Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

Programa nº 2412

>>O Brasil sem educação
>>Ignorância e preconceito

Por Luciano Martins Costa em 22/09/2014 | comentários

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O Brasil sem educação
 
O erro constatado em um conjunto de planilhas da Pesquisa Nacional 
 
por Amostragem de Domicílios (Pnad), com os números de 2013, 
 
divulgados na quinta-feira (18/9) pelo IBGE, foi pouco explorado pela 
 
imprensa no final de semana.
 
Na verdade, os dados produziram um curioso editorial no jornal O 
 
Estado de S. Paulo, que reconhece nesta segunda-feira (22/9) uma 
 
melhora gradual nas condições de vida do brasileiro nos últimos anos 
 
e contradiz as manchetes negativas publicadas na sexta-feira sobre o 
 
mesmo assunto.
 
A correção de informações sobre o índice de Gini, que mede a 
 
desigualdade de renda domiciliar, elimina o argumento usado pela mídia 
 
tradicional para desqualificar a política econômica e os projetos sociais 
 
do governo.
 
Com os números corretos, a imprensa se vê obrigada a voltar atrás e 
 
afirmar, ainda que de forma dissimulada, que "vive-se melhor no Brasil", 
 
como diz o editorial do Estado.
 
Evidentemente, como não podia deixar de ser, a mídia observa que 
 
ainda há muito a fazer, principalmente no que se refere ao resgate das 
 
populações que ainda vivem em condições degradantes.
 
O erro cometido por técnicos do IBGE será apurado em cerca de trinta 
 
dias, segundo anunciam os jornais.
 
Mais interessante do que isso, porém, é constatar como a imprensa, 
 
em peso, recebeu e digeriu gostosamente os indicadores errados, 
 
aproveitando-os para criticar a política econômica e social, sem 
 
perceber que havia ali uma contradição importante.
 
A incongruência dos dados sobre desigualdade era evidente, como 
 
destacou este observador na sexta-feira (ver aqui).
 
Nas estatísticas complexas, que medem fatores diversificados, é preciso 
 
ler as relações cruzadas e analisar as tendências, ou seja, leva-se em 
 
conta a direção que os fatos tomam em determinado período, no seu 
 
conjunto e em questões específicas.
 
Por exemplo, no caso da renda média do trabalho é importante 
 
considerar não apenas o valor dos salários formais, mas também a 
 
receita do trabalho informal e a redução da mão de obra infantil.
 
O que a imprensa fez, diante da pesquisa do IBGE, foi garimpar 
 
os dados negativos e publicá-los com destaque, sem considerar o 
 
emaranhado de relações entre os fatores retratados e o contexto geral 
 
de evolução do quadro social. 
 
Ignorância e preconceito
 
Há um aspecto importante no qual os jornais acertaram, mesmo levando 
 
em conta a correção do erro nas planilhas do índice de Gini: o principal 
 
desafio do Brasil é melhorar a qualidade da educação.
 
No entanto, o debate proposto pela mídia tradicional vai na direção 
 
errada: nossa tragédia não é apenas a baixa qualidade do ensino 
 
oferecido pelo sistema escolar oficial – o problema é o analfabetismo 
 
funcional de grande parte da sociedade, incluída a própria imprensa e 
 
seus leitores típicos, que compõem a elite social e econômica do País.
 
Assim como um aluno da escola pública da periferia tem grande 
 
dificuldade para elaborar um texto compreensível ou para compreender 
 
um texto de relativa complexidade, boa parte dos brasileiros com muitos 
 
anos de escolaridade sofre de um grave bloqueio na hora de ler a 
 
realidade nacional.
 
Entre esses analfabetos funcionais pode-se alinhar um enorme 
 
contingente de jornalistas, muitos deles assentados em cargos de 
 
responsabilidade nas redações ou agraciados com espaços generosos 
 
nos principais meios de comunicação.
 
O típico estudante da periferia tem dificuldade para compreender um 
 
texto de geografia, tanto quanto um assinante de jornal tem dificuldade 
 
para fazer a leitura crítica do texto jornalístico.
 
As duas deficiências têm origens diferentes, mas produzem um 
 
fenômeno comum de má educação: o analfabeto funcional que não sabe 
 
interpretar um texto e uma elite que se nega a conhecer a realidade.
 
Num caso, falta vocabulário; no outro, sobram preconceitos.
 
A mídia tradicional deseduca um e outro com sua pauta de futilidades, 
 
seu conservadorismo e seu viés reacionário.
 
A educação precisa ser vista como uma das funções da comunicação.
 
Trata-se de capacitar os indivíduos para que construam um pensamento 
 
da realidade o mais próximo possível da natureza da realidade.
 
Nesse sentido, deve-se fazer com que a tarefa de educar seja ampliada 
 
do ambiente escolar para toda a sociedade, e a imprensa deveria ter um 
 
papel fundamental nessa missão.
 
Mas e imprensa não pode educar se ela não tem educação.

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