Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

Programa nº 1769

>>Duas entrevistas, uma mensagem
>>Redações homogêneas

Por Luciano Martins Costa em 26/03/2012 | comentários

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Duas entrevistas, uma mensagem

Não há grandes mistérios na entrevista da presidente Dilma Rousseff à revista Veja, publicada na edição desta semana.

Para dar um tom direto às observações que se seguem, é útil fazer a análise semiótica e semiológica da capa da revista: o que chama primeiro a atenção do leitor é a fotografia da presidente, com expressão confiante e serena, os reflexos nos cabelos destacando a altura da fronte, a cor e textura da pele trabalhadas com precisão para deixar as rugas discretamente sob a sombra, o sorriso destacado naturalmente pelo brilho do batom.

Os textos escolhidos para apresentar a entrevista não poderiam ser mais expressivos: são frases nas quais ela descarta adotar ou ampliar o protecionismo na economia para proteger a indústria nacional, reconhece que é alta a carga de impostos e promete baixa-la, reafirma que não vai transigir com a corrupção e assegura que o Brasil vai fazer a melhor de todas as Copas do Mundo.

Vista a alguma distância, a capa da revista lembra antigos cartazes da imprensa soviética e o estilo pictórico do “realismo socialista”.

De certa maneira, combina com o estilo adotado pela revista nos últimos anos – embora posicionada no extremo oposto do painel ideológico, sua linguagem dogmática explicita, nos textos e imagens escolhidos pelos editores, a intenção de delimitar a interpretação da mensagem àquilo que configura as crenças e valores da própria revista.

Ou seja: Veja parece um ícone do realismo socialista a serviço da fantasia capitalista – encarna os dois lados históricos da ilusão do controle.

Portanto, não importa quem esteja sendo entrevistado: o retrato que vai ser feito dessa personagem terá que passar pela sala de maquilagem e modelação da redação de Veja.

No caso da entrevista com a presidente da República, deve-se acrescentar à análise um elemento que parece dissonante mas que na verdade ajuda a aprofundar a compreensão do fato jornalístico, no sentido amplo da apreensão e conjugação de seus significados.

Trata-se do texto na faixa superior da capa, logo acima do enunciado sobre a entrevista. Ali, noticiando a morte de Chico Anysio, os redatores escolheram uma frase do humorista cujo simbolismo ganha maiores dimensões quando lida no conjunto da edição: “Aplaudam, amigos, a comédia terminou”.

Redações homogêneas

Antes de se afirmar que Veja mudou, que resolveu se aproximar da presidente da República para tentar entende-la melhor, é conveniente fazer uma pequena digressão sobre o sentido da palavra comédia e sobre o significado que lhe deu Chico Anysio.

A comédia grega, nascida nos cortejos em que a imagem de um falo era desfilada pelas ruas como símbolo jocoso de fertilidade, é essencialmente um jogo de enganos.

Também pode ser útil lembrar a Commedia dell’Arte italiana, na qual os protagonistas viviam presos a seus personagens por toda a vida.

Chico Anysio, com suas múltiplas personagens aos quais estará ligado enquanto for lembrado, é, portanto, uma chave interessante para analisar a presente edição de Veja: a afirmação de que a comédia terminou é apenas uma parte da pantomima, uma vez que a comédia não tem fim.

Entre teorias conspiratórias e considerações mais ou menos pragmáticas sobre conveniências de negócio nas escolhas editoriais da revista, convém ler também a entrevista de Roberto Civita, dono da Editora Abril e fundador de Veja (ver http://www2.valoronline.com.br/cultura/2572722/nao-preciso-agradar-todo-mundo) ao jornal Valor Econômico, publicada na edição da sexta-feira, dia 16.

Nela, muito à vontade, Civita faz a defesa do modelo da publicação, afirmando, sem concessões, que não precisa “agradar a todo mundo”.

A revista Veja, segundo seu dono, é isso mesmo: uma publicação que defende sem concessões um certo modelo de capitalismo e que não vê necessidade de publicar o “outro lado” quando se trata de questões de opinião.

No trajeto entre a entrevista de Civita ao Valor e a entrevista da presidente da República a Veja se encontra a verdade da imprensa tradicional do Brasil: ela concebe o mundo como um reflexo das crenças ideológicas de seus controladores, não tem a menor intenção de oferecer espaço a reflexões que conduzam a interpretações diversas, não admite aberturas para o olhar heterodoxo.

Civita se orgulha de haver atraído o tipo ideal de jornalista para sua empresa, considera uma qualidade possuir redações homogêneas e não acha que precisa fazer mudanças na sua estratégia.

O resto é comédia.

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