Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

Programa nº 1763

>>Uma crise, todas as crises
>>Cartas para a redação

Por Luciano Martins Costa em 16/03/2012 | comentários

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Uma crise, todas as crises

Os principais jornais de circulação nacional destacam nesta sexta-feira, dia 16, as dificuldades do governo federal, liderado pelo Partido dos Trabalhadores, para manter agregados os parlamentares da base aliada.

Folha de S. Paulo acrescenta que também o governo paulista, conduzido pelo PSDB, enfrenta rebelião em sua bancada.

Esse cenário está provavelmente se repetindo em outros estados e até mesmo nos municípios onde os titulares do poder Executivo tentam manter algum controle responsável sobre seu orçamentos.

Em artigo no Estado de S. Paulo, o deputado federal Fernando Gabeira compara o sistema político das alianças com um navio que afunda.

Esse é o quadro, em pinceladas grosseiras, do sistema de representação política que se construiu no Brasil a partir da Constituinte de 1988.

A Constituição que emergiu do processo de redemocratização, chamado por seu patrono, o desaparecido deputado Ulysses Guimarães, de “Constituição cidadã”, foi resultado daquilo que os políticos e a imprensa chamaram de “sociedade civil organizada”.

Acontece que a “sociedade civil” de então era para poucos. E “organizada” era apenas uma fração dela, a que tinha acesso à imprensa, por afinidade ou pela força da ação militante.

Pode-se afirmar, então, que o sistema organizado pelos constituintes, como a estrutura partidária, servia ao propósito daqueles protagonistas, mas poderia se tornar ineficiente em um quadro social, econômico e demográfico diverso.

Pois esse quadro social, econômico e demográfico diferente é a grande novidade deste século, com o surgimento de uma nova “classe média” cujos integrantes são famílias que, em 1988, estavam excluídas do grande pacto da “sociedade civil”.

O período que se seguiu entre a Constituinte e os primeiros cinco anos do século 21 foi de acomodações que mal dissimularam o jogo de trocas entre os privilegiados participantes do sistema político.

Em crise, a imprensa atuava como árbitro e avalista do “pacto entre iguais”.

Quando, em 2006, ficaram explícitos pela primeira vez os indicadores que revelavam a ocorrência de um inédito fenômeno de mobilidade social no país,  o sistema de organização partidária vivia sua pior crise.

Essa crise foi superada principalmente pela falta de apoio às vozes golpistas pela expressiva parte da população que ingressava, então, na vida civil reconhecida como tal.

Cartas para a redação

Observe-se que o bombardeio da imprensa nunca se dirigiu ao conjunto das mazelas produzidas pelo sistema de trocas e favores, mas a alguns pontos específicos desse conjunto, o que contribuiu para cristalizar a interpretação segundo a qual as empresas de comunicação dominantes formam um partido político de viés autoritário.

Ao relatar as dificuldades atuais da presidente da República e – com menos destaque e menos interesse – também de alguns governantes, a chamada grande imprensa segue falando apenas para os atores, esquecendo-se da imensa plateia que teme as consequências das negociações que se desenrolam por trás dos panos.

O risco de o governo central e dirigentes dos estados cederem às tentativas de fatiamento dos orçamentos públicos em função de interesses privados pode afetar seriamente as chances de o Brasil se consolidar em curto prazo entre os países líderes.

O mesmo risco pressiona permanentemente as decisões pontuais da política econômica, pela ação de lobistas no Congresso, nos ministérios e na imprensa.

Além disso, embora o crescimento econômico baseado no estímulo ao mercado interno – uma estratégia que diferencia os governos da atual aliança política de seus antecessores – seja a principal garantia da relativa estabilidade alcançada até aqui, ainda não estamos imunes a um retrocesso, em função das pressões da crise internacional.

Vivemos um ciclo virtuoso no qual o otimismo produzido pela sensação de bem-estar econômico realimenta a economia pela manutenção de uma grande confiança no futuro, conforme a pesquisa publicada há uma semana (ver http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_data_passou_em_branco), na qual se revela que o brasileiro é o povo mais feliz e otimista do mundo.

A quebra de um dos elos nessa cadeia positiva pode gerar instabilidades.

O Brasil vem reduzindo as diferenças sociais há doze anos seguidos, conforme a citada pesquisa do Centro de Estudos Sociais da Fundação Getulio Vargas.

Observe-se que as crises noticiadas ou insufladas pela imprensa não se manifestam diretamente no corpo social, mas claramente se localizam nas instituições da República, aquelas reorganizadas no âmbito da Constituinte de 1988.

Ali se concentram as grande mazelas nacionais e não há nenhum desses poderes que não tenha sido contaminado pela corrupção que alimenta o sistema de compadrio nascido na excludente “sociedade civil organizada”.

O leitor criterioso há de perguntar: “por que, em vez de ficar cutucando cada ferida, a imprensa não abre o leque e denuncia a necessidade urgente de uma reforma geral no sistema político?”

Cartas para a redação.

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