Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

Programa nº 1265

>>Anunciando na chuva
>>A cidade inviável

Por Luciano Martins Costa em 08/04/2010 | comentários

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Anunciando na chuva


Chama atenção, nos exemplares do Estado de S.Paulo que chegaram na manhã desta quinta-feira aos assinantes, a capa coberta com manchas de tinta vermelha e preta.


À primeira vista, parece que o jornal já chegou velho e foi diretamente para uma de suas utilidades secundárias: como se sabe, além de embrulhar peixe e de aparar dejetos de gato, jornal velho também serve para proteger o chão quando se pinta a parede.


Mas era apenas uma dessas idéias geniais de publicitários que o departamento comercial adora “adorar”.


A capa falsa do Estadão abriga um anúncio de página dupla no qual o banco Itaú promete juros mais baixos para financiamento de reformas domiciliares.


O texto principal da propaganda, nas páginas internas da capa, anuncia “o crédito que ajudou um casal a mudar de casa sem trocar de endereço”.


Na capa, os respingos de tinta da publicidade não encobrem a manchete do jornal: “Deslizamento amplia tragédia”.


E segue-se a abertura da reportagem sobre novo deslizamento ocorrido em Niterói, no qual foram atingidas entre 30 e 50 casas, cujos moradores, ou pelo menos os que sobreviveram, certamente não achariam graça nenhuma no trocadilho involuntário do banco.


O caso ilustra bem o modelo de gestão adotado pela maioria da imprensa brasileira, no qual a redação sempre se submete aos critérios comerciais: ao departamento comercial compete garimpar dinheiro no mercado, a qualquer custo. Diante da crise estrutural que afeta a mídia impressa, nenhuma oportunidade deve ser desperdiçada.


No modelo que divide a empresa jornalística em dois blocos, alienados um do outro, o risco menor é esse – o de um anúncio sobre reforma da casa ornamentar a capa de uma edição cuja manchete é uma das maiores tragédias já ocorridas no país, quando milhares de pessoas perderam suas casas.


Faltou sensibilidade aos responsáveis pela comunicação do banco Itaú, faltou consideração por parte da direção do Estadão, faltou bom senso a todos os envolvidos.


Só não faltam motivos de festa para os intermediários que embolsam a gorda comissão da venda do anúncio.


A cidade inviável


Na seqüência da cobertura da tragédia provocada pela chuva e agravada pela incúria histórica das autoridades e insensatez de muitos cidadãos, os jornais entram numa fase mais técnica, reduzindo a ênfase na descrição dos dramas das vítimas e procurando explicar as causas de tamanha devastação.


Por enquanto, o noticiário mantém o governo do Estado e a prefeitura do Rio relativamente preservados.


Salvo uma ou outra referência a declarações mal elaboradas do governador Sérgio Cabral e do prefeito Eduardo Paes, os jornais parecem ainda não ter um personagem para malhar.


Com destaque no Globo, há referência a uma auditoria do Tribunal de Contas da União que levanta dúvidas sobre os critérios técnicos para a alocação de recursos da Secretaria Nacional de Defesa Civil, vinculada ao Ministério da Integração Nacional.


Segundo a imprensa, o ex-ministro Geddel Vieira Lima, que deixou o cargo recentemente para concorrer ao governo da Bahia, privilegiou o Estado onde pretende alavancar sua carreira política, em detrimento do Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina, que vêm sofrendo muito mais com as chuvas.


O tema mereceria mais detalhamento, uma vez que a denúncia pode lançar alguma luz sobre a partilha dos recursos federais e a eficiência dos instrumentos institucionais de controle.


Mas, por enquanto, a sequência de notícias trágicas não deixa espaço para mais do que relatos de novos dramas e a tentativa de explicar suas causas.


Os infográficos e textos técnicos reforçam a evidência de que, como todas as grandes cidades brasileiras, o Rio de Janeiro tem duas identidades.


Uma delas, a que habita os morros, é uma cidade inviável.


Os desenhos e as fotografias estampadas nos jornais escancaram a impossibilidade técnica de assegurar alguma estabilidade aos conjuntos de habitações penduradas nos barrancos.


Depois de décadas de ocupações desordenadas, sempre toleradas pelos sucessivos governantes, é hora de a imprensa fazer um mapa dessas inviabilidades e cobrar que um pouco do desenvolvimento que o Brasil espera para os próximos anos venha a beneficiar essa população abandonada desde sempre.

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