Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

Programa nº 2213

>>Quanto vale uma imagem?
>>Fotografias mentem melhor

Por Luciano Martins Costa em 12/12/2013 | comentários

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Quanto vale uma imagem?

A mídia de todo o mundo reproduziu fotografias do presidente americano, Barack Obama, em atitude apontada por muitos como desrespeitosa em relação ao funeral do líder sul-africano Nelson Mandela.

Nas imagens, Obama parece se divertir na companhia do primeiro-ministro britânico David Cameron e da primeira-ministra da Dinamarca, Helle Thorning-Schimidt, enquanto a primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, faz expressões de desagrado.

Os chefes de Estado estavam acompanhando a cerimônia em homenagem a Mandela, e as imagens foram feitas depois do discurso de Obama, quando a "premier" da Dinamarca sacou seu smartphone e resolveu registrar sua presença junto com os dois líderes mundiais.

A mania de fotografar a si mesmo com um aparelho celular e postar a imagem nas redes sociais é conhecida pela expressão em inglês "selfie" ou "selfy", que foi recentemente incluída no dicionário Oxford como o principal neologismo internacional de 2013.

O hábito do "selfie" tornou-se praticamente um ritual indispensável à vida social, como uma forma de registrar encontros ou a presença das pessoas em lugares interessantes.

O ato de fotografar a si mesmo e divulgar imediatamente a imagem tornou-se parte do comportamento típico do nosso tempo – até o papa Francisco já posou para um smartphone junto a adolescentes na Basílica de São Pedro.

Mas a imagem dos três chefes de Estado juntando seus rostos sorridentes para caberem na tela do aparelho foi apontada pela mídia como atitude inconveniente, dada a circunstância do funeral.

Nesta quinta-feira (12/12), o Estado de S. Paulo reproduz texto do autor das fotografias que correram o mundo, Roberto Schmidt, no qual ele explica que as imagens foram tiradas de contexto.

Segundo Schmidt, que trabalha para a agência France Presse na Índia e foi enviado para reforçar a equipe na despedida de Mandela, a expressão aparentemente mal-humorada da primeira-dama Michelle Obama foi apenas uma casualidade, porque ela havia participado, momentos antes, da animada conversação.

Schmidt observa que, no momento da foto, todo ambiente no estádio Soccer City, em Johanesburgo, se parecia mais a um carnaval do que a um funeral, com dezenas de milhares de sul-africanos cantando e dançando em homenagem ao seu líder.

Fotografias mentem melhor

Tomando as fotos por seu significado explícito, jornais britânicos cobraram um comportamento mais adequado do primeiro-ministro Cameron, articulistas e comentaristas da imprensa conservadora dos Estados Unidos fizeram blague com as imagens de Obama rindo com a loura dinamarquesa, tendo ao lado sua mulher aparentemente aborrecida com a cena.

No entanto, o que se lê nas explicações do autor das fotografias reforça a convicção de que a imprensa, de modo geral, não está muito preocupada com os fatos, mas com a versão deles que possa parecer mais interessante.

No blog da France Presse (ver aqui), onde os correspondentes da agência costumam postar relatos sobre suas experiências profissionais, Roberto Schmidt manifesta sua tristeza por observar que a repercussão negativa de um flagrante sem qualquer importância acabou sendo maior do que o discurso de Obama, eclipsando as centenas de fotografias com que ele e seus colegas haviam tentado capturar os sentimentos dos sul-africanos e dos líderes mundiais que foram homenagear Mandela.

O episódio certamente vai se desvanecer rapidamente em poucos dias, como tudo que parece muito sólido no mundo midiático, mas fica o registro dessa síndrome do nosso tempo.

Sob o domínio vertiginoso das imagens, a capacidade de reflexão do ser humano parece ter ficado para trás na corrida contra a interpretação imediata dos signos visuais.

Até mesmo a máxima atribuída ao filósofo Confúcio, segundo a qual "uma imagem vale mais que mil palavras", precisa ser reconsiderada.

Segundo o fotógrafo que retratou a alegre confraternização dos chefes de Estado, imagens podem mentir, principalmente quando interpretadas no contexto da espetacularização que se propõe a todo tipo de acontecimento.

Ele se declara meio triste, ao constatar que "estamos tão obcecados com trivialidades do dia-a-dia, em vez de atentar para as coisas realmente importantes".

Parodiando Confúcio, pode-se dizer que uma imagem mente melhor que mil palavras.

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