Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

Programa nº 2071

>>Luto na imprensa
>>Os princípios e o mercado

Por Luciano Martins Costa em 28/05/2013 | comentários

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Luto na imprensa

Uma semana depois da morte de Ruy Mesquita, diretor responsável do Estado de S. Paulo, e passados os funerais de Roberto Civita, publisher da revista Veja e presidente do conselho de administração do Grupo Abril, é possível fazer uma aproximação crítica dos empreendimentos jornalísticos que eles dirigiram e de seus papéis na história recente da imprensa brasileira.

Mesquita e Civita representam uma antítese no negócio de mídia: o primeiro quase se orgulhava de não entender de administração, o segundo gostava de se apresentar como a combinação perfeita  de jornalista e empresário. 

Ainda no período de shivá, quando a família se recolhe para os primeiros dias de luto, os herdeiros de Roberto Civita não dão sinais de mudança na estratégia das empresas do grupo dedicadas ao jornalismo.

A Editora Abril investiu em sistemas de publicação multiplataforma, para enfrentar o desafio de colocar o conteúdo de suas revistas nos novos meios digitais e usar recursos de vídeo para reforçar a relação com seus leitores.

Mas o fantasma dos custos continua assombrando as redações e os meios digitais não prometem receita suficiente.

A empresa vem promovendo cortes sucessivos de sua força de trabalho: em dezembro, foram demitidos cerca de 150 funcionários, a propósito de ajuste no balanço, e a morte de Roberto Civita ocorre em meio a boatos sobre novas perdas de mão de obra. 

Dois meses antes dessas demissões massivas, a empresa havia divulgado uma pesquisa sobre a eficácia da publicidade em revistas, com informações auspiciosas.

Entre esses dados, que a Abril vem divulgando a anunciantes, estariam afirmações de que 68% dos leitores usam as revistas para escolher marcas de produtos, 62% têm suas compras influenciadas por revistas e 45% indicaram um produto anunciado a um amigo.

No entanto, os números sinalizam que o meio revista vem perdendo participação no bolo publicitário, tendo cedido o terceiro lugar para a internet no início deste ano. 

O problema em relação à estratégia do grupo Abril no mercado jornalístico não depende mais de como vai enfrentar o desafio das novas tecnologias de comunicação: esse passo já foi dado há dez anos, e na direção errada, quando a empresa decidiu frear os investimentos no projeto digital iniciado com o provedor e portal Brasil Online.

Os movimentos seguintes tratam de  resguardar os outros setores do grupo, especialmente o ramo da educação. 

Os princípios e o mercado

No caso do Estado e de seu falecido diretor responsável, o problema se resume a uma frase dita por Ruy Mesquita em 2004, quando recebeu o Prêmio Personalidade da Comunicação: "Só sobreviverão, no futuro, os jornais que se tornarem leitura indispensável de certos setores da sociedade, as classes dirigentes – os empresários, os intelectuais, os políticos – sem a pretensão de concorrer em termos de números de circulação, com as audiências da internet ou mesmo da televisão".

Essa assertiva, correspondente a uma declaração de guerra ao sucesso comercial, orientou o jornal na direção do encolhimento e da entropia. 

Os obituários e a profusão de manifestações fúnebres que se seguiram ao falecimento de Mesquita destacaram seu apreço pela liberdade de expressão, seus princípios e suas sólidas convicções ideológicas.

Na ocasião em que proferiu a frase, que bem poderia servir de epitáfio para algumas empresas jornalísticas, ele também teve oportunidade de manifestar seu desprezo pela imprensa sem princípios, que identificou explicitamente na pessoa do empresário australiano Rupert Murdoch.

Para Ruy Mesquita, a "murdoquização" do jornalismo é que estava matando a imprensa. 

Acontece que bons princípios tendem a se depreciar se embarcados numa estratégia que desconhece o dinamismo da História e da cultura.

Quantos exemplares venderia um jornal que se dirigisse somente a "certos setores da sociedade" – uma elite que, necessariamente, teria que concordar com os princípios e convicções do editor?

Quanto valeria a publicidade veiculada num jornal assim, na concorrência com os multimeios oferecidos pela tecnologia digital? 

O Brasil é um país de classe média, essa porção majoritária da população se descola progressivamente da tutela de suas elites tradicionais e mergulha na experiência dos relacionamentos horizontais,  sem mediadores institucionais.

Folha de S. Paulo, que é subsidiada pelo UOL, a empresa digital do grupo, percebeu essa mudança há muito tempo.

O grupo Globo tem recursos para corrigir sua rota.

Os demais vão para a fila dos figurantes.

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