Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

Programa nº 1729

>>O cartunista fantasiado
>>Uma questão para o Supremo

Por Luciano Martins Costa em 27/01/2012 | comentários

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O cartunista fantasiado

A Folha de S.Paulo traz para suas páginas, nesta sexta-feira, dia 27,  um incidente protagonizado por seu cartunista Laerte Coutinho, que desde 2010 se exibe em público vestido de mulher. Laerte não se assume homossexual, apenas se declara adepto do “cross-dressing”, ou a prática de se vestir como o gênero oposto.

Travestido, Laerte comparece com alguma frequência a uma pizzaria na zona Oeste de São Paulo, costumeiramente acompanhado de sua namorada. Numa dessas noites, ele foi censurado por um sócio do restaurante por usar o banheiro feminino.

O caso foi parar nas redes sociais, por iniciativa do cartunista, que também anunciou sua intenção de ingressar com ação na Justiça para assegurar seu suposto direito de usar o banheiro que quiser.

Tudo não passaria de mais uma grotesquerie destes tempos em que sexualidade, genitalidade e a obsessão pela exposição midiática se misturam num grande cenário de reality show, não fosse o jornal trazer a querela à suas páginas, com pretensão de transformá-la em polêmica relevante.

Laerte não teve cerceado seu acesso ao restaurante, foi atendido normalmente como qualquer cliente.

Apenas lhe foi solicitado que usasse o banheiro dos homens, pois, no entendimento dos proprietários da pizzaria, sua presença no sanitário feminino havia provocado constrangimento em uma cliente que ali se encontrava com uma filha pequena.

Segundo a Folha, o caso foi parar na Secretaria da Justiça do Estado de São Paulo, depois que Laerte se queixou no Twitter, julgando-se discriminado.

Segundo o jornal, ele recebeu um telefonema da coordenadora estadual de políticas para a diversidade sexual, que lhe teria dado apoio, garantindo que pode reivindicar seus direitos.

O jornal apenas não informa que direitos são esses – se o de andar travestido, de usar o banheiro das mulheres em lugares públicos, ou de se declarar cidadão com dupla cidadania.

Segundo afirmou, o cartunista quer poder escolher qual banheiro usar, conforme seu humor estiver mais feminino ou masculino em cada circunstância.

O caso já mobilizou associações de travestis e transexuais, embora Laerte não se declare nem uma coisa nem outra.

Consultada pela Folha, a presidente da Comissão da Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil declarou que não há uma lei específica para o caso.

Uma questão para o Supremo

Na redação do jornal, colegas do cartunista dizem que ele teve o comportamento alterado após a perda de um filho, morto em acidente automobilístico.

Laerte Coutinho afirma que encontra-se em pleno domínio de suas emoções e elabora uma intrigante teoria acerca da conveniência de romper o que chama de “código da cultura binária”. Vestir-se de mulher sem deixar de se comportar como homem seria uma dessas atitudes que, na sua opinião, poderiam criar uma “cultura alternativa” para a sociedade, cujas regras ele considera limitadoras.

Mas ele não pode reclamar o prêmio no quesito originalidade: por mais que insista na teoria da quebra de tabus, o cartunista não pode escapar ao fato de estar apenas imitando o artista plástico Flávio de Carvalho, que se exibiu em público vestindo saias, como parte de um manifesto artístico, no distante ano de 1956.

Ao se declarar nem homem nem mulher, Laerte Coutinho apenas repete na vida civil o que faz na política o prefeito de São Paulo.

Para evitar interpretações maliciosas, basta lembrar que, ao lançar seu partido, Gilberto Kassab afirmou que o PSD não seria de direita, nem de esquerda e muito menos de centro.

Mas como aqui tratamos de analisar a imprensa, voltemos ao texto da Folha de S.Paulo.

A rigor, o jornal paulista não demonstra ser contra ou a favor das escolhas de vestuário e de banheiros de seu cartunista.

Apenas pretende que o tema seja assunto de interesse jornalístico, da mesma forma como o Globoe demais veículos do grupo Globo pretenderam que fosse tomado como questão relevante na vida real o comportamento de personagens do Big Brother Brasil debaixo do edredon.

Considerando-se a recente carnavalização do Judiciário, é muito provável que a questão do banheiro do cartunista travesti acabe no Supremo Tribunal Federal – e poderíamos então acompanhar um instigante debate entre os senhores ministros sobre o gênero de vestimentas mais nobres, como a batina sacerdoral ou a toga dos magistrados.

Enquanto isso, talvez fosse o caso de a Folha de S.Paulo  produzir um reality show protagonizado por Laerte, através do qual os internautas e telespectadores pudessem opinar na escolha de seus adereços e fazer apostas sobre o banheiro que ele irá usar.

O show não pode parar. Já o jornalismo…

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