Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

Programa nº 1592

>>Crônica do desastre anunciado
>>A teoria da invasão americana

Por Luciano Martins Costa em 15/07/2011 | comentários

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Crônica do desastre anunciado

O jornal O Estado de S.Paulo divulga nesta sexta-feira, dia 15, estudo do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia, Imazon, revelando que a taxa anual de desmatamento deve aumentar 10,5% de agosto deste ano até julho de 2012 em relação ao índice observado no período entre 2009 e 2010.

A previsão é feita com base num modelo computacional que analisa o padrão do desmatamento ocorrido no passado e considera elementos facilitadores da ação dos predadores, como a proximidade de rios navegáveis, estradas e clareiras das áreas mais visadas.

Segundo esse estudo, nada menos do que 7.134 km2 de florestas poderão desaparecer nos doze meses a partir de agosto.

A maior parte desse território se encontra no estado do Pará, mais precisamente nos municípios de Pacajá, Altamira e São Félix do Xingu.

Nesse triângulo, localizado na região central do estado e conhecido como Terra do Meio, a expansão das manchas de desflorestamento é estimulada pelas condições favoráveis à retirada da madeira e pela natureza do terreno, com declives.

Cerca de 65% do desmatamento ocorre em fazenda particulares e 24% em assentamentos.

A Terra do Meio é uma região de floresta tropical amazônica cuja preservação tem sido objeto de disputa entre os órgãos ambientais e organizações do agronegócio.

Em 2005, o governo criou uma estação ecológica entre São Félix e Altamira, que os fazendeiros tentaram impedir por meio de uma ação legal.

No começo de 2010, o Supremo Tribunal Federal negou, por unanimidade, o pedido de anulação do decreto que criava a área de preservação.

No texto do processo pode-se observar que um dos argumentos utilizados pelos fazendeiros é exatamente igual ao que ilustra o relatório do deputado Aldo Rebelo (PCdoB) em sua proposta para flexibilizar o Código Florestal: a tese de que a criação de reservas e outras áreas de proteção é fundamentada em interesses de entidades “que ambicionam internacionalizar a Amazônia”.

Por trás dos desmatadores há uma curiosa mistura de capitalismo predador nacionalista com a obsessão anticapitalista de uma esquerda que vê a mão do imperialismo por trás de organizações não governamentais dedicadas à preservação do patrimônio ambiental.

Mas o verdadeiro inimigo do interesse nacional é muito brasileiro, tem endereço fixo e uma representação muito ativa em Brasília.

A teoria da invasão americana

A Terra do Meio costuma ser citada pelos adeptos da teoria conspiratória adotada por Rebelo como local onde vagueiam misteriosos agentes do imperialismo americano.

Mas a ameaça à floresta não se limita a essa região, lugar de históricos conflitos ligados à ocupação da terra.

O estudo do Imazon mostra que também ao longo da Transamazônica (BR-230) e da rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163) crecem exponencialmente as áreas potenciais de desmatamento, com previsão de grandes perdas nos próximos doze meses.

A nova ferramenta de monitoramento permite identificar pontos futuros de concentração das motosserras, mas a defesa efetiva da floresta não se dá apenas no local, com a intensificação e melhor direcionamento da fiscalização.

Uma das trincheiras mais importantes da preservação do patrimônio ambiental é a opinião pública, e nesse sentido joga papel relevante a atitude da imprensa.

Com a farta disponibilidade de documentos e estudos sobre a urgência ambiental do planeta, divulgados a partir de fevereiro de 2007 com o relatório do IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – houve grande conscientização dos jornalistas sobre o valor da Floresta Amazônica.

A evolução do conhecimento e da preocupação da imprensa brasileira com relação ao meio ambiente vem sendo constatada há uma década por meio de pesquisas de iniciativa do Instituto Ethos.

No entanto, falta uma ação coordenada que mostre à sociedade a necessidade de um projeto de desenvolvimento sustentável para a Amazônia e outras regiões sob risco.

O tema andou frequentando o noticiário durante a campanha eleitoral de 2010, principalmente por conta da candidatura da senadora Marina Silva a presidente da República.

Mas depois das eleições o assunto passou a depender de eventos isolados, como os conflitos nas obras de usinas hidrelétricas, e foi insuflado no noticiário pelas declarações do deputado Aldo Rebelo, que apenas popularizam teorias conspiratórias antinacionalistas e não esclarecem a opinião pública.

A defesa da Amazônia é questão de soberania nacional, mas não contra supostos inimigos externos.

Colocar em debate os projetos de desenvolvimento sustentável para aquela região do país é a melhor alternativa para esclarecer a sociedade, e essa é uma tarefa para a imprensa.

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