Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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>>Entrevista: O livro das vidas
>>Ainda os cartões

Por Luciano Martins Costa em 14/02/2008 | comentários

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Entrevista: O livro das vidas

Seguimos hoje com a última parte da nossa conversa com o jornalista Matinas Suzuki, o organizador da obra O Livro das Vidas, Obituários do New York Times, livro publicado pela Companhia da Letras.


Luciano Martins: – Matinas, você entende que é preciso ter um perfil profissional específico, para ser um bom obituarista?


Matinas Suzuki: – Eu acho que sim. Primeiro, precisa gostar de histórias humanas, precisa gostar de detalhes, de saber escolher detalhes (porque não é todo detalhe que interessa), mas precisa pesquisar bastantes detalhes sobre a vida dos obituariados, porque os detalhes, eles fazem a grande diferença. Precisa, evidentemente, ter um bom texto. Ter um bom texto é tudo em um obituário. Então, a combinação desses fatores não é muito fácil de achar. Por isso que, hoje em dia, precisa-se garimpar muito para ter um bom profissional na área dos obituários.


Luciano Martins: – Se alguém como você se dá ao trabalho de ler obituários ao longo de décadas, amostras do jornal New York Times, você poderia dizer que isso dá ao leitor uma história do comportamento, uma história de personagens que marcaram essa sociedade?


Matinas Suzuki: – Sem dúvida nenhuma. É uma antropologia. Nos Estados Unidos há muitas teses sobre os obituários do New York Times, comprovando. Desde as teses sociológicas mais tradicionais, que eles pegam mais brancos, mais gente rica, mais etc., até perfis mais interessantes, que é, por exemplo: Qual a faixa de idade que mais pegam? Qual o tipo de doença de que mais se morre nos Estados Unidos? Essa coisa toda até dos jornais mais regionais. Você estabelece um comportamento e, ao longo dos anos, como isso vem mudando: como aparecem mais mulheres, como aparecem mais negros, como vão mudando a profissão. Dá para se fazer uma antropologia da sociedade através dos obituários muito interessante, com recuo histórico; porque, como as pessoas que morrem são mais velhas, há um vácuo entre o que eles fizeram, o momento mais importante da vida deles e o momento da morte. Mas, sem dúvida, você consegue estabelecer isso.


Luciano Martins: – E as histórias do obituarista que não sobrevive ao personagem?


Matinas Suzuki: – Esse é, vamos dizer assim, o momento mais irônico da atividade do obituarista. É quando ele morre e ele deixa na gaveta alguns obituários prontos e o personagem dele não morreu. Eu brinco no posfácio que faço que esse é o momento apropriado para o obituarista se revirar na cova, porque o texto dele vai ser atualizado por uma outra pessoa, porque ele não vai estar aqui – e deu o melhor de si, escreveu, pesquisou, trabalhou, ralou, fez a reportagem, mas o texto final não vai ser dele.


Luciano Martins: – Muito bom. Obrigado, Matinas. Matinas Suzuki no Observatório da Imprensa, terminando assim nossa conversa com ele sobre o lançamento do O Livro das Vidas, Obituários do New York Times.


Ainda os cartões


Aquilo que a imprensa chama de o impasse dos cartões corporativos, bem poderia ser chamado de impasse da imprensa.


Desde que os jornais descobriram há um mês que ministros e funcionários graduados do governo usam e abusam dos cartões de crédito oficiais para gastos que não estão nos manuais, o dia-a-dia dos leitores tem sido como um conta gotas de um líquido amargo sobre um copo d’água.


A fonte dos jornais é quase exclusivamente o site oficial que faz o balanço público dos gastos do governo. Mas há, seguramente, outros meios mais eficientes, mais amplos e mais definitivos para contribuir com a melhoria e a moralização da administração pública.


Agora os jornais noticiam que a CPI chegou a um impasse. Os parlamentares interessados em investigar o assunto não conseguem um entendimento para abrir os trabalhos.


Ora, a primeira pergunta que se espera da imprensa seria: o Congresso está realmente interessado em criar mecanismos que resolvam definitivamente o problema?


Nossos representantes em Brasília já deram inúmeras demonstrações de sua capacidade de encenar indignação para deixar tudo terminar em pizza.


Não há como não lembrar o caso Banestado, que colocaria a nu o maior esquema de corrupção oficial já vislumbrado pela sociedade. Acabar definitivamente com os gastos abusivos da administração pública, seja no âmbito municipal, estadual ou no federal, significaria eliminar boa parte dos atrativos da carreira que fez a fama de próceres da política como Severino Cavalcanti ou servidores do Estado, como o notório ex-magistrado Lalau.


Se pretende preservar sua reputação, a imprensa precisa muito mais do que repetir discursos e declarações de políticos. Precisa sair, ela mesma, a campo. Para fazer uma CPI particular, que envolva todos os partidos e investigue toda a suspeita que foi levantada. Enquanto isso não acontece, o impasse não é apenas do Congresso, é também da imprensa e da sociedade brasileira.

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