-se de estimular os editores a fazer sempre uma comparação dos fatos presentes com circunstâncias anteriores correlatas, por semelhança ou por divergência, para tentar entender o peso de cada dia diante da História.

Ao mesmo tempo, tentava-se cruzar os temas das editorias, fazendo com que o noticiário esportivo, por exemplo, levasse em conta fatores econômicos e políticos, ou avaliar os efeitos de fatos econômicos na vida cotidiana noticiada no caderno local, e assim por diante.

Com essa visão se poderia avaliar com mais precisão o peso histórico dos eventos, em vez do vicioso processo de qualificar cada novo acontecimento como “o mais mega” de todos.

Não se trata da prática corriqueira de escolher um ponto determinado na cronologia dos fatos para fazer comparações estatísticas, muitas vezes para fundamentar pressupostos – modelo de que a imprensa brasileira adora abusar.

Trata-se de submeter a realidade como um todo ao crivo da análise complexa, tendo sempre como pano de fundo o conjunto de valores aos quais deve estar dedicada a atividade jornalística.

Esse painel de valores e princípios, e não as preferências pessoais dos editores, permitiria, em tese, uma ponderação mais correta entre os fatos, reduzindo o efeito das idéias preconcebidas sobre as escolhas de edição.

Uma nova base conceitual

Tudo isso para lembrar que tanto os investidores no mercado de ações como os políticos que protagonizam escândalos pelo país afora agem como os cardumes descritos na Teoria da Complexidade: são sistemas complexos adaptativos que se conduzem sempre conforme padrões específicos embutidos em seus modelos mentais.

Observe-se, por exemplo, como se comportam os cardumes da política, sejam eles da situação ou da oposição, sejam peixes grandes ou miudos, e o conjunto que chamamos de mercado: o que os une é a identidade agregada e uma noção clara dos benefícios que procuram, onde e como alcançá-los.

Quando esses protagonistas, movendo-se em cardumes, se dirigem para objetivos que contrariam o interesse da sociedade, teoricamente a imprensa tem o dever de contê-los, tornando públicos seus movimentos para que as instituições competentes possam agir rapida e eficazmente, com apoio da chamada opinião pública.

Mas quando a imprensa se move pela mesma lógica dos cardumes, o que produz é o descrédito na capacidade do complexo social de resolver os vícios que provocam essas crises na política e na economia.

A imprensa – assim como muitas instituições públicas – é vítima de uma “ilusão de controle”, e seus agentes não parecem perceber os limites da gestão do conhecimento que precisam aplicar em suas funções.

Paradoxalmente, quanto mais complexo o contexto, mais se manifesta essa ilusão de controle: é nas crises e nos momentos de maior tensão que os dirigentes das empresas de mídia “descem” às mesas de edição (muitas vezes através da presença impositiva de editorialistas em meio aos editores), para assegurar que o noticiário não escape da visão que consideram adequada.

Em vez disso, ensina a Teoria da Complexidade, deveriam deixar que a redação, como organismo dinâmico e inteligente, encontre seu próprio caminho através da capacidade de auto-organização.

A interação entre repórteres e editores, das editorias entre si e do jornal com seu público é uma das formas de gerar essa capacitação.

A imprensa precisa de uma nova base conceitual para interpretar o mundo contemporâneo.

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