Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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Programa nº 691

>>A fortaleza do crime
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Por Luciano Martins Costa em 09/01/2008 | comentários

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A fortaleza do crime

A descoberta, pela polícia do Rio de Janeiro, de uma fortaleza no alto do Morro da Mangueira, é a notícia-chave de hoje para quem pretende entender o Brasil.

Como as fortalezas que os antigos governantes erguiam para proteger seus países de ataques dos inimigos, os traficantes haviam construído uma barreira com estrutura de ferro e concreto, de onde podiam atirar contra quem se aventurasse morro acima.

Ao lado da fortificação, a polícia descobriu um local onde os criminosos torturavam, matavam e queimavam seus desafetos.

Os jornais de hoje não explicam como uma construção daquele porte pôde ser erguida no alto do morro sem que as autoridades percebessem.

Sua descoberta e destruição foram resultado de uma operação de rotina, no cumprimento de mandados de prisão.

Mas nenhum mandado foi cumprido, porque provavelmente policiais corruptos avisaram os criminosos.

Nenhuma outra notícia mostra hoje com tamanha clareza o retrato do verdadeiro Brasil: no momento em que, em Brasília, as autoridades discutem frações de alíquotas de tributos sobre operações financeiras, e enquanto no mercado se comemora o melhor resultado da poupança em todos os tempos, uma operação policial mostra o retrato da tirania a que grupos de criminosos submetem milhões de brasileiros nas grandes cidades.

Longe dos níveis de poupança, distantes dos indicadores econômicos, esses brasileiros vivem sob a ditadura sanguinária dos traficantes, sob o olhar complacente do Estado.

A imagem de um menino de doze anos obrigado a trabalhar no embalamento de cocaína é a síntese desse drama.

O Globo chegou a fazer uma série de reportagens em agosto do ano passado, revelando que a redemocratização do Brasil ainda não se completou. Nas favelas cariocas, a população vive sob regimes de terror, dominadas por traficantes, milícias armadas e policiais corruptos.

Em novembro passado, o jornal gaúcho Zero Hora publicou reportagem semelhante, mostrando o domínio do crime nas comunidades pobres, onde o manual dos traficantes substitui a Constituição.

A julgar pelo silêncio dos jornais paulistas, no mais rico Estado da População, onde se concentram as maiores densidades urbanas do País, reina a mais absoluta paz.

Banho de jornalismo

A série do Globo sobre a ditadura nas favelas cariocas, revelando que o crime organizado já produziu mais de sete mil mortes e desaparecimentos de cidadãos, ainda é uma raridade na imprensa brasileira.

Nossos jornais ainda vivem basicamente de declarações, indicadores e entrevistas curtas.

Os exemplos de jornalismo de qualidade são poucos.

Ouça o comentário de Luiz Egypto, editor do Observatório da Imprensa:

– O assunto já foi tratado aqui, mas continua oportuno. Tem a ver com o banho de jornalismo promovido pela revista Piauí na matéria que a repórter Daniela Pinheiro fez com o ex-ministro José Dirceu. A pergunta que fica, e foi formulada por Alberto Dines em artigo para a edição online deste Observatório, é singela: por que a imprensa diária não produz matérias com esse nível de profundidade?


Ok, a Piauí é mensal, tem tempo suficiente para pensar, pautar, apurar e editar; e um jornal diário vive na correria turbinada pelo fato, pela notícia e pelos fechamentos. Não que os jornais não devam cobrir o factual, ao contrário: o que faltam são as reportagens especiais, cada vez mais raras nos jornalões por conta das inevitáveis implicações de custo. E custo é coisa que o burocrata das redações quer logo cortar, o que lhe dá a sensação de contribuir para o sucesso da empresa jornalística. Ledo engano. Além de credibilidade, os leitores querem qualidade editorial, querem ser surpreendidos a cada edição com boas histórias para ler, querem jornalismo na veia. E por isso ainda estão esperando.

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/01/2008 José Orair Silva

    Parabéns ao OI por nos dar a importunidade de ler articulistas de tendências tão diversas como Luciano Martins Costa, Gilson Caroni, Alberto Dines, Ivan Berger, Sandro Vaia e outros, demonstrando na prática o que é afinal a pluralidade. Eu particularmente leio todos eles, sem qualquer preconceito, embora discorde mais de uns do que de outros… Segundo Luciano, ‘A julgar pelo silêncio dos jornais paulistas, no mais rico Estado da População, onde se concentram as maiores densidades urbanas do País, reina a mais absoluta paz’. Bem ou realmente São Paulo é uma ilha isolada de tranqüilidade num mar de insegurança ou a imprensa paulista tem julgado a questão de segurança de menor importância preferindo tratar de outros assuntos… Talvez o experiente jornalista Ivan Berger, possa nos ajudar a compreender esse fenômeno, ele que em seu artigo ‘A imprensa que o país merece’ de 08/01/2008 escreveu: ‘E quando digo que o país tem a imprensa que merece, talvez esteja de fato sendo injusto. Com a imprensa, bem entendido – reconhecidamente uma das mais plurais e capacitadas do mundo contemporâneo’. Certamente que essa bela declaração de amor e admiração pela imprensa brasileira estende-se também à imprensa paulista…

