Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

Programa nº 1767

>>Economia e comportamento
>>Mudam os fatos, não o modelo

Por Luciano Martins Costa em 22/03/2012 | comentários
Texto de apoio: 'L’Innocente e i carnefici', de Ezio Mauro, La Repubblica (27/8/2004)

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Economia e comportamento                    

A observação da imprensa é atividade que oferece poucas surpresas, dada a regularidade das escolhas dos editores.

Mas a análise de padrões regulares também pode produzir revelações instigantes.

Por exemplo, nesta quinta-feira, dia 22, um dos destaques dos jornais nas áreas de economia e negócios é o fato de que a indústria de cosméticos O Boticário supera o McDonalds em faturamento e se transforma na maior franquia do Brasil.

Diga-se, a maior franquia formal, porque o tráfico de drogas segue sendo a maior rede nacional de negócios, cuja informalidade pode ser contestada pela forte influência que exerce sobre instituições tão formais quanto a polícia, a Justiça e outros poderes.

Talvez o narcotráfico tenha como competidores apenas o jogo do bicho e o negócio de almas dirigido por exploradores da fé.

O crescimento do Boticário tem algo a ensinar sobre mudanças de comportamento da população brasileira, com a ascensão da nova classe média surgida nas faixas de renda mais pobres, e o maior protagonismo feminino na economia.

Também se pode apreender alguma coisa da notícia sobre a previsão de redução na inadimplência dos consumidores brasileiros, que já se estabilizou e deve cair até o ano que vem.

Essa informação é relevante, por exemplo, nas discussões políticas sobre quem criou a nova economia brasileira, no conjunto formado pela solidez do sistema bancário nacional – produzida nos governos do PSDB – com a ampliação e consolidação do mercado interno, fruto das políticas econômicas e sociais dos governos do PT.

Também faz parte do pacote de notícias o fato de que executivos da empresa petrolífera Chevron e de sua associada Transocean terem sido denunciados pelo Ministério Público por conta do vazamento na bacia de Campos.

O grau da novidade pode ser medido pela reação das empresas, que, habituadas a mandar e desmandar nas províncias petrolíferas, se rebelam contra as multas aplicadas por autoridades brasileiras e com a possibilidade de seus dirigentes virem a ser condenados à prisão.

O recolhimento dos passaportes dos acusados surpreendeu também a imprensa, de certo modo acomodada ao fato de existirem cidadãos acima da lei.

Mudam os fatos, não o modelo

 

Também faz parte da coleção de notícias a queda de 28,8% na produção de caminhões em fevereiro, provocada pelo aumento de preços dos motores, que derrubou a demanda.

Mas os preços aumentaram, segundo os jornais, por causa das novas exigências ambientais com relação aos motores a diesel.

Desde janeiro se encontra em vigor a norma do Proconve –  Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores – que exige a adoção de motores classificados como Euro 5, que consomem combustível com menor teor de enxofre e outros poluentes.

A imprensa se detém apenas na questão mercadológica, noticiando a queda nas vendas, a redução da atividade industrial, negociações com sindicatos para a diminuição dos turnos de trabalho, com férias coletivas e outras medidas.

Mas há poucas referencias ao fato original, aquele que obrigou a Petrobras a assumir o compromisso para produzir e distribuir em larga escala o óleo menos poluente e forçou a indústria de motores a abandonar os modelos obsoletos e participar do esforço pela modernização do setor.

No meio das controvérsias, a Petrobras chegou a ter suas ações excluídas do Indice de Sustentabilidade Empresarial da Bolsa de Valores, em dezembro de 2008, num embate que misturou ambientalismo com idiossincrasias políticas.

A ênfase nos aspectos negociais e econômicos e a omissão quanto às origens do fato noticiado – a crescente preocupação da sociedade brasileira com o problema ambiental – demonstram que muitos editores ainda não estão convencidos de que todas as atividades humanas precisam se adaptar às demandas criadas pelas mudanças climáticas.

Ou será que a imprensa quer fazer o leitor acreditar que a indústria de motores foi surpreendida pela obrigatoriedade de abandonar tecnologias obsoletas e elevar a qualidade dos motores de caminhões e ônibus ao nível dos produtos que vendem na Europa?

Além disso, qual é mesmo o peso do mês de fevereiro, tempo de carnaval e trecho mais curto do calendário, nas médias de venda?

Como se pode observar, é na regularidade dos padrões que se constata como os fatos podem mudar sem que se altere o modo como eles são noticiados.

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