Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

Programa nº 1538

>>A notícia inconveniente
>>Sobre santos e príncipes

Por Luciano Martins Costa em 02/05/2011 | comentários

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A notícia inconveniente


A morte do comandante terrorista Osama Bin Laden quase apanha a imprensa brasileira de folga.


Nas edições nacionais de alguns jornais, a notícia não chegou a tempo, embora seu anúncio tenha sido feito em horário de funcionamento das redações.


Acontece que, nos finais de samana, os jornais operam em forma de plantão, como os hospitais, e nem sempre há especialistas a postos quando um fato relevante cisma de acontecer fora do horário comercial dos dias chamados úteis.


O aviso de que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, faria um pronunciamento importante sobre uma questão de segurança nacional foi divulgado em Washington por volta das 22 horas do domingo, dia 1o, 23 horas em Brasília.


Antes do pronunciamento, o motivo do anúncio já havia vazado, e os principais meios de comunicação internacionais já noticiavam a morte de Bin Laden, o que produziu comemorações em várias cidades americanas.


Só não promoveu uma maior mobilização nas redações brasileiras.


Na edição do Globo que circula no Rio de Janeiro, por exemplo, a manchete é a notícia da morte de Bin Laden.


Na versão que chegou aos assinantes paulistas, a manchete era a a conquista do campeonato carioca de futebol pelo Flamengo.


O mesmo aconteceu com as edições dos jornais paulistas que foram enviadas a outros estados e algumas cidades do interior mais distantes.


No momento em que as revoltas no mundo árabe parecem anunciar o fim de estranhas alianças internacionais como a que levou ao surgimento da AlQaeda, a morte de Osama Bin Laden carrega uma simbologia que deveria ter provocado comichões em todos os jornalistas.


Em outros tempos, muito provavelmente os especialistas, ao serem informados do acontecimento, teriam abandonado sua folga para contribuir com o trabalho dos colegas de plantão.


Mas o jornalismo brasileiro virou uma espécie de serviço burocrático, bem organizado, bem planejado, com banco de horas estritamente controlado para reduzir custos.


O resultado é esse: edições “meia-boca” nos finais de semana.


Sobre santos e príncipes


Alberto Dines:


– Qualquer avaliação mais consistente sobre “o casamento do século” na sexta-feira em Londres ficará incompleta se não for colocada ao lado da “beatificação da década”, encenada dois dias depois, em Roma. As douradas bodas do príncipe William com a plebéia Kate Middleton e a primeira fase do velocíssimo processo de santificação do Papa Karol Wojtila fazem parte de um mesmo processo que poderia ser chamado de “Marketing do Espetáculo”.


A monarquia britânica é uma fantasia que ficou escancarada com a morte da Rainha Vitória, última figura real efetivamente carismática, em 1901. O toque de romantismo da abdicação de Eduardo 7º (em 1936), os dramas amorosos da princesa Margareth (irmã da atual rainha)  e a trágica morte de Lady Di às margens do Sena, em 1997 – episódios intensamente midiatizados e agora esquecidos – confirmam que as monarquias deixaram a esfera do Estado e passaram a funcionar pela lógica das lantejoulas e dos holofotes. O rei da Espanha, Juan Carlos, é o único no mundo com algum peso político graças à habilidade na transição do autoritarismo para a democracia. O resto é folhetim. Ou fraude.


“Santo subito”, santo já,  pediam as faixas na praça S. Pedro, em Roma, depois do falecimento de João Paulo II em 2005. A Igreja católica perdia terreno para as confissões luteranas, multiplicavam-se os abusos sexuais em confessionários e seminários, o fracasso de George W. Bush na luta contra o Eixo do Mal comprometia as façanhas políticas do pontífice polonês que ajudou a romper a Cortina de Ferro.


A beatificação de Karol Wojtila está sendo considerada a mais rápida da história, a canonização e a santificação terão igual velocidade. Santidades reforçam a fé, quanto mais atuais, mais eficazes. A espiritualidade e a teologia saíram de cena, substituídas pela ferramenta da modernidade: a fabricação de fatos. Londres envolveu-os com charmes do novoriquismo e sonhos juvenis. A eterna Roma, mais pragmática, aposta em crenças.


Nossa mídia extasiou-se durante duas semanas no reino das abóboras e abobrinhas, incapaz de perceber que há algo de decadente na velha Albion. Se pudesse ficaria outras duas fofocando e tricotando banalidades em Londres e arredores. Caso clássico de interação entre mediadores e mediados. A cobertura da BBC na noite do casório foi muito mais sóbria do que a cobertura dos deslumbrados telejornais brasileiros.

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