  2. Comentou em 09/01/2008 Carlos Carvalho

    Gostaria de registrar, em relação a essa notícia, minha discordância com o ‘especialista’ que afirmou em um telejornal de uma canal do grupo Globo que a fortaleza no morro da Mangueira teria sido construída porque os traficantes tinham se sentido acuados, e que não se tratava de (mais uma) demonstração de poder do tráfico. Ao jornal, creio que faltou a boa prática de apresentar alguém defendendo a opinião contrária, apresentando o contraponto. Creio que a opinião do ‘especialista’ demonstra muito bem a ‘criatividade’ carioca para minimizar a importância de fatos como esse, em parte devido à total incapacidade ou falta de empenho de enfrentar os problemas sociais buscando soluções. Assim ficamos no mesmo lugar, ou continuamos piorando, e passamos a nos ‘familiarizar’ com episódios envolvendo balas perdidas, que até muito pouco tempo atrás ocorriam ‘apenas’ nas (inúmeras) zonas de conflito da cidade. Afinal, são mais de 700 favelas, esse número continua crescendo, e não há nenhuma política minimamente eficaz para integrá-las à cidade e reduzir a violência que impera em tantas delas. O ex-prefeito de Curitiba Jaime Lerner esteve no ano passado no Rio, apresentando seus conhecimentos sobre urbanização, mas pelo jeito ninguém aprendeu nada. Será que estamos condenados à maldição de Macunaíma?

  3. Comentou em 09/01/2008 arnaldo boccato

    Os burocratas do financeiro ganharam no jornalismo e também na publicidade, tendo como resultado a pasteurização geral. As especiais viraram ‘matérias grandes’ esparsas, algo como comprar livro a metro para encher parede. Engraçado notar que as equipes de especiais foram sumindo no caminho inverso do surgimento das enormes promoções de discos, livros, enciclopédias e afins, montadas pelos jornalões. Pergunta: funcionou? O Estadão ganhou da FSP? Desfazer as equipes especiais, os dois desfizeram. Daqui a pouco o leitor vai descobrir que pra ler jornal de ontem não precisa mais assinar ou comprar em banca. Quem ganha é a Internet. E, pensando no futuro próximo (velocidade hoje é tudo), por que só exigir dos jornalões? Por que temer o amanhã, lembrando dos banhos mútuos do passado de IstoÉ e Veja? Rádio e TV não entram nessa? E a Internet? Imaginem dar algum toque de qualidade e especiais de verdade a um site de produção em massa. Quantos clics a mais isso iria garantir (clics diferenciados, é bom lembrar)?

  4. Comentou em 09/01/2008 Marco Antônio Leite

    Sem fazer apologia do crime do colarinho sujo. Porém, bem defendido e escondido que é sede de atividade da politicalha brasileira, a muralha da vergonha esta situada em Brasília. O que foi descoberto no morro da mangueira é apenas o reflexo da bandidagem de terno e gravata, bandidagem que circula livremente em todos os níveis de governo. O brasileiro esta órfão de pais que possam encaminha-lo de forma humana para os rumos do bem estar social. No entanto, o povo vive a margem do mínimo necessário para uma vida decente, ou seja, emprego, escolaridade, saúde, alimentação adequada entre outros bens importante para tirá-lo da miséria absoluta, a fim de que tenha uma fortaleza que proteja sua dignidade como ser humano.

  5. Comentou em 09/01/2008 valmir perez

    A polícia do Rio de Janeiro tinha que ter vergonha de confessar que somente agora descobriu o’forte’ dos traficantes. Como um aparato policial que tem helicópteros não conseguiu ‘enxergar’ isso antes? É chamar o cidadão de otário mesmo. Mas agora os políticos do Rio de Janeiro vão dar um jeito nos assaltantes proibindo motos com carona. Quem sabe o ano que vem eles resolvam também proibir as armas. O que se vê na verdade é um misto de incompetência, burrice, corrupção e banalização do crime. Pobres cariocas! Enquanto isso a galera dança o Créu para ver se sente mais inteligente e segura. Essa país está virando uma piada de mal gosto. Coitada da próxima geração! Já estão nascendo alienados e vão ter que pagar a conta de tanta coisa errada. Provavelmente daqui uma década eles já estejam mais acostumados com a violência diária e nem se lixem para o que provavelmente pode acontecer se nada for feito a partir de agora. Mas o carnaval vem aí e conserta tudo até o povo acrodar novamente na quarte de cinzas.

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