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ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Por Luciano Martins Costa em 17/04/2013 | comentários

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Um retrato assustador

Notícias coletadas aleatoriamente nos jornais desta quarta-feira (17/04) permitem compor um mosaico curioso sobre o campo da comunicação. Observamos aqui a notícia como produto do trabalho jornalístico e seu movimento, a comunicação, como o processo de produção de cultura, ou seja, os produtos da imprensa vistos como tijolos que entram na composição de um determinado momento da História.

Esse retrato não inspira otimismo: para onde se olhe, o observador vai encontrar sinais de retrocesso. 

Do Globo, pode-se colher a informação de que a morte da juíza Patrícia Acioli, ocorrida em agosto de 2011, contou com a cumplicidade de todos os integrantes de um grupamento da Polícia Militar do Rio de Janeiro transformado em ponto de negociações com traficantes.

Segundo o jornal carioca, todos os policiais militares do grupo, inclusive o então comandante, se cotizaram para planejar e executar o assassinato da magistrada que atrapalhava seus negócios.

A constatação de que uma unidade inteira de um batalhão pode ter sido corrompida faz o leitor atento se perguntar em quantos outros quarteis pelo Brasil afora essa praga pode ter sido inoculada. 

Também no Globo, texto e imagens chamam atenção para incidente ocorrido na Câmara dos Deputados, com indígenas protestando contra projeto que tira do órgão especializado, a Funai, a palavra final sobre demarcações de terras e a transfere para… a Câmara dos Deputados.

Por trás dessa proposta pode-se identificar os mesmos dedos ligeiros que quase transformaram a legislação de proteção ambiental em uma licença geral e irrestrita para desmatar.

Finalmente, no mesmo jornal, uma reportagem relata abertura de sindicância contra o presidente do Tribunal da Justiça da Bahia, acusado de mandar pagar precatórios irregularmente, com uma diferença de R$ 448 milhões entre o devido e os valores pagos. 

No Estado de S. Paulo, destaque de página inteira para reportagem segundo a qual o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux, que foi recentemente exposto a uma história vexatória sobre o processo de sua condução à Suprema Corte, relatou três casos e participou do julgamento de pelo menos outros três, nos quais estavam em jogo interesses do escritório de um advogado com o qual tem relações de amizade. 

Pesquisa instantânea

Em tom de escândalo, o texto do Estadão lembra que o ministro havia se comprometido publicamente e oficialmente a não atuar em processos que tivessem seu amigo como uma das partes.

Sergio Bermudes, o dono do escritório em questão, anunciou recentemente que iria bancar a festa dos 60 anos do ministro. Com a repercussão negativa do anúncio, a festa foi cancelada.

Bermudes tem entre seus contratados a filha do ministro Fux, de 31 anos de idade, que é candidata a uma vaga no corpo de desembargadores do Tribunal de Alçada do Rio de Janeiro.

A esposa de outro ministro do Supremo, Gilmar Mendes, também trabalha no mesmo escritório, e Mendes, da mesma forma, não se declara impedido de julgar casos em que Bermudes tem interesse. 

Na Folha de S. Paulo, pode-se apreciar o resultado de uma pesquisa, citada na primeira página, que foi produzida no rastro do assassinato de um estudante por um adolescente que faria 18 anos três dias depois do crime: diz o texto que 93% dos paulistanos consultados se declararam favoráveis à redução da maioridade penal dos atuais 18 para 16 anos de idade.

A consulta instantânea sobre assuntos de grande repercussão é um serviço que o jornal paulista está inaugurando com o tema da responsabilidade penal, e deve ser repetida ao longo do ano. 

Evidentemente, pesquisas como essa, no calor da indignação contra um crime violento, não farão brotar as melhores reflexões dos entrevistados.

Mas a intenção da Folha, assim como da imprensa em geral, não parece ser o estímulo às melhores razões: trata-se apenas de colher o material noticioso com maior potencial de produzir manchetes e repercussões.

Observe-se, por exemplo, que os jornais fazem a cobertura do julgamento do massacre do Carandiru, que ocorreu há mais de vinte anos, como se o fato tivesse acontecido há poucos meses.

No conjunto do noticiário, o mosaico que se compõe mostra o retrato de um país onde a polícia se cotiza para matar uma juíza, a corrupção solapa o Judiciário, parlamentares ligados ao agronegócio atribuem a si próprios a decisão sobre o destino de reservas indígenas, ministros da Corte Suprema se sentem à vontade julgando casos em que familiares são diretamente interessados e um massacre cometido por agentes da lei em ação oficial leva duas décadas para ser julgado.

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