Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

Programa nº 1701

>>Os velhos vícios da urgência
>>Jogando o jogo

Por Luciano Martins Costa em 16/12/2011 | comentários

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Os velhos vícios da urgência

Corrupção e crise econômica mundial foram os temas predominantes na imprensa brasileira durante este ano. Se estendermos o período de observação, vamos chegar à conclusão de que o tema corrupção domina o noticiário como pauta mais frequente há pelo menos seis anos, e as instabilidades da economia estão presentes na rotina da imprensa desde setembro de 2008.

No entanto, observa-se que em nenhum momento a imprensa conseguiu ou pretendeu apresentar ao público análises capazes de desvendar tanto as raizes da crise financeira global como a natureza mais profundas da corrupção no Brasil.

O noticiário tem como caracteríticas principais o imediatismo, a superficialidade e a fragmentação. Não se pode esquecer que é da natureza do jornalismo diário o eterno combate entre a urgência e a profundidade. Pois é justamente na resolução desse dilema que reside a capacidade da imprensa tradicional de manter sua relevância no mundo contemporâneo.

O amadurecimento das novas tecnologias de informação deveria ser uma oportunidade para os jornais investirem em grandes reportagens. Pode-se aproveitar as amplas possibilidades da comunicação multimídia na internet, utilizando o meio digital como instrumento para suprir a demanda da urgência, consolidar o tema no meio papel e remeter o leitor de volta à internet para informações complementares, com acesso a bancos de dados, arquivos de som e vídeo, análises e estatísticas.

Mas, nesse período, foram raras as ocasiões em que os chamados jornais de circulação nacional aproveitaram esses recursos para brindar seus leitores com conteúdos mais consistentes.

No caso do noticiário sobre a crise financeira internacional, por exemplo, a imprensa chegou a divulgar informações sobre o comprometimento das agências de avaliação de risco em possíveis fraudes ou omissões que mantiveram o mercado americano de ações aquecido artificialmente.

Mas não seguiu explorando esse filão.

Também foram poucas as referências ao sistema de remuneração dos executivos nos grandes bancos dos Estados Unidos, que levou à estratégia desastrada da busca de resultados em curtíssimo prazo.

Em quase todos os casos, o material mais crítico em relação à falta de sustentabilidade do sistema econômico mundial foi produzido por analistas estrangeiros ou por agências internacionais.

Essa constatação impõe uma conclusão: a imprensa brasileira, de modo geral, se nega a discutir o sistema capitalista.

Jogando o jogo

Quanto ao noticiário sobre a corrupção, é evidente a mesma falha, que se caracteriza pela incapacidade ou desinteresse da imprensa em discutir sistemas.

A maioria das pesqusas de entidades que se dedicam a estudar a ação de oganizações criminosas dentro das instituições públicas – como a Transparência Internacional, Artigo 19, Instituto Ethos, Amaribo ou Movimento Nacional de Combate à Corrupção Eleitoral – apontam para  a compreensão da corrupção como um problema sistêmico e não como uma questão moral circunstancial.

Pois a cobertura da imprensa brasileira se caracteriza pela abordagem pontual, fragmentada e seletiva do tema.

Quando admitem avançar na abordagem, os jornais procuram convencer o leitor de que a corrupção é um fenômeno restrito basicamente ao governo federal, com origem na política de alianças partidárias e no sistema de financiamento de campanhas.

Essa visão produz nos cidadãos um sentimento de indignação difuso, tornando difícil superar a contradição entre a sensação de bem-estar criada pela ação governamental com relação à economia, e o mal-estar produzido pelo noticiário sobre corrupção.

Esses sentimentos contraditórios causam uma indignação sem objeto específico, paralisam a sociedade e desmoralizam a democracia, porque a percepção geral é de que todos os políticos são ladrões ou apenas esperam uma oportunidade para meter a mão no dinheiro público.

Portanto, não há uma direção clara para onde conduzir o desejo de mudança.

Ao mesmo tempo, a imprensa estimula a consolidação de uma cultura política personalista, que dissimula os problemas estruturais do sistema representativo.

Com isso, embora faça campanhas formais em favor da consciência de cidadania, a ação objetiva da imprensa se dá no sentido contrário.

A omissão da chamada grande imprensa brasileira em discutir sistemas segue sendo seu principal pecado.

Pode-se especular sobre as razões dessa deficiência, mas acerta quem imaginar que a imprensa, como sistema corporativo, é beneficiária desse jogo de poder e por esse motivo não tem interesse em reformas no sistema.

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