Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

Programa nº 1706

>>Um drama na fronteira
>>Faltou gente

Por Luciano Martins Costa em 26/12/2011 | comentários

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Um drama na fronteira

Demorou, mas a chamada grande imprensa acabou descobrindo o drama dos refugiados haitianos que se concentram na cidade de Brasiléia, fronteira do Acre com a Bolívia.

É uma página inteira na Folha de S.Paulo nesta segunda-feira, dia 26, contando como centenas de trabalhadores viajam do Haiti e, com ajuda de “coiotes” bolivianos, chegam à cidade brasileira.

Já são 900, na maioria homens de até 40 anos, muitos pedreiros e pintores de parede, vivendo precariamente em um pequeno hotel e em algumas casas alugadas nas proximidades da praça central de Brasiléia.

Oficialmente, eles não devem ser tidos como refugiados, uma vez que não sofrem perseguição política em seu país, esclarece a Folha, mas acabam recebendo o protocolo que lhes permite trabalhar no Brasil por uma questão humanitária.

E é justamente a questão humanitária o ponto central desse drama que foi ignorado durante meses pela imprensa.

A reportagem relatando o Natal dos haitianos no Acre fica devendo em personagens e boas histórias, mas já cumpre a função de registrar a epopéia que eles precisam realizar para tentar um trabalho no Brasil.

Está ali o roteiro da viagem do Haiti até Brasiléia, com um mapa, o dia a dia dos refugiados e o custo da aventura.

Também estão relatados os riscos por que passam, a exploração que sofrem pelo caminho e seus planos de seguir adiante, para cidades onde possam encontrar parentes e amigos que os antecederam.

Mas falta justamente o mais saboroso da pauta: o clima na praça central de Brasiléia, que se tornou uma meca para eles, como uma fortaleza a ser alcançada no caminho para uma vida melhor.

A reportagem da Folha é precisa e objetiva na medida do possível, mas tem dificuldades para descrever o ambiente emocional dos reencontros de amigos, o calor da solidariedade que os acolhe em Brasiléia, as expectativas dos que conseguem terminar a travessia.

Nem mesmo a celebração do Natal, na praça da cidade, com churrasco, refrigerantes e um baile a céu aberto, parece ter animado o repórter.

E não teria sido por falta de assunto: a presença, entre os refugiados, de quase duas dezenas de mulheres grávidas e crianças muito pequenas poderia transferir a reportagem do caráter meramente diplomático para a questão humanitária propriamente dita, muito mais saborosa e até mais informativa.

Faltou gente

O relato da Folha tem o mérito de trazer para a opinião pública dos grandes centros do país um drama que se desenvolve na fronteira amazônica, como reflexo da miséria que assola o país mais pobre das Américas.

Serve como introdução ao noticiário que deverá vir de Brasília, nos próximos dias, sobre o resultado de reuniões que vêm ocorrendo desde a semana passada, destinadas a propor uma solução oficial para o problema.

Sem uma política oficial da ONU, os haitianos que saem de seu país em busca de trabalho no Brasil ficam à mercê de criminosos, que lhes tiram o pouco dinheiro, telefones celulares e as melhores roupas que carregam.

Há muitos relatos, entre eles, de abusos cometidos por autoriddes alfandegárias da Bolívia, principalmente contra as mulheres.

Uma reportagem correta sobre uma questão humanitária não é a reportagem mais correta.

Quadros, mapas, dados, por mais bem organizados e precisos, não contam bem uma história que envolve sofrimento e solidariedade.

Por isso, as duas fotografias publicadas pela Folha dizem mais do que o texto sobre a rotina dos haitianos que esperam por uma autorização de trabalho.

Na primeira página, eles dançam a kompa – dança típica do Haiti – durante a comemoração do Natal na praça central de Brasiléia.

Na foto interna, dois haitianos caminham sob a ponte que une os dois lados da fronteira com a Bolívia.

A primeita revela muito sobre a surpreentende alegria dessa gente que vem sendo castigada há séculos pela escravidão, por tiranias e desastres naturais.

A segunda foto mostra o que os haitianos fazem para passar o tempo: eles caminham e conversam.

Os 900 refugiados formam uma comunidade exótica, numa região onde são raros os descendentes de africanos.

O fato de serem acolhidos pela população de Brasiléia é seguramente a única razão para que essa epopéia não tenha até aqui se transformado em tragédia.

A silenciosa e anônima solidariedade que garante alimento, abrigo, roupas e fraldas para as crianças é uma parte importante dessa reportagem.

Mas parece que o jornalismo contemporâneo, sempre tão rico em planilhas e gráficos, esqueceu que o melhor das histórias são as pessoas.

